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  • Maria Luiza Rückert

A breve trajetória do Lobo



Conheci o Lobo no depósito de gás do Rodrigo. Era o dia 7 de maio de 2016. Lá estava o filhote de pastor alemão com as orelhas em pé. Estava com pouco mais de 3 meses, pois ele nasceu em janeiro.


Levei o Lobo para Lagoa Santa, numa gaiola que o veterinário havia emprestado. A Brisa o recebeu com alguns latidos, mas ele pouco se importou. Chegando em casa, ele logo se instalou junto à porta da cozinha, mostrando determinação.


Enquanto filhote, Lobo deu bastante trabalho. Pensei em passá-lo adiante, antes de ele completar um ano. Fiz cinco tentativas, mas sempre surgia algum entrave. Por fim, concluí que o Lobo estava destinado a ficar comigo.


Brisa foi adoecendo. Ela tinha muitos problemas de saúde, inclusive leishmaniose. Chegou um momento em que foi necessário sacrificá-la. O auxiliar do veterinário veio buscá-la e Lobo cheirou a gaiola, pressentindo a morte da companheira. A partir daquele dia, Lobo se instalou na porta da frente da casa, onde passava a noite. Durante o dia, ela se deitava junto à janela do quarto de hóspedes e começava a mostrar sinais de abatimento. A solidão estava se tornando cada mais forte.


Encontrei a Fifinha, guardada numa gaiola na clínica veterinária. Ela havia sido largada na rua e o Mateus, auxiliar do veterinário, a recolhera. Ela estava há 20 dias dentro de uma gaiola. Quando me viu, ela ficou faceira. Lobo a recebeu com alguns latidos, mas ela estava muito alegre por ter um novo lar. Os dois passaram a se entender. O Lobo era mais reflexivo e a Fifinha, mas dinâmica, sempre alegre e sempre disposta.


Eu colocava uma cadeira de praia atravessada na porta, para que os dois se mantivessem na varanda. Um dia eu trouxe as duas vasilhas com ração e tropecei na cadeira de praia. A ração esparramou pelo chão e eu caí sentado. Fifinha avançou na comida e Lobo ficou olhando para mim, para ver se eu estava bem. Eu disse: “Come, Lobo, pode comer”. Ele viu que eu estava bem e entendeu que poderia comer.


Quando Maria Luiza e eu saíamos, o Lobo e a Fifinha ficavam esperando junto à portaria. Quando identificavam o carro, corriam para junto do portão. O Lobo se alegrava e mostrava essa alegria com todo o semblante. Sua alegria era tanta; parecia que nós não retornaríamos. Cada saída nossa era pesarosa e cada retorno, uma festa.


Quando eu abria a veneziana do quarto, de manhã cedo, os dois se apoiavam nas patas traseiras e ficavam com o focinho na altura da janela. O começo do dia era muito alegre. Quando eu abria a porta, os dois pulavam em mim. Era necessário usar roupa velha por causa da marca das patas.


Mantemos a porta da sala aberta durante o dia e até a hora de dormir. Principalmente à noite, Lobo exercia a vigilância junto ao portão. Depois de uns latidos fortes, ele vinha junto à porta procurando aprovação. Eu fazia o sinal de positivo e ele voltava gratificado para o seu trabalho.


Dentro de casa, o lugar preferido de Lobo era junto ao piano. E quando Maria Luiza tocava, ele ficava bem atento, escutando. E Maria Luiza ficava sensibilizada com essa reverência.



Certo dia eu levei a ração do almoço para os dois. Lobo me recebeu com disposição para comer. Mas Fifinha estava no fundo do terreno, caçando. Ele olhou para a tigela da ração, olhou para Fifinha. Foi então que ele superou sua disposição para comer e foi buscar a Fifinha. Ele insistia em manter um companheirismo à prova de tudo.


Ele gostava muito de passear no condomínio. Bastava eu dizer: “Vamos passear?!”, e ele se posicionava junto ao portão, com o semblante alegre e abanando o rabo. Durante o percurso, ele já sabia onde havia algum cachorro disposto a latir. Ele enxergava um gato de longe. Por duas vezes, ele foi atacado por algum cachorro inexperiente, mas o Lobo era muito valente e se saiu bem.


Num sábado à tarde fui passear com Lobo no condomínio. Deparamos com um casal visitante, que tem uma filha com limitações mentais e estava numa cadeira de rodas. Ela fez questão de acariciar a cabeça do Lobo. Os pais estavam relutando em aprovar o gesto da filha. Eu aproximei o Lobo, que se mostrou dócil e a menina acariciou sua cabeça. Os pais estranharam que o nome de um cão tão amoroso fosse Lobo. Eu expliquei: “Este é o Lobo bom”.


Lobo e Fifinha brincavam muito. Ele gostava de se deitar de costas na grama e ficava com as patas para o alto. Fifinha mordiscava seu pescoço e as orelhas. Quando eu estava perto, a brincadeira ficava ainda mais interessante para eles. Várias vezes durante o dia ele se aproximava de mim e deitava de costas, para que eu coçasse o peito e a barriga dele.


Quando o carroceiro Cheiroso passava com seu cavalo, os dois latiam e acompanhavam a carroça ao longo da cerca. Também latiam intensamente quando alguém passeava com seu cachorro. Veículos de clínicas veterinárias, com cheiro de cachorro, eram recebidos com muitos latidos.


Em 2017, no dia do meu aniversário, levantei e vi a Fifinha olhando para dentro de casa pela janela. Ela estava com três palitos amarelos no focinho. Quando abri a porta, vi que ela havia enfrentado um porco-espinho. Olhei para o Lobo, que estava encabulado e envergonhado de ter caído na armadilha. Coloque-o no meio das pernas e permitiu que eu retirasse 82 espinhos. Depois tirei os três espinhos da Fifinha. No dia seguinte, Lobo me recebeu radiante de manhã, era gratidão. Ele sabia que eu era o seu amigão, disposto a ajudar. Ele podia contar comigo.


Lobo também se mostrava paciente quando era necessário tirar um bicho berne de seu corpo. Um foi tirado pela vizinha e outro por mim. Ele compreendia que o procedimento era para o bem dele. Quando ele teve um problema no olho direito, uma veterinária recomendou um colírio anti-inflamatório, o qual teve que ser aplicado durante dez dias. E Lobo colaborou.


Num sábado, o funcionário da casa de ração veio aplicar a vacina anti-rábica em Lobo. Ele preparou a seringa e eu coloquei o Lobo no meio das minhas pernas. Na segunda-feira, o veterinário veio aplicar a vacina contra Leishmaniose e também a múltipla. Quando Lobo viu o veterinário preparando a seringa, ele veio ao meu encontro e enfiou a cabeça no meio das minhas pernas. Ele sabia que devia colaborar.


Eu sempre repetia: “Eu só posso morrer depois de o Lobo falecer; ele não vai suportar a minha ausência”.


A cada dia Lobo foi se tornando ainda mais inteligente. Quando ele me via com a chave do carro e os documentos na mão, ele ia espontaneamente para o canil, pois sabia que eu precisava abrir o portão. E levava a Fifinha junto. Também quando eu voltava e estacionava o carro para entrar no portão, ele atraía a Fifinha para irem juntos ao canil.

Em novembro de 2018 fiquei sabendo que eu deveria fazer cirurgia de catarata. Quando tínhamos conseguido agendar os exames e a cirurgia no Hospital Evangélico de Vila Velha, onde Maria Luiza havia trabalho, manifestou-se também uma hérnia inguinal. Essa cirurgia também foi encaixada.



A hérnia estava bem saliente e exigia alguns cuidados. Tornou-se difícil levar o Lobo para passear, pois ele era muito voluntarioso e exigia muita força para controlar a coleira. Pedi ao Rodrigo para passear com ele. Quando eles saíram do portão, o Lobo parou e olhou para trás; ele estava me encarando com um olhar de interrogação. Eu disse: “Vai Lobo, pode ir passear”. Foi uma vivência muito significativa e marcante.


Viajamos a Vila Velha no dia 7 de fevereiro de 2019. Pensávamos em resolver as cirurgias em 20 ou 30 dias. Mas, tive que repetir exames para verificar a coagulação do sangue e tivemos que contar com o carnaval e mais uma semana de folga do médico. As cirurgias foram bem sucedidas, mas acabamos permanecendo 48 dias fora de casa.


Além disso, Rodrigo tinha compromisso de entregar móveis dentro do prazo. Por isso, ficava o dia inteiro em Belo Horizonte. O Lobo e a Fifinha ficavam sozinhos na varanda e na frente de casa. O Lobo deve ter concluído que eu morri. Isso foi demais. E a imunidade do Lobo baixou muito. Ele contraiu uma inflamação nos ouvidos. E na orelha direita surgiu um papiloma, de origem virótica. Tinha também caroços subcutâneos. Rodrigo o levou ao veterinário, o qual lhe aplicou antibióticos, antiinflamatórios e corticóide. Mais tarde, o veterinário denominou esse tratamento de “verdadeira bomba”.


Retornamos no dia 26 de março, chegando em casa às 22:00 horas. Junto ao portão, chamei o Lobo e a Fifinha. Ela estava muito alegre, mas o Lobo parecia não acreditar. Estava travado, em choque. No dia seguinte, ele conseguiu se dar conta de que eu havia retornado.


Lobo tinha momentos de alternância entre se alimentar bem e apresentar falta de apetite. Ele também estava muito ofegante. Ás vezes, a respiração voltava ao normal. Ele também poderia estar com anemia e, por isso, o Rodrigo lhe dava dois comprimidos diários de sulfato ferroso. Também dávamos a ele três gotas diárias de óleo de copaíba, um antiinflamatório muito potente. Tínhamos a esperança de que isso poderia ajudar na sua convalescença.


Na quinta-feira à noite, 11 de abril, Rodrigo deu um pedaço de carne para o Lobo. Em seguida, ele caiu esticado no chão e estava salivando. Levamos o Lobo ao veterinário. Chegando à clínica, Lobo estava aparentemente bem. O veterinário pediu exames de sangue e entendeu que Lobo havia se engasgado. Voltamos para casa.


Na manhã seguinte, procurei por Lobo, que havia ido dormir no fundo do terreno. Ele estava cansado. À tarde, Bruno e eu damos um banho nele, pois os caroços eram um problema dermatológico.


À tarde, Rodrigo e Maria Luiza saíram para fazer compras. Fiquei em casa e Lobo ficou junto de mim. Eu acariciava a cabeça, o pescoço e o peito dele. Ficamos em silêncio durante muito tempo.


À noite, quando estávamos nos preparando para dormir e Lobo estava acomodado no sofá da varanda, Maria Luiza ouviu um gemido. Ela e Rodrigo foram ver. Lobo estava esticado no chão, com a língua roxa. Rodrigo apalpou a língua e a garganta e escutou o coração, que estava batendo fraco até parar. Lobo morreu – diante da porta da casa que ele vigiou e protegeu tantas vezes.


Levamos Lobo até a clínica, e o veterinário constatou que ele não teve espasmos, pois as pernas não estavam rígidas. Lobo morreu sem sofrimento.


Ainda naquela noite contamos o ocorrido para Cláudia, a vizinha, que ficou perplexa, pois tinha visto ele se movimentando durante o dia. A cachorra da vizinha também está chorosa, sentindo a ausência do Lobo.


Lobo era uma presença marcante. Ele impressionava pelo seu porte, pelo seu olhar, pelo seu latido. Bastava eu pisar fora de casa, ele estava ao meu lado.


No período em que estive em Vila Velha eu sonhei muito com o Lobo e a Fifinha. Ao total, devem ter sido 7 sonhos. No último, sonhei que Lobo estava doente. Quando retornei, constatei que o sonho era uma mensagem da realidade. Felizmente pudemos nos rever. E pudemos conviver juntos durante 17 dias. Teria sido mais doloroso se ele tivesse morrido antes de eu voltar. Mas, posso dizer que guardo boas lembranças desses 17 dias.


Estou escrevendo estas linhas como um tributo ao meu grande amigo.


Lobo viveu apenas 3 anos. Mas viveu intensamente e cumpriu sua tarefa. Ele estará sempre na minha memória.


Paulo Rückert




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