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  • Maria Luiza Rückert

A CARTA AOS EFÉSIOS

Paulo Rückert

Um Breve Comentário

Sumário

O contexto histórico da carta aos Efésios.

A semelhança entre a carta aos Colossenses e a carta aos Efésios.

A autoria da carta aos Efésios.

Os destinatários.

A estrutura da carta aos Efésios.

Considerações finais.

A carta aos efésios faz parte das cartas do cativeiro. Quando Paulo esteve preso em Éfeso, ele escreveu as cartas aos filipenses, aos colossenses e a Filemom.

Novamente preso em Roma, Paulo escreveu a carta aos efésios e a segunda carta a Timóteo. Portanto, é provável que a carta aos efésios e 2 Timóteo tenham sido escritas no segundo cativeiro em Roma, por volta do ano 67. As outras três cartas do cativeiro foram escritas em Éfeso, entre os anos 55 e 57.

Resumo da cronologia da vida do apóstolo Paulo.

Nasceu em Tarso, no ano 5.

Aos 28 anos, empreendeu a perseguição em Damasco. Jesus se manifestou e aconteceu a conversão de Saulo, que se tornou Paulo.

Começou a pregar em Damasco e teve que fugir (At 9:20-25). Permaneceu três anos na Arábia (Gl 1:17). Dirigiu-se a Jerusalém. Voltou a Tarso (At 9:26-30).

Nove anos depois, Barnabé chamou Paulo para trabalhar em Antioquia (At 11:19-26).

Aos 41 anos (treze anos depois de sua conversão), Paulo foi enviado para ser missionário entre os pagãos (46-49). Foi a primeira viagem missionária.

No ano 48 houve uma grande fome na Judéia.

No ano 49 aconteceu o Concílio de Jerusalém (At 15).

Empreendeu a segunda viagem missionária (50-53).

Em Corinto, Paulo escreveu 1 Tessalonicenses (ano 51) e, depois, 2 Tessalonicenses.

Realizou a terceira viagem missionária (54-58).

Preso em Éfeso, Paulo escreveu as “cartas da prisão”: Filipenses, Colossenses, Filemom.

Libertado, em 56 escreveu 1 Coríntios. Escreveu também 2 Coríntios e Gálatas. Em 57/58, ele escreveu Romanos.

Durante os anos 58-60, esteve preso em Jerusalém e Cesaréia.

Em 61, foi transferido para Roma, na condição de preso sob custódia militar - até o ano 63.

Paulo visitou Éfeso (onde instituiu Timóteo) e Creta (onde encarregou Tito de dirigir a igreja), em 65. Escreveu 1 Timóteo e Tito.

Em 67, Paulo foi novamente preso em Roma. Na prisão escreveu a carta aos Efésios e 2 Timóteo.

Foi decapitado aos 62 anos fora dos muros da cidade de Roma, no lugar chamado Tre Fontane.

Paulo trabalhou durante quase três anos em Éfeso (At 19:1 - 20:1.31). Mas a carta é um tanto vaga para quem conviveu tão intensamente com a comunidade. Observemos Ef1:15; 3:2.3 e 4:21. É possível até que a carta tenha sido originalmente uma circular para as comunidades próximas a Éfeso. Observemos Cl 4:16. A carta a Laodicéia deve ser uma cópia dessa circular. Isso mostra que havia um intercâmbio de cartas entre as igrejas. Assim sendo, foi preservada a cópia dirigida a Éfeso. Em vários manuscritos a indicação “em Éfeso” é omitida. O NT grego traz a designação entre colchetes: [em Éfeso].

A carta é o resultado de uma reflexão longa e amadurecida.

Podemos perceber na carta dois grandes blocos:

- 1:3 - 3:21: A Igreja é o Corpo de Cristo.

Fomos escolhidos por Deus antes da fundação do mundo. Devemos vivenciar o mistério de Cristo. A doutrina apostólica é o fundamento da igreja. Judeus e pagãos são acolhidos na igreja, constituindo uma unidade em Cristo. Não existe mais barreira entre Israel e as nações pagãs.

- 4:1 - 6:20, Diversidade de dons e unidade de espírito na Igreja.

Devemos nos revestir da nova natureza. A família deve ser estável. Nossa vida de fé é um combate espiritual. É uma exortação aos batizados. O batismo significa a participação dos cristãos no destino de Cristo.

A morte e a ressurreição de Cristo provocam uma transformação radical na pessoa que crê. A pessoa deve abandonar a antiga maneira de viver, para se “revestir de Cristo”.

A carta apresenta uma fundamentação Cristológica para o relacionamento entre as pessoas. Os filhos devem obedecer aos pais “no Senhor” (6:1).

A união entre Cristo e sua igreja proporciona uma nova dimensão às relações interpessoais. Em 5:22-6:9 é apresentado um catálogo de normas para o convívio no lar. O critério para esse relacionamento encontra-se em 5:21 – “sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo”. Este versículo é programático das normas para o lar.

Numa sociedade que desprezava o labor braçal, Paulo confere dignidade ao trabalho, apontando para uma dimensão social (4:28).

Deve haver vigilância para que não aconteçam retrocessos na conduta cristã. O cristão deve se equipara para travar combate com as potências celestes.

Chama atenção a relação entre Efésios e Colossenses.

Observemos os temas paralelos:

Efésios Colossenses

1:6-7 Em Cristo somos libertados e perdoados 1:13-14

1:13 A palavra da verdade: o Evangelho 1:5

1:15 O apóstolo soube da fé e do amor dos cristãos 1:9

1:15-16 Gratidão a Deus pela fé e pelo amor 1:3-4

2:1 e 5 Estavam mortos e Deus deu-lhes vida 2:13

2:2-3 A conduta de outrora 3:7

3:1-13 O mistério oculto e agora revelado 1:24-29

4:15-16 Cristo, Cabeça do Corpo 2:19

4:22-24 Despojar-se do homem velho e revestir-se do novo 3:9-10

5:6 A ira de Deus sobre a rebeldia 3:6

5:19-20 Gratidão com cânticos 3:16-17

5:21 – 6:9 A ética “no Senhor” 3 :18–4:1

6:18-20 Intercessão pelo apóstolo e Evangelho 4:2-4

6:21 Tíquico dará notícias a respeito do apóstolo 4:7

A temática de Colossenses é cristológica; a de Efésios é eclesiológica.

A pesquisa teológica constata que Paulo se inspirou em Colossenses para redigir Efésios. Prisioneiro em Roma, Paulo escreveu uma carta circular sobre o mistério da salvação e da Igreja. A carta representa um estágio bem elaborado da reflexão eclesiológica. Existe a possibilidade de Paulo ter confiado a redação a um secretário.

A ideia fundamental da carta é a universalidade da igreja e a sua união com Cristo.

Judeus e pagãos, convertidos à fé cristã, formam um só Corpo, do qual Jesus é a Cabeça. Em Cristo, Deus reúne todos os seres humanos na paz e na unidade, eliminando todas as diferenças.

O tema central é o desígnio de Deus estabelecido desde toda a eternidade. O mistério de Deus permaneceu oculto durante os séculos, foi realizado em Jesus Cristo, revelado aos apóstolos e desenvolvido na Igreja. A partir da Cabeça, Cristo, a Igreja se expande até a plenitude universal. A Igreja é simultaneamente terrestre e celeste. A revelação de Deus é concedida na e pela igreja. Ocorre assim a explicitação do mistério divino. O mistério da união de Cristo com sua igreja torna-se modelo para a união no casamento. A igreja é o Povo de Deus e o Corpo de Cristo. O crescimento do Corpo se estende até às esferas celestes. A salvação já é uma realidade.

Nas cartas anteriores, o conceito de Igreja se aplicava às comunidades locais. Em Efésios, a Igreja é uma realidade universal, quase personificada (como a Sabedoria de Deus no AT – Pv 8:22-36).

A carta aos Colossenses enfatiza que a plenitude divina veio habitar Cristo (Cl 2:9).

A carta aos Efésios salienta que a Igreja é a plenitude de Cristo. As declarações sobre Cristo tornam-se afirmações sobre a Igreja (Ef1:22-23). Efésios trata de temas da teologia de Paulo: a salvação pela graça, o povo de Deus, o Espírito Santo. Esses temas não aparecem em Colossenses.

O mundo passou por uma transformação após a morte e ressurreição de Cristo.

A autoria da carta aos Efésios.

Muitos pesquisadores fazem distinção entre as cartas autênticas de Paulo e as que teriam sido escritas por discípulos do apóstolo.

A mudança de estilo é um dos argumentos apresentados contra a autoria de Paulo. Observemos este comentário da Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB).

O vocabulário de Paulo mudou. “Num total de 902 palavras usadas nas Pastorais, 305 não se encontram em parte alguma dos outros escritos de Paulo, e 175 em parte alguma do resto do NT” (Tradução Ecumênica da Bíblia). “Alguns desses vocábulos não possuem um significado teológico especial, como estômago (1 Tm 5:23), avó (2 Tm 1:5), pergaminho (2 Tm 4:13), e há também os latinismos como ‘levar uma vida’ (1 Tm 2:2), ‘malfeitor’ (2 Tm 2:9), atestando que o lugar vivencial das cartas pastorais seja Roma. Em 2 Tm são encontrados 30 imperativos. Outros escritores da literatura universal também tiveram transformação linguística na medida em que envelheceram. Portanto, a mudança de estilo literário não é motivo para questionar a autenticidade das cartas pastorais”.

O teólogo Joachim Jeremias tem se destacado na pesquisa dos lugares geográficos e históricos, nos quais se originou o Novo Testamento, empenhando-se inclusive na pesquisa do aramaico, a língua falada por Jesus e pelos discípulos. J. Jeremias também pesquisou as condições das prisões, nas quais o apóstolo Paulo esteve preso, mostrando a precariedade das condições para se escrever uma carta.

“Finalmente, sublinhou-se a importância que o secretário deve ter adquirido na redação dessas cartas. Este argumento parece de singular peso a J. Jeremias. O amontoamento dos prisioneiros, a sujeira e a deficiência de iluminação dos calabouços, a dificuldade de escrever com a técnica antiga – que deve ter exigido para 2 Tm vários dias de trabalho -, permitem supor que a influência do secretário tenha sido considerável. A par dos trechos que Paulo lhe ditou pessoalmente, por exemplo 2 Tm 4,6-18, pode ser que tenha redigido longos fragmentos em que se referia ao ensino do apóstolo e a suas conversas com ele. Foi ele igualmente que, por própria iniciativa, deve ter integrado nas Pastorais os fragmentos de hinos como 1Tm 1,17; 3,16; 6,15-16 e 2Tm 2,11-13, cuja origem é cultual. Os demais pontos relativos à questão da autenticidade podem ser passados em revista mais rapidamente. Como foi visto acima, as dessemelhanças entre os ensinamentos das Pastorais e o paulinismo são importantes. Seria possível deduzir daí um argumento decisivo contra a autenticidade? Tal possibilidade chegou a ser cogitada. Mas pode-se também admitir que estes escritos datem da velhice do apóstolo, numa época em que devia enfrentar problemas diferentes dos de suas primeiras epístolas” (Tradução Ecumênica da Bíblia).

Assim como Pedro teve a sua pregação compilada por um auxiliar, o mesmo pode ter acontecido com Paulo. A primeira carta de Pedro deve ter sido redigida por Silvano, como o próprio texto atesta (5:12).

Joachim Jeremias também se empenhou pelo resgate da confiabilidade nos textos do Novo Testamento. No início do século XX, questionou-se a autenticidade de muitos textos bíblicos. J. Jeremias inverteu essa situação, mostrando que os textos são fidedignos.

“Nossa fé é retornar à viva voz verdadeira de Jesus. Quão enorme será o lucro, se obtivermos sucesso em redescobrir, aqui e ali, por detrás dos véus, as características do Filho do Homem! O simples fato de encontrá-lo pode, sozinho, dar força à nossa pregação” (J. Jeremias, As parábolas de Jesus).

Em sua Teologia do Novo Testamento, Jeremias quer investigar se “as nossas fontes são suficientes para nos capacitar a apresentar as ideias básicas da pregação de Jesus com algum grau de probabilidade”.

Em sua pesquisa teológica, ele emprega

1. O método comparativo para examinar se uma declaração provém do judaísmo ou da igreja primitiva.

2. O exame da linguagem e do estilo para reconstruir a ipsissima vox Jesu.

Analisando os Sinóticos, Jeremias afirma que “é a inautenticidade, e não a autenticidade das declarações de Jesus, que deve ser demonstrada” (Joachim Jeremias, Teologia do Novo Testamento).

Os destinatários.

A carta circular foi destinada a diversas igrejas da Ásia Menor. Os leitores são cristãos oriundos do paganismo.

“O tema central da Epístola aos Efésios é o desígnio de Deus (o mistério), fixado desde toda a eternidade, oculto durante os séculos, realizado em Jesus Cristo, revelado ao apóstolo, desenvolvido na Igreja. Esta é celebrada como uma realidade universal, simultaneamente terrestre e celeste, ou melhor, como a realização atual da obra de Deus, a nova criação. A sua expansão, a partir da cabeça, Cristo, até a plenitude das dimensões previstas por Deus, constitui a vasta perspectiva para a qual o autor dirige os olhares dos crentes. Esse dinamismo exprime-se nas imagens entrecruzadas do crescimento do corpo e da edificação da casa de Deus. Integrados pelo batismo neste corpo, no qual estão reunidos Israel e as nações pagãs, os cristãos se tornam criaturas novas, pelo louvor, o conhecimento e a obediência. Eles figuram como núcleo central da reunificação do universo” (Tradução Ecumênica da Bíblia).

A carta conclama os judaico-cristãos e os gentílico-cristãos a viverem em unidade, empenhando-se no aprimoramento da conduta cristã.

ESTRUTURA DA CARTA AOS EFÉSIOS.

A carta se divide em duas partes fáceis de distinguir.

Primeira parte: a Igreja é a plenificação da obra de Deus (Ef. 1 – 3).

1:1-2 – Saudação.

1:3-14 – A celebração da graça ilimitada de Deus.

1:15-23 – Deus estabeleceu Cristo como Cabeça da Igreja e Senhor do Universo.

Cap. 2 – A grande reviravolta realizada por Cristo.

2:1-10 – O que estava morto está vivo. A salvação pela graça.

2:11-22 – O que estava dividido está reconciliado.

3:1-13 – A posição do apóstolo no desígnio de Deus.

3:14-19 – Oração de adoração pelo amor incomensurável de Cristo.

3:20-21 – Doxologia.

Segunda parte: exortação aos batizados (Ef 4 – 6).

4:1-16 – A unidade, a edificação e o crescimento do Corpo de Cristo.

4:17-31 – Abandonar a antiga maneira de viver e revestir-se de Cristo.

4:32-5:2 – Imitar a Deus.

5:3-20 – Passar das trevas para a luz.

5:21-6:9 – As novas relações em Cristo.

5:25-32 – A união de Cristo com sua Igreja.

6:10-17 – O combate contra as potências celestes.

6:18-20 – Exortação à oração.

6:21-22 – Breves mensagens.

6:23-24 – Saudação final.

1:1-2 – Saudação.

Era costume começar com os nomes do remetente e do destinatário. Depois da saudação, prosseguia-se com ação de graças.

Paulo se apresenta como apóstolo. O termo designa alguém enviado com um encargo. Equivale a “mensageiro”. O título de apóstolo referia-se aos doze discípulos, que acompanharam Jesus em sua vida terrena (Mc 3:13-19). Paulo se entendeu como um apóstolo “nascido fora de tempo” (1Co 15:8), pois Jesus se manifestou a ele depois da Ascensão. Mas, por ter sido escolhido pessoalmente por Jesus, no caminho de Damasco, Paulo defendeu com energia o seu título de apóstolo.

Os destinatários são os santos e fiéis em Cristo Jesus. Os santos são aqueles que confiam sua vida a Deus e foram chamados e separados para servi-lo e adorá-lo. São as pessoas consagradas pelo Espírito Santo (Rm15:16). Os cristãos são chamados de santos, e o título pode ter um componente ético (Cl 3:12 e Ef 5:27). No AT, a santidade consiste em ser consagrado a Deus. O povo de Deus foi estabelecido pela eleição divina e colocado à parte. A santidade de Israel é obra de Deus. O povo deve responder pela obediência e pela prática da justiça. No NT, o cristão é santo porque foi chamado por Deus para ser membro do seu provo consagrado, e o Senhor lhe confia uma missão. Essa vocação implica e exige santidade de vida. Aquele que é santo -por iniciativa de Deus – realiza sua vocação pela obediência pessoal; seu comportamento é a santificação. O cristão deve progredir na santificação para realizar a santidade que lhe foi dada em Jesus Cristo. Deve progredir na santificação pela prática da justiça (Ap. 22:11). A santificação é a realização da nova vida proporcionada em Cristo por ocasião do batismo.

Os destinatários são os “santos que estão [em Éfeso] e fiéis em Cristo Jesus”. A indicação em Éfeso é omitida por vários manuscritos. Alguns Pais da Igreja não chegaram a conhecer essa indicação. Tendo em vista que as palavras que estão encontram-se atestadas por todos os manuscritos, levantou-se a hipótese de ver na epístola uma carta circular: o nome dos destinatários teria sido deixado em branco. Em Cl 4:16 é mencionada uma carta dirigida à igreja de Laodicéia. Alguns exegetas reconhecem nessa carta a epístola aos Efésios. Efetivamente acontecia a troca de cartas entre as igrejas. Formaram-se, então, coleções de epístolas. A hipótese da carta circular é sustentada pelo fato de que a carta é um tanto vaga para um apóstolo que conviveu tão intensamente com a igreja de Éfeso, como observamos em Ef1:15; 3:2-3 e 4:21. Nesse caso, a carta aos laodicenses não estaria perdida, mas seria a que é atualmente considerada a epístola aos efésios.

1:3-14 – Deus abençoa e salva.

O texto tem a forma de hino, e é composto de partes litúrgicas mais antigas. Esses elementos litúrgicos tiveram seu lugar vivencial no culto da cristandade primitiva. Eram originalmente confissões de fé. Nota-se uma forte influência semita. O louvor celebra a graça de Deus. Esta modalidade de bendizer Deus é muito difundida na literatura judaica.

O v. 3 contém um louvor a Deus, que nos abençoou em Cristo. Nesta declaração encontramos o pensamento trinitário. Observemos também 2Co 13:13. Podemos contar com as bênçãos espirituais, que nos foram preparadas nos céus, e possuem uma dimensão escatológica, ou seja, voltada para a plenitude dos tempos. A carta situa Cristo, a Igreja e os cristãos nos céus, onde também foram vencidas as potências adversárias (6:12).

O nosso louvor a Deus é uma resposta à bênção recebida através de Cristo. Deus é o sujeito dos verbos. Observemos a dinâmica sucessiva da bênção: eleição (vv. 4-5), libertação (6-7), recapitulação: resumo e reunião (8-10), herança prometida (11-12) e dádiva do Espírito (13-14). São temas da aliança do Antigo Testamento e que agora se tornam realidade na Igreja de Cristo. A bênção é a expressão da iniciativa absoluta da graça de Deus.

O texto inicia com o louvor da igreja, adorando a Deus e expressando gratidão por aquilo que ele realizou através de Cristo. Toda a obra de Cristo é reconhecida como uma bênção recebida do Pai celestial.

Ao olharmos o plano salvífico de Deus em seu todo – Natal, Crucificação, Ressurreição (na Páscoa), Ascensão e Pentecostes – então brota em nós um reconhecimento e uma gratidão a Deus, o Pai de Jesus Cristo. Somos impulsionados então a responder em gratidão “para o seu louvor e glória”, pois ele nos presenteou em sua graça.

Os vv. 4 a 6 mostram que em Cristo também se realizou a nossa eleição, a escolha. A fé reconhece que toda bênção recebida tem o seu ponto de origem no evento de Cristo.

A escolha realizada antes do início dos tempos também é mencionada em Rm8:28-29.

Deus, o Pai, nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo. Observemos também textos como 1Co 2:7; 2 Tm 1:9 e Tt 1:2. Essa eleição se concretiza historicamente em nossa vida por ocasião do batismo. Mas, a eterna escolha já se manifestou em Cristo, que é pré-existente, e isso aconteceu antes de minha experiência pessoal de ouvir, crer e pensar.

A predestinação é um mistério que nos mostra uma verdade: a fé não cria a nossa salvação; ela é a atitude de aceitar a salvação como presente de Deus. Antes mesmo de Deus pensar em criar o mundo, ele já havia proposto em sua vontade a salvação do ser humano. O começo de nossa eleição aconteceu antes da criação do mundo por intermédio do Cristo pré-existente. Vejamos Cl 1:15-20 e 2 Tm 1:9-10.A nossa predestinação aconteceu “nele” (vv. 4 e 11); toda a obra da salvação foi realizada em Cristo. Deus nos predestinou “em amor” para sermos como seus filhos. A expressão “em amor” pode estar relacionada com o que antecede ou com o que segue. Exegetas e tradutores se dividem em relação à posição da expressão “em amor” (no final do v. 4). A Bíblia Pão Nosso (Vozes), a Edição Pastoral, a TEB, a Bíblia de Jerusalém e a Bíblia do Peregrino traduzem “Para sermos santos e irrepreensíveis sob o seu olhar, no amor” (TEB). A Bíblia de Estudo Almeida, a NVI, a Bíblia Reina-Valera, Lutero, Zürcher Bibel (segue a Reforma de Zwingli) traduzem: “Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos” (NVI). Na primeira modalidade de tradução, a ênfase recai sobre o componente ético. A designação “santo” implica um novo estilo de vida. Na segunda modalidade de tradução é enfatizado o amor de Deus por nós. A predestinação acontece em amor.A nossa salvação foi então anunciada e confirmada (v. 9).

Karl Barth se ocupou com o desígnio eterno de Deus e reformulou a doutrina da Predestinação. A respeito dessa questão, ele soube se expressar com muita clareza: "Quando nós decidimos perante ela (a predestinação), então sempre já está decidido sobre nós mesmos: ‘Desde o princípio’ (2Ts 2:13), inclusive ‘antes da criação do mundo’ (Ef 1:4), portanto antes de tomarmos conhecimento dela ou sequer necessitarmos dela, independentemente (e entenda-se bem: independentemente no próprio Deus) da concretização e de toda a formação pecaminosa ou justa de nossa existência". Assim devemos entender a livre graça de Deus, que não se limitou a agir em resposta ao nosso pecado, mas, de um modo livre e soberano, decidiu se manifestar em Jesus Cristo, inclusive “antes da criação do mundo”.

O desígnio eterno de Deus é nos predestinar para si em Jesus Cristo. Ao voltar a se referir a esta questão, Barth declarou: "Mas esta precedência está apontando é para Deus, e não para uma precedência temporal ou lógica. A precedência divina e a precedência do criador do céu e da terra nada têm a ver tampouco com uma precedência a ser deduzida com necessidade racional. Afinal de contas, as prioridades lógicas e temporais não passam de prioridades intramundanas".

Jesus Cristo é o Homem-Eleito, escolhido por Deus "antes de toda realidade criada, antes de todo ser e devir do tempo, antes do próprio tempo, na pré-temporal eternidade de Deus, a eterna decisão divina tem como objeto e conteúdo a existência deste específico ser, o homem Jesus de Nazaré, e a obra deste homem em sua vida e morte, sua humilhação e exaltação, sua obediência e mérito" (Barth).

Em resumo: Jesus Cristo é o Deus que elege e é, ao mesmo tempo, o Homem-Eleito! Ele é também o Deus conosco (Emanuel). Logo, o Deus que elege, posiciona-se em nosso favor: ele é por nós! Assim sendo, a vida e a morte de Jesus Cristo são a garantia de que nós somos eleitos!

A livre graça de Deus não se encontra sob lei alguma. Deparamo-nos com Deus, que quer manifestar a sua própria vontade justa e misericordiosa. "Neste ponto a doutrina clássica da predestinação, numa funesta consequência de outros erros seus, representava uma antropologização, mecanização e estabilização ilícitas da majestosa alternativa divina, sob a qual estamos colocados em Jesus Cristo, e cujo testemunho é o sentido da doutrina bíblica da predestinação" (Barth).

A eleição de Jesus Cristo aconteceu para o sofrimento e a morte (At 2:23). Aqui nós nos deparamos com o "lado sombrio" da predestinação. Na morte de Cristo desencadeou-se a ira de Deus contra o pecado, e assim ele sofreu a rejeição de Deus. Jesus Cristo assumiu o lugar do homem pecador, que tinha incorrido na rejeição de Deus, pois "a ira de Deus [...] atinge o eleito de Deus que realmente é inocente e obediente" (Barth). Jesus ouviu o “não” de Deus. Isso significa que Deus escolheu o destino do ser humano para si mesmo. A rejeição divina é transferida para recair sobre Cristo. "Não podemos reconhecer nossa eleição em Jesus Cristo sem reconhecer primeiro e antes de mais nada a nossa rejeição, e isso mais uma vez também nele" (Barth). Desse modo, a eleição do Filho de Deus é também uma eleição para a reprovação, para a rejeição. Em Jesus Cristo, ocorre a dupla predestinação de Deus. Aquele que deveria ouvir somente o “sim” de Deus veio com a missão de ouvir o “não” de Deus. E a consequência disto é que o homem pecador não é rejeitado, mas aceito por Deus. "Olhando da perspectiva do eleito, eleição significa um ato de liberdade e senhorio; olhando para os eleitos, significa um ato de escolha e distinção. Não existe eleição se não houver também não-eleição, preterição, repúdio. Por esta razão, a doutrina da predestinação, forçosamente, é doutrina da dupla predestinação." Mas sempre precisamos reconhecer que a graça de Deus não pode ser delimitada por nosso esquema de pensamento. "Eleitos estamos nós ao dizermos sim à nossa eleição em Jesus Cristo e, assim, justamente ao dizermos sim também para a nossa rejeição, porém para nossa rejeição carregada e anulada por Jesus Cristo, e somente, então, sobretudo, para a nossa eleição." A misericórdia e a graça de Deus devem nos atingir com tal intensidade, a ponto de reconhecermos que a nossa rejeição foi anulada em Cristo. Somente, então, podemos vivenciar o conforto de Deus. "Somente onde a vemos anulada [a nossa rejeição] é que a vemos realmente. Mas, onde a vemos anulada, ali realmente a enxergamos, então não há como esquivar-se nem como levantar-se contra a decisão livre e, precisamente em sua liberdade, justa de Deus. Somente quem é confortado pela noção da eleição de Deus em graça é que conhece o terror do seu mistério. Mas não pode ser confortado pela ideia da eleição em graça sem o terror do seu mistério".

"A doutrina da Eleição é a suma do Evangelho porque de todas as palavras que possam ser ouvidas e pronunciadas, esta é a melhor: que Deus elege o ser humano; que Deus é para o ser humano também Aquele Único que ama em liberdade. Tal doutrina está fundamentada no conhecimento de Jesus Cristo, porque ele é ao mesmo tempo o Deus que elege e o homem eleito, em Uma Pessoa. Faz parte da doutrina de Deus, porque a eleição divina em favor do ser humano é a predestinação, não apenas do homem, mas de si próprio [de Deus, em Cristo]. A função desta doutrina é dar testemunho da eterna, livre e imutável graça, como o começo de todos os caminhos e obras de Deus".

E assim, o princípio cristológico é aplicado em toda a sua abrangência teológica. A eleição está totalmente centrada em Cristo. Ela acontece somente em Cristo, que é também o sujeito que elege. Deus elege o ser humano, mas reservou para si mesmo a rejeição, a condenação e a morte. Cristo é o único eleito e também o único ser humano rejeitado. Ocorre uma troca entre Deus e o ser humano. Deus está conosco e nós estamos em suas mãos. A decisão, que Deus tomou "de uma vez por todas em Jesus Cristo, é a predeterminação da nossa vida" (Barth).

Ao reconhecermos que nossa eleição aconteceu em graça, devemos também viver em confiança no futuro que Deus propõe. Aquele que já atuou por nós antes dos tempos eternos, também estará conosco no futuro, pois "a graça é a graça de Deus, ato seu, obra sua, vontade sua e reino seu".

E nós precisamos ter cuidado para não descair da graça, pois, constantemente, a graça vira desgraça em nossas mãos. Abusamos dela como se tivéssemos poder sobre ela. A certeza da eleição não deve se transformar numa falsa segurança.

Nossa eleição precisa ser sempre de novo assegurada (2Pd 1:10). Ao mesmo tempo, ela se torna evidente se e quando colocamos a fé em prática. E aqueles que pertencem a Cristo estão protegidos do julgamento e da condenação: "Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Rm 8:1).

A eleição e a predestinação somente podem ser testemunhadas por pessoas justificadas pela fé em Cristo. Aquele que se sabe salvo pela graça de Deus, só pode responder em louvor e em gratidão ao Pai celestial. Aquele que vivencia a salvação, sabe que foi eleito por Deus; foi predestinado para a comunhão com o Criador. Eleição e predestinação são a boa notícia de que fomos adotados como filhos de Deus. A pessoa chega a compreender, então, que essa maravilhosa salvação já foi preparada desde os tempos eternos.

Nós nos encontramos nos pensamentos e no coração de Deus antes de qualquer iniciativa nossa, e antes da fundação do mundo. Esse “antes” não deve ser entendido em categorias de tempo. Nós não podemos aprisionar o agir de Deus em categorias do tempo. Deus não está preso a uma sequência cronológica, pois passado, presente e futuro são categorias que nós estabelecemos para nos localizarmos no fluxo de tempo. Agostinho ensinou que o tempo faz parte da criação. A física quântica constata que não foi a criação que aconteceu dentro do tempo, mas o tempo aconteceu dentro da criação. Não havia um período “anterior” à criação, uma vez que o tempo faz parte das obras criadas por Deus, o que fica evidente com a menção dos setes dias em Gênesis. O tempo e o espaço têm um começo e um fim. Somente a eternidade transcende o começo e o fim. Deus está além do tempo. Severino Boécio afirmou que o tempo não se apresenta para Deus do mesmo modo como para os seres humanos. Deus vê tudo no agora intemporal de sua eternidade. Ele abrange toda a eternidade num agora único e extratemporal.Também ambicionamos controlar o tempo. Mas, nós não somos prisioneiros de um inexorável transcurso do tempo, num jogo de cartas marcadas. Todos nós temos a liberdade para responder como quisermos a Deus. Os nossos atos não estão pré-fixados. Não devemos confundir predestinação com predeterminismo. Somos pré-destinados para o plano de Deus, mas continuamos com o livre arbítrio para as nossas decisões.

O objetivo da eleição é “sermos santos e irrepreensíveis perante ele em amor”. O propósito da escolha é nossa santificação e integridade diante de Deus, culminando com a nossa adoção como filhos de Deus. Pela sua livre vontade, Deus nos presenteou com a filiação divina através de Cristo.

O v. 6 declara literalmente “para o louvor da glória da sua graça”. Por três vezes o texto salienta que o nosso objetivo é prestar “louvor e glória” a Deus (vv. 6; 12; 14). A glória de Deus é a finalidade de toda sua obra. O texto nos conclama a louvar a graça de Deus, que se tornou visível em Cristo – o Amado. Esse título de Cristo procede de Is 44:2.

Os vv. 7a 10 salientam que a obra de Deus em Cristo é a redenção dos pecados. Nós vivenciamos a redenção na medida em que a riqueza da graça de Deus se torna realidade em nosso viver. Neste texto, redenção e perdão possuem um sentido idêntico, e pressupõem a realidade do pecado em sua radicalidade. Pois, o pecado é a desobediência enraizada no ser humano natural, que se volta contra a vontade de Deus.

A redenção aconteceu mediante o derramamento do sangue de Cristo na cruz. Desde a noite da Páscoa no Egito, redenção e sangue são conceitos interligados. O povo de Israel no Egito adquiriu a sua liberdade através do sacrifício de sangue (Ex12:22). Essa vivência se tornou inesquecível para o povo israelita. E o povo da nova aliança vive a partir do sacrifício do sangue derramado sobre a cruz de Gólgota. Mas, esse sacrifício de sangue da nova aliança transcende a todos os anteriores, pois Jesus Cristo não é apenas o Cordeiro, mas também o Supremo Sacerdote de seu povo. (observemos Rm 5:9; Ef2:13; Cl 1:20; Hb 9:12; 10:19; 13:12; 1 Pd 1:19; 1 Jo 1:7; Ap 1:5 e 5:9).

A graça de Deus nos proporciona sabedoria e entendimento, para compreendermos o mistério da vontade Deus, que ele desvenda diante do mundo. O eterno plano de salvação tem um objetivo: a nossa adoção de filhos de Deus.

Deus nos deu a conhecer “o mistério da sua vontade”, ou seja, o seu desígnio – agora revelado. O “mistério de Cristo” estava oculto, mas agora “foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, no Espírito, a saber, que os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo Corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do Evangelho” (3:4-6).

O “beneplácito de sua vontade” é o desígnio benevolente, o seu bem-querer, que englobou em si a cruz de Cristo. A manifestação de Deus em Cristo já esteve sempre nos desígnios do Pai. Desde sempre Deus queria manifestar o seu amor à humanidade.

A redenção não abrange só o nosso passado, que foi perdoado, mas também o nosso futuro. Esse mistério nos é revelado: o agir salvífico de Deus em Cristo ainda não está no fim. O alvo é a reunião de todos em Cristo. Essa é a decisão que Deus tinha consigo e que agora resolveu nos dar a conhecer. O mistério é o eterno propósito de Deus, que agora foi revelado. O eterno desígnio de Deus se realizou em Jesus Cristo, tornando-se efetivo na Igreja. Através do ministério do apóstolo, os pagãos são chamados à salvação, acontece a reconciliação dos judeus e das nações, e a submissão do universo inteiro a Cristo. Há uma união íntima entre Cristo e sua Igreja.

O v. 10 está em consonância com Cl 1:15-20 e Rm 13:9, quando afirma literalmente “visando à economia da plenitude dos tempos”. Nesse contexto, a “plenitude dos tempos” é o tempo da Igreja, que foi inaugurado com a ressurreição de Cristo, evidenciando que Deus conduz a história para a sua consumação.A concepção cósmica forma o pano de fundo. Jesus é o Senhor e o Juiz de todo o universo. As ilustrações cósmicas empregadas servem para descrever a amplitude do evento salvífico realizado em Cristo. Todos os povos (gentios e judeus) e todas as gerações (do passado e do futuro) são englobados no plano de salvação do Senhor do universo. O mistério consiste na reunião de toda a pluralidade, para que seja formada uma unidade em Cristo. O v. 10 declara literalmente “recapitular todas as coisas em Cristo”. O mistério aponta para a vitória final de Cristo, como observamos em Rm11:25-32.

Abordando a “recapitulação de todas as coisas”, Moltmann manifestou este posicionamento: “se, conforme a visão de Paulo, no final ‘Deus é tudo em todos’ (1 Cor 15,28), não poderá estar excluído nada do presente e nada do passado. Se na plenitude dos tempos ‘serão recapituladas todas as coisas em Cristo, [ambas, as que estão] no céu e [as que estão] na terra’ (Ef 1.10) e ‘tudo será reconciliado por ele, tanto [as coisas que estão] na terra [como as que estão] no céu (Cl 1,16), dever-se-á falar, neste caso, de um universalismo da graça divina. ‘Todas as línguas confessarão que Jesus é o Senhor, para a glória de Deus, o Pai’ (Fl 2,11). A ‘reconciliação de tudo’ (apocatástase) não mais poderá ser considerada heresia nem acusação. Ela é expressão da esperança e da confiança na bondade de Deus. Mas a decisão é questão unicamente reservada a Deus. [...] O conceito de recapitulação de todas as coisas mostra muito bem que a esperança do Deus criador tem uma dimensão que abarca o mundo todo. Mas ela nada afirma ainda sobre a finalidade dessa recapitulação. Essa finalidade não pode consistir na restauração da situação primitiva do mundo, tal como o retorno do paraíso. Nesse caso estaria antecipadamente programada a próxima queda no pecado. A ressurreição de Cristo dos mortos também não consistiu num ‘retorno’ à sua vida anteriormente vivida, mas numa transformação de sua vida terrena na vida eterna. Assim poderemos também imaginar a finalidade da recapitulação de todas as coisas: ela consiste na transformação deste mundo no mundo futuro da criação eterna. Com a recapitulação de todas as coisas deve ser introduzido o renascimento do cosmo para a sua aparência definitiva” (No fim, o início, pp. 184-86).

Os vv. 11-14 mostram que a salvação em Cristo abrange judaico-cristãos e também gentílico-cristãos. Os cristãos oriundos do judaísmo tornaram-se a herança de Deus. E os cristãos oriundos do paganismo foram selados pelo Espírito, para a herança escatológica. A parte que nos cabe evoca o quinhão da terra prometida, no AT, e que agora se torna a herança celestial, no NT (Rm8:17; Gl 3:29; 4:7). O v. 11 deve ser lido literalmente assim: “nele também nós fomos designados pela sorte”. Nós fomos sorteados. É assim que se realiza o plano de salvação universal, mencionado no v. 10.

Os judeus têm uma prioridade no tempo, pois já estão antes em Cristo (v. 12). Tornaram-se a herança de Deus, mediante a “decisão daquele que tudo opera” (v. 11).

Os gentios, que foram selados como Espírito Santo da promessa, também passam a pertencer ao Israel escatológico, o Israel de Deus (Gl6:16).

Os israelitas sempre se entenderam como povo eleito por Deus. Mas, agora a eleição não está mais limitada ao povo judeu; ela abrange todos os que creem em Cristo. Os cristãos são os herdeiros da promessa e, portanto, a Igreja de Cristo tornou-se o verdadeiro Israel. A eleição em Cristo foi estabelecida desde a eternidade. O Corpo de Cristo faz parte do eterno propósito de Deus.

Os gentios foram selados com o Espírito Santo, que é o pagamento de entrada, o adiantamento, o penhor (arrabwn - arrabôn) para a redenção. O penhor indica a quem pertencemos. E o penhor nos dá a garantia do resgate, quando formos propriedade definitiva de Cristo, a herança escatológica. Eles foram selados por ocasião do batismo. A pessoa batizada é marcada com o sinete do Espírito prometido (2 Co 1:22), que é um adiantamento (2 Co 5:5) da nossa herança, tendo em vista a libertação final e definitiva. Os batizados foram então integrados no Corpo de Cristo, fazendo parte da herança escatológica. E assim, o futuro foi trazido para dentro do presente.

A referência aos gentios é uma designação para todos os cristãos que não procedem do judaísmo.

Com o penhor para a redenção nos foi aberta a porta para o futuro. Nós, cristãos, fomos selados com o Espírito Santo da promessa. Temos, portanto, o pagamento de entrada da herança. Somos eleitos. O penhor do Espírito também se torna a garantia para a nossa ressurreição.

Ao tomarmos consciência, em nossa vida diária, de que fomos selados, tornamo-nos receptivos ao agir do Espírito em nossa existência. A promessa torna-se então uma força a nos impulsionar para o futuro!

1:15-23 – Deus estabeleceu Cristo como Cabeça da Igreja e Senhor do Universo.

- Vv. 15-16 – Ação de graças.

A conduta cristã é resumida na fé em Jesus e no amor fraterno. Paulo coloca essa lembrança da Igreja em suas orações. A fé e o amor motivam o apóstolo a expressar gratidão a Deus. Orações de gratidão e de súplica são motivadas pela convicção de que a graça de Deus pode transformar pessoas. A fé fundamentada em Jesus Cristo se expressa em amor. Em Efésios e Colossenses, o termo “santos” designa os cristãos e suplanta o termo “irmãos”. O termo designa os membros do povo de Deus: os batizados.

- V. 17 – Primeiro pedido: condições para conhecer a Deus.

O pedido é dirigido ao Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória. Um dom de sabedoria e revelação – para conhecer Jesus Cristo, o Filho de Deus. Jesus é o Senhor. O conhecimento é alcançado mediante um espírito de sabedoria e de revelação. Para os gregos, obtinha-se a sabedoria buscando o princípio e a essência que se encontra além da realidade presente. Para o pensamento judaico, a sabedoria consistia na habilidade de se viver bem, de um modo pleno e justo. A sabedoria era resultante do “temor do Senhor”. Portanto, Deus é a fonte do conhecimento. Ele se dá a conhecer. E os relacionamentos humanos são transformados.

- V. 18 – Segundo pedido: entendimento para a esperança.

Iluminação. O pedido literal é que sejam iluminados os olhos do coração. É uma expressão do AT (Sl 13:4 e 19:9). O conhecimento, que advém de Deus, é alcançado mediante “a iluminação dos olhos do coração”. Em esperança temos a herança.

- V. 19 – Terceiro pedido: compreender a grandeza do seu poder.

Compreender o poder de Deus, que realiza seu plano em Cristo. O projeto de Deus é a vitória sobre a morte mediante a ressurreição de Jesus Cristo (1Co 15:14), que foi exaltado à direita do Pai (Sl 110:1). A Igreja deve conhecer: 1) a esperança do seu chamamento, 2) as riquezas da gloriosa herança, 3) a incomparável grandeza do poder de Deus. O agir de Deus abrange o passado, o futuro e o presente.

- Vv. 20–23 – Confissão de fé: a soberania de Cristo.

Meditação poética sobre a ressurreição de Jesus Cristo e sua exaltação. Ele se encontra no local mais elevado, e todos os poderes estão submissos a ele. São poderes que habitam o espaço entre a Terra e o trono de Deus. O título de Jesus: Senhor. O título Senhor equivale a Iahweh (Fl 2:9). Jesus Cristo é Cabeça da Igreja (Cl 1:18). Tudo se encontra a seus pés (Sl 8:6). A Igreja é “a plenitude daquele que é repleto totalmente de todas as coisas”. A Igreja está repleta das riquezas de Cristo, o qual, por sua vez, está repleto de Deus (Cl 2:9-10). Em João lemos que o Pai está no Filho; o Filho, nos discípulos; os discípulos, no mundo (Jo17:11.20-26 e Jo 1:16). Portanto, a Igreja é a plenitude daquele que repleta tudo em todas as coisas. Literalmente: “plenitude daquele que é repleto totalmente em todas as coisas”.Observemos Ef4:10. A plenitude é tudo o que Deus quer nos comunicar de si mesmo em Cristo (Cl 1:19 e 2:9). Deus quer nos introduzir e aperfeiçoar em Cristo. Viver na plenitude (plhrwma -pléroma) de Cristo se assemelha a viver no Espírito. A plenitude (pléroma) significa “o universo repleto da presença de Deus”. Textos do AT declaram que o mundo está repleto da presença e da glória de Deus (Is 6:3 e Sl 24:1). O NT afirma que a plenitude habita em Cristo.

Jesus foi exaltado à direita de Deus (Sl 110) e tudo lhe é submisso. Nos lugares celestiais, Cristo se encontra acima de todo poder – terrestre ou celeste.As quatro categorias representam a totalidade cósmica, que pode incluir anjos e exércitos celestiais. Jesus encontra-se acima de todos esses poderes.

Autoridade, Poder, Potência e Soberania são forças invisíveis (Fl2:10-11; 1 Pd 3:22; 1 Tm 3:16). As enumerações de Paulo têm como núcleo central as Autoridades e os Poderes (Rm8:38; 1 Co 15:24; Ef 1:21; 3:10; 6:12; Cl 1:16 e 2:15). No contexto do NT, esses poderes celestes e astrais participam do governo físico. Eram considerados guardas da Lei de Moisés (Gl3:19). Paulo declara que a lei escraviza o homem a esses anjos. Cristo libertou também dessa dependência (Cl 2:15). A libertação do homem das exigências da lei implicou a destituição dos seres celestes, os guardiões da Lei. Essas forças inimigas de Deus são angélicas e humanas. São potências sobrenaturais más, que utilizam as autoridades humanas como seus instrumentos (1Co 2:6). Um ser celeste – um anjo bom ou mau – representa no mundo superior cada uma das autoridades terrestres, inspirando seu agir (Dn 10). As autoridades podem ser, ao mesmo tempo, as potências angélicas e seus correspondentes terrestres. Os elementos do mundo (Gl 4:3 e Cl 2:20) são potências que escravizam o homem. Mediante a fé, a pessoa é liberta por Cristo, tornando-se filho do Criador.

Na Igreja está a plenitude de Cristo (Ef 3:19 e 4:13).

Em Cristo está a plenitude de Deus (Cl 1:18-19 e Jo 1:14-16).

2:1-10 – Salvação pela graça.

Estrutura do texto:

Vv.1-3 – situação anterior de desgraça.

4-10 – Deus nos libertou por misericórdia e por amor.

A salvação é a passagem do pecado para a graça, da morte para a vida.

O texto contém duas formas de tratamento: vós e nós.

A designação “vós” refere-se aos pagãos, súditos do Maligno, príncipe do mundo e chefe dos rebeldes a Deus.

A designação “nós” refere-se aos judeus, que possuem a lei, mas cedem ao instinto (carne) e confiam em ritos.

Uma conduta orientada “segundo o curso deste mundo” e pelo “príncipe da potestade do ar” e pelo egoísmo (carne) equivale a estar morto pelo pecado. Uma vida pautada pelos poderes malignos deste mundo e pelo instinto (carne) incorre na ira de Deus.

As expressões “filhos da desobediência” (v. 2) e “filhos da ira” (v. 3) são semitismos (hebraísmos). As expressões referem-se às pessoas que se tornam objetos da ira de Deus (Cl 3:5-7 e Rm1:18).

O texto se refere ao “curso deste mundo”. O termo aiwn(éon) significa século, mundo, decurso das idades (Ef1:21; 2:7; 3:9.11). Aqui designa uma força supra-humana, personificada. Possui um caráter espacial e temporal. É a expressão das tendências de um mundo hostil a Deus.

É mencionado literalmente “o chefe das potências do ar”, o príncipe dos poderes adversos. A carta reflete o seu contexto: o ar se estende da Terra até a Lua. É o domínio das potências adversas, que se interpõem entre Deus e os homens. Esse espírito atua nos “filhos da desobediência”.

Os pagãos seguiam os poderes malignos deste mundo e os judeus obedeciam aos impulsos egoístas. Ambos estavam destinados à ira de Deus (Rm 2:5).

A “carne” é a fragilidade humana, que é habitada e escravizada por potências destrutivas: o pecado, as paixões egoístas e a morte. Paulo identifica o “eu” com a carne escravizada (Rm7). Aquele que persiste em viver segundo a carne, segue os seus instintos e, portanto, não pode agradar a Deus. Mas, Deus condenou o pecado na carne (fragilidade humana) de Jesus Cristo crucificado (Rm 8:3). E os cristãos são exortados a viverem não mais segundo a carne, mas segundo o Espírito.

Deus libertou pagãos e judeus. A salvação acontece mediante a iniciativa de Deus e não por mérito de obras humanas. Os “filhos da desobediência” e os “filhos da ira” são salvos pela graça de Deus.

Nos vv. 4-7 é aplicada a definição clássica de Deus no AT: rico em misericórdia, amor, favor, compaixão, bondade (Ex33:19; 34:6; Jl 2:13; Jn 4:2; Sl 86:15).

“Pela graça sois salvos.” O tempo do verbo grego (particípio do perfeito passivo) indica o estado presente resultante de uma ação ocorrida no passado. A salvação é uma realidade atual. Efésios e Colossenses consideram a salvação como realizada. Em Romanos, a salvação é uma realização futura (6:3-11 e 8:11.17), e constitui uma esperança (8:24).

Como salvos por Cristo, Deus nos tornou participantes da ressurreição “e nos fez assentar nos lugares celestiais”.

O objetivo de Deus é “mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus” (v. 7). Nessa declaração, o termo éon tem um sentido temporal: Deus quer mostrar no futuro “as extraordinárias riquezas de sua graça” (v. 7).

Somos “criaturas dele” (Sl 138:8; Jó 10:8) – “para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (v. 10). As “boas obras” não são condição para a salvação, mas consequência. A pessoa, que é salva pela graça de Deus, deve realizar as obras que Deus “de antemão preparou”. Deus tem um plano de dimensão cósmica. Ele nos predestinou para participarmos em seu plano. Salvos por Cristo, devemos cumprir a nossa predestinação estabelecida por Deus. Devemos descobrir de que maneira podemos participar na construção do Reino de Deus e assim realizar a vontade do Criador em nossa existência.

2:11-22 – Judeus e pagãos unidos em Cristo.

Os judeus chamavam os pagãos de incircuncisos. Aqueles que não eram circuncidados na carne (Rm2:28), eram excluídos do povo de Deus. Chamar alguém de “incircunciso” era insulto em Israel (1Sm 14:6; 17:36; 31:4 e Rm 9:4). O v. 11 menciona literalmente: “vós, os pagãos na carne”.

Os pagãos convertidos vivenciam um contraste entre o passado e a situação atual. Eles estavam privados dos privilégios do povo escolhido. Os gentios não esperavam o Messias e viviam sem esperança e sem Deus (porque seus deuses eram falsos – Dt 32:21). Os pagãos não conheciam o Deus vivo e verdadeiro (1Ts 1:9). As alianças da promessa são uma referência ao pacto de Deus com Noé (Gn 6:18 e 9:9), com Abraão (Gn 15:18 e 17:2.7-9), com o povo de Israel (Ex 19:1-8) e com Davi (2 Sm 7:11-16.26).

Aqueles que estavam longe foram aproximados pelo sangue de Cristo (sua morte redentora na cruz – Cl 1:14). At 2:39 também emprega as categorias de “perto” e “longe”, baseando-se em Is 57:19.

A paz implica reconciliação com Deus e com os seres humanos. O objetivo é a reunião de todas as pessoas no único povo de Deus. A paz pertence à plenitude da salvação proporcionada pelo Messias (Is 9:5-6; Mq 5:4; 1Rs 5:26). Com seu corpo glorificado, Cristo derrubou a barreira que separava os judeus dos pagãos. A paz torna-se realidade na Igreja e tem repercussão cósmica. A barreira interior é a inimizade / hostilidade (Ez25:15), e a exterior, a Lei. A barreira do templo obstruía o acesso aos pagãos (At 21:28).

No templo de Jerusalém havia uma parede, que bloqueava o acesso dos pagãos. Paulo foi aprisionado (At 21:27-28) sob a acusação de ter introduzido Trófimo no templo, um grego incircunciso. E havia uma inscrição, em grego e latim, ameaçando de morte o pagão que ultrapassasse a parede divisória. Estando excluído do templo, o pagão não tinha possibilidades de se relacionar com Deus.

“Os gentios tinham acesso ao átrio exterior do templo, mas havia uma barreira com letreiros em grego e em latim, que serviam para adverti-los de que não podiam entrar no templo propriamente dito, sob pena de morte” (Bíblia de Estudo Almeida). A tradição judaica também considerava a Lei de Moisés um muro que os protegia e demarcava como povo de Deus. A Lei separava puros e impuros por suas observâncias rituais. Ela é considerada como fonte de ódio recíproco, pois isolava Israel num particularismo intransigente. Tanto o templo como a Lei separava os judeus das outras nações. Fazendo a paz, Cristo criou “um novo homem”, ou seja, a nova criação (Is 65:17; 66:22 e 2 Co 5:17). O novo homem integra o Corpo de Cristo (Cl 3:10), onde acontece a transformação radical da existência. Jesus criou uma nova humanidade.

“O acesso ao templo era rigorosamente regulamentado e vigiado. Agora que em lugar do templo temos o Espírito (Jo 4:23), todos têm acesso ao Pai. O v. contém uma referência trinitária” (Bíblia do Peregrino).

A reconciliação resultou na formação de um só Corpo – a Igreja. E a inimizade foi destruída por intermédio da cruz.

Jesus nos possibilitou acesso ao Pai. A nova humanidade experimenta a pacificação com Deus, o Pai revelado em Jesus Cristo.

Ainda que protegido pela lei, o migrante (estrangeiro e peregrino) não era considerado cidadão. Os estrangeiros estavam de passagem na Terra Santa; os migrantes eram admitidos a residir sem gozar do pleno direito de cidadania. Cristo nos possibilita cidadania plena. No meio da Casa de Israel habitava Iahweh no templo. Tornamo-nos membros da Casa de Deus, que também é templo espiritual (Hb12:22-23). Integramos a família de Deus.

A paz foi evangelizada aos que estavam longe (os gentios) e aos que estavam perto (os judeus).

Cristo veio e evangelizou paz aos que estavam longe e também aos que estavam perto. O contexto apresenta a atuação de Jesus em dois planos: o cósmico e o histórico. Jesus Cristo atuou no âmbito cósmico, ao destruir os poderes celestes, que eram adversos. Ele destruiu o muro existente no cosmos, que provocava separação entre a humanidade e Deus, entre a Terra e o céu. Jesus também atuou no âmbito histórico, ao promover a reconciliação entre gentílico-cristãos e judaico-cristãos em um só Corpo – uma só Igreja.

O texto ressalta a atuação histórica: Jesus derrubou a parede de separação que havia entre judeus e pagãos. O v. declara literalmente: “das duas coisas ele fez uma só coisa”.

Ao derrubar a parede da separação, Jesus superou a Lei, que causava separação entre Deus e os homens, entre judeus e gentios. Superando a Lei, Cristo nos aproximou. Cristo é a nossa paz. E essa paz ele estabeleceu entre Deus e os homens, e entre os seres humanos.

A Lei foi superada e o acesso a Deus está livre. Em decorrência, foi criado o “novo homem”, o cósmico. A Igreja é o Corpo de Cristo: é o homem celeste que preenche o cosmos. Cristo preenche o céu e a terra, sendo o Novo Homem, e a Igreja é o seu Corpo (1:2-3; 4:4.9-13).

Por intermédio de Cristo, todos – judeus e pagãos – “temos acesso ao Pai em um Espírito”. A expressão “em um Espírito” corresponde à formulação “em um só corpo” (v. 16). É o Espírito do Cristo exaltado. O “acesso” a Deus também é abordado em Rm 5:2; Ef3:12; Hb 10:19; 1 Pd 3:18 e Jo 14:6.

Já não somos mais “estrangeiros” e nem “peregrinos”. O estrangeiro não possui domicílio e está por pouco tempo no país. Também o peregrino está de passagem. Nenhum dos dois se encontra em sua terra, como observamos em 1Pd 2:11.

Somos agora “concidadãos dos santos” e pertencemos à “família de Deus”. Os “santos” são os membros da Igreja de Cristo (Rm 1:7; 8:27; 1 Co 6:2 e Ef 1:15).

Os pagãos tornam-se concidadãos. O conceito de “concidadãos” deixa claro para os pagãos que eles não são os herdeiros diretos das promessas do AT. A unidade da Igreja estava ameaçada, pois os pagãos queriam se emancipar dos judaico-cristãos, que eram minoria. Ao serem lembrados de sua posição de “concidadãos”, eles são conclamados a aceitar seus irmãos.

Na condição de concidadãos, nós não somos estranhos e não estamos mais excluídos. Mas, não somos apenas tolerados. Em verdade, somos “filhos amados” (Ef 5:1). No entanto, a cidadania plena nós só teremos na cidade escatológica. Aqui nós não temos cidade permanente (Hb 13:14), pois “a nossa pátria está nos céus” (Fl 3:20). Então estaremos em casa, como integrantes da grande família de Deus.

A Igreja é comparada a um edifício (1 Co 3:10.12.14; 14:5-26; 2 Co 10:8; 12:19; 13:10 e 1 Pd 2:5). E a construção da Igreja tem um fundamento: apóstolos e profetas. Vejamos também Mt 16:18. O v. 20 menciona literalmente: “vós fostes edificados sobre o fundamento dos apóstolos”.

Apóstolos são mensageiros autorizados por Jesus, testemunhas oculares de toda sua atividade terrena (At 1:21-22; 10:37-39 e Jo 15:27) e de sua ressurreição (1 Co 9:1 e 15:8). A testemunha ocular é muito importante, pois a fé cristã está interessada em identificar Jesus de Nazaré com o Cristo exaltado.

Os profetas são portadores do Espírito de Deus, assim como os apóstolos e como todos os batizados. Eles são os receptores da revelação e dos mistérios divinos (Ef 3:3.5).

“A missão do Filho é uma coisa; a iluminação dos apóstolos – para receberem o significado do mistério do Filho – é outra coisa. Sem o testemunho dos apóstolos não poderíamos conhecer Jesus como o Cristo” (Emil Brunner).

O significado inigualável de Cristo é expresso no fato de ser “a pedra angular” da Igreja. É a pedra que recebe toda a pressão do edifício, e que sustenta toda a construção. Vejamos Mc 12:10; At 4:11 e 1 Pd 2:7.

O senhorio de Cristo torna-se efetivo ao dispor de apóstolos e profetas. A Igreja torna-se dinâmica por intermédio dos meios da graça confiados aos apóstolos e profetas. Eles têm um significado fundamental.

Mediante o batismo, nós somos inseridos na grande construção de Deus.

A paz de Cristo quer se tornar visível e atuante na Igreja. A paz de Cristo quer se tornar vivencial em nós. É assim que nós nos tornamos pedras integrantes da construção da Igreja. E cada pedra precisa oferecer apoio e sustentação para a outra. O próprio Cristo é a nossa paz (v. 14). Ele aproximou o Céu e a Terra e aboliu a Lei (v. 15).

“Mas agora” (v. 13) estamos em casa! Ao derrubar a parede cósmica, que separava o Céu da Terra, perfurando-a de cima para baixo, em sua própria pessoa, caiu também a parede do templo. E esse acontecimento torna-se realidade a partir da cruz (v. 16).

Ao chegarmos a Cristo, passamos a ter participação na história salvífica de Israel. Somos então incorporados na Igreja. E inseridos no Corpo de Cristo, fazemos parte do novo ser escatológico.

3:1-13 – Paulo e o mistério de Cristo.

1. Estrutura do texto.

- O apóstolo Paulo está preso – v. 1;

- Deus concedeu graça ao apóstolo para realizar o plano divino. O v. 2 afirma literalmente assim: “da economia da graça de Deus que me foi dada em vossa intenção”;

- o mistério foi revelado ao apóstolo, o que se percebe através da leitura – vv. 3 e 4;

- os homens do passado não conheceram o mistério – a admissão dos pagãos ao Corpo de Cristo - assim como ele foi revelado pelo Espírito agora aos apóstolos e profetas – vv. 5 e 6;

- Deus concedeu graça ao apóstolo para anunciar a impenetrável riqueza de Cristo – vv. 7 a 9;

- é através da Igreja que Autoridades e Poderes chegam a conhecer a sabedoria de Deus – vv. 10 e 11;

- a fé em Cristo nos possibilita o acesso a Deus, em liberdade e confiança – v. 12;

- os sofrimentos do apóstolo não devem abater os cristãos – v. 13.

Ef 3:1-13 encontra-se emoldurado pelo texto sobre a grande reconciliação em Cristo (2:11-22), vindo depois a oração de adoração pelo grandioso amor de Cristo (3:14-19).

2. Lugar vivencial.

O tema central da carta é o desígnio de Deus.

A carta salienta que o mistério de Deus foi

- estabelecido desde toda a eternidade;

- oculto durante os séculos;

- realizado em Jesus Cristo;

- revelado ao apóstolo;

- desenvolvido na Igreja.

É a grande obra de Deus realizada em Jesus Cristo.

A Igreja é uma realidade universal. Ela é simultaneamente terrestre e celestial. Ela é a atualização da obra de Deus: a nova criação.

A Igreja se expande a partir da Cabeça, Cristo. Ela se desenvolve até a plenitude de suas dimensões previstas por Deus. A Igreja é dinâmica, e os cristãos devem estar atentos para o crescimento do Corpo de Cristo e para a edificação da casa de Deus.

A Igreja é definida como povo de Deus e também como Corpo de Cristo. Os cristãos são integrados no Corpo de Cristo através do batismo. A fé, o louvor, o conhecimento e a obediência fazem com que os cristãos se tornem novas criaturas em Cristo. O batismo significa de modo decisivo a participação na morte e ressurreição de Cristo. Os batizados são ressuscitados e elevados com Cristo na glória. O dom de Deus presente na Igreja promove a nova criação.

O povo de Israel e as nações pagãs são reunidos na Igreja, onde acontece a reunificação do universo. É derrubada a barreira que isolava Israel das outras nações. No processo de reconciliação do mundo inteiro, os pagãos tornam-se cidadãos plenos do Reino de Deus. O mundo mudou radicalmente após a crucificação e ressurreição de Jesus Cristo.

Exegese de detalhes.

cariV (cháris) - O anúncio e a celebração da graça divina recebem uma ênfase especial. Deus concede graça e salvação de um modo incondicional. A graça de Deus é dirigida ao ser humano que é e permanece pecador. Paulo compreendeu que a graça é a essência do ato salvífico de Deus realizado em Jesus Cristo. A graça de Deus é concedida como uma dádiva preciosa. A graça está relacionada com Cristo. O cristão nada tem a apresentar como mérito para a sua salvação. Ele só tem a fé, que é a aceitação da dádiva de Deus. A fé é receptora da graça divina e, ela mesma, resulta na prática de boas obras. A fé é a entrega total e confiante do homem a Deus. A misericórdia de Deus é concedida com base na obra de Cristo na cruz. A fé é a única maneira de se obter a graça de Deus. A salvação de Deus é concedida de graça. A graça significa um presente imerecido, que não é alcançado mediante nossos esforços. Só nos resta agarrar esse presente. A graça nos chama de volta a Deus e nos posiciona perante a vida e o mundo. A graça é uma nova realidade, uma nova relação estabelecida através de Jesus Cristo. A graça se opõe ao orgulho dos judeus, que querem determinar seu destino através da observância da lei, e ao orgulho dos gregos, que pretendem atingir sua autonomia através da sabedoria. A vida cristã é sustentada pela graça de Deus; ela está ancorada no propósito de Deus. A existência cristã só é concebível com o exercício de algum dom da graça. Por isso, Paulo encoraja o empenho pelos melhores dons, que podem ser obtidos através da oração e da obediência. Na carta aos efésios, a graça está relacionada com a salvação. Somos salvos pela graça de Deus. Em Efésios e Colossenses, a ênfase não recai mais sobre a justificação forense, mas sobre a salvação eficaz. Em Ef 3:2 a graça concedida a Paulo é o apostolado junto aos pagãos.

musthrion (mystérion) - Paulo adotou da apocalíptica judaica a ideia de um mistério cheio de sabedoria, desde sempre oculto em Deus, e agora revelado. Paulo relaciona o mistério com o plano de salvação realizado na cruz de Cristo. O mistério se realizou em Jesus Cristo e se efetiva na igreja. Os pagãos também têm acesso à salvação. Em Cristo, o universo é restaurado. O propósito revelado do mistério de Deus é chamar os pagãos para a salvação e para a glória celestial pela união com Cristo. A redenção realizada em Cristo e que se torna efetiva na Igreja deve repercutir em todo o universo, até nas esferas celestes.

apokaluyiV (apokálypsis) - Neste texto, trata-se da revelação apostólica. O mistério é revelado aos apóstolos, que são vocacionados para serem mensageiros do Evangelho. Apóstolos e profetas participam da revelação do mistério de Deus.

pneuma (pneuma) - É o Espírito de crescimento, de oração e de revelação. O Espírito atua na Escritura. O Espírito está relacionado com o Corpo de Cristo. O Espírito é um selo, uma garantia na vida do cristão. O Espírito Santo é o avalista – o penhor – de nossa herança.

apostoloV kai projhthV (apóstolos kái profétes) - Em Ef 3:5 os profetas do Novo Testamento e os apóstolos constituem a geração das primeiras testemunhas que receberam a revelação do desígnio de Deus. Eles se tornaram o fundamento sobre o qual se edifica a Igreja. Deparamo-nos com o entrelaçamento de duas imagens para a igreja: o corpo e a construção. Está subentendida a ideia de que a construção deve crescer a partir de seu cume e também em direção a ele. Isto significa que toda a vida da igreja acontece em Cristo, que é o fundamento (1 Co 3:11); ele é a origem e também o alvo. Ao mencionar os profetas, o autor refere-se aos pregadores cristãos. O autor deve ser um discípulo de Paulo, que lança um olhar retrospectivo sobre o período apostólico. A imagem do fundamento contém a ideia da tradição. Portanto, em Ef 2:20, o fundamento significa a tradição apostólica. Cristo é a pedra angular acima do portal. Observemos Is 28:15; Sl 117:22 e 1 Pd 2:6. Sendo Cristo a pedra mais elevada, sua função corresponde à de cabeça do corpo.

klhronomia (kleronomia) – No Antigo Testamento, a herança referia-se à terra prometida. No Novo Testamento, a herança é o Reino e a vida eterna. O Pai transmite os seus bens ao Filho ressuscitado e, por ele, aos cristãos (Rm 8:17). Os pagãos tornam-se co-herdeiros do Reino. Em Efésios e Colossenses, a herança é destinada aos membros do povo de Deus: os batizados. Efésios ressalta que o Espírito Santo é o avalista (o penhor) de nossa herança.

epaggelia (epanguelia) - Deus realiza aquilo que ele promete (Rm 4:21). A promessa é destinada a Abraão e seus descendentes (4:13). Outrora, os pagãos eram “estranhos às alianças da promessa” (Ef 2:12). Agora, “os pagãos são [...] associados à mesma promessa” (Ef 3:6). O conteúdo da promessa é a salvação: Espírito, filiação, retidão, herança, vida eterna. Todas as promessas foram cumpridas em Cristo – o “sim” de Deus. E a bênção de Abraão se estendeu aos pagãos (Gl 3:14).

ekklesia (ekklesia) - A abrangência da igreja é universal: ela é terrestre e também celeste. Tendo Cristo como cabeça, a igreja se expande até a plenitude. Segundo o desígnio de Deus, a igreja tem dimensões cósmicas. A atuação da igreja se estende por todo o universo. Como Corpo de Cristo, ela preenche todo espaço, desde o trono de Deus até à terra. A Carta aos Efésios entende que o ar se estende desde a terra até a lua. O ar é o domínio das potências adversas (2:2), que se interpõem entre Deus e os homens. Ocupando todo o espaço, a igreja dá a conhecer “a múltipla sabedoria de Deus” às Autoridades e aos Poderes. Como corpo místico de amplitude universal, a Igreja transmite o mistério de Deus até mesmo aos poderes cósmicos. A igreja é chamada de plenitude de Cristo, pois ela está repleta das riquezas da vida divina. E Cristo está repleto de Deus.

euaggelion (euanguélion) - O termo euaggelion pode ser traduzido por “mensagem de salvação”. É uma “boa” e “feliz” mensagem para aquele que a acolhe. O próprio Jesus usou o termo euaggelion para se referir à sua mensagem e atuação (Mt 11:5 e Lc 4:18). Jesus anunciou e trouxe uma nova modalidade de existência, decisiva para a nossa relação com Deus. Jesus é o portador da mensagem, e é também o conteúdo da mesma. A mensagem da salvação mediante Jesus Cristo entrou em conflito com a mensagem política, em oposição consciente com as reivindicações do “evangelho” do culto ao imperador. O apóstolo Paulo foi destacado por Deus para anunciar o Evangelho. Existe só um Evangelho a ser pregado por todos os apóstolos. O Evangelho é a boa notícia da salvação, anunciada de viva voz e ouvida. Seu conteúdo é a revelação de Deus em Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado; Deus agiu para salvar o mundo. O Evangelho deve ser recebido pela fé e em obediência. A pregação do Evangelho se torna eficaz através do poder de Deus. Em todos os lugares onde o Evangelho é proclamado, ele vem repleto de poder; cria a fé, traz a salvação, a vida e também o julgamento. Revela a justiça de Deus, desperta a esperança, transforma a vida das pessoas e promove o surgimento e o crescimento da igreja. Apostolado e pregação do Evangelho andam juntos; logo, todo ataque a Paulo e seu apostolado é um ataque ao Evangelho. Provavelmente foi Paulo quem estabeleceu o termo euaggelion no vocabulário do Novo Testamento. Na carta aos efésios é salientado que o Pai liberta a pessoa do reino dos poderes das trevas, transferindo-a para o reino do Filho. Desse modo, a pessoa integra o Corpo de Cristo. O Evangelho traz a paz, aproximando os que estavam longe e os que estavam perto – os gentios e os judeus – e proporciona a salvação.

arcai kai exousiai (archai kái exusiai) - Autoridade, Poder, Potência e Soberania são forças invisíveis (Fl 2:10-11; 1 Pd 3:22; 1 Tm 3:16). Ao apresentar suas relações de poderes, Paulo se concentra principalmente nas Autoridades e nos Poderes (Rm 8:38; 1 Co 15:24; Ef 1:21; 3:10; 6:12; Cl 1:16 e 2:15). O NT testifica que esses poderes celestes e astrais participam do governo terrestre. Esses poderes também eram considerados guardas da Lei de Moisés (Gl 3:19). Por conseguinte, a Lei escraviza o homem a esses anjos. No entanto, Cristo libertou as pessoas também dessa dependência (Cl 2:15). A libertação do homem das exigências da Lei implicou a destituição dos seres celestes, os guardiães da Lei. Esses poderes inimigos de Deus pertencem ao âmbito angelical e humano. São potências sobrenaturais más, que utilizam as autoridades humanas como seus instrumentos (1 Co 2:6). Um ser celeste – um anjo bom ou mau – representa no mundo superior cada uma das autoridades terrestres, inspirando seu agir (Dn 10). Enquanto as nações são dirigidas por anjos, Israel é conduzido por Iahweh. As autoridades podem ser, ao mesmo tempo, as potências angélicas e seus correspondentes terrestres. Os elementos do mundo (Gl 4:3 e Cl 2:20) são potências que escravizam o homem. Mediante a fé, a pessoa é liberta por Cristo, tornando-se filho do Criador.

Conteúdo teológico.

O apóstolo Paulo está preso por causa da pregação do Evangelho. Mesmo se a carta tenha sido redigida pela “escola de Paulo”, o mais importante é que foi preservada a reflexão teológica do apóstolo Paulo.

Deus concedeu sua graça ao apóstolo Paulo, para realizar o plano divino a respeito dos pagãos. A graça é a essência do ato salvífico de Deus realizado em Jesus Cristo. É uma dádiva preciosa, pois a misericórdia de Deus é concedida ao ser humano. A base da graça é a obra de Cristo na cruz. Diante de Deus, o ser humano só tem a fé, que é a atitude de acolher a graça; ele não tem méritos próprios. A fé é a única maneira de se obter a graça de Deus. Só nos resta agarrar a dádiva. Significa viver confiantemente a partir da bondade de Deus. Somos aceitos por Deus também quando não formos bem sucedidos, ou quando não nos conduzirmos de um modo exemplar. A graça se opõe ao orgulho dos judeus, que querem determinar seu destino através da observância da lei, e ao orgulho dos gregos, que pretendem atingir sua autonomia através da sabedoria. Sendo sustentada pela graça de Deus, a existência cristã só é concebível com o exercício de algum dom da graça. Nossas aptidões e habilidades são carismas concedidos por Deus. Paulo recebeu o carisma de levar o Evangelho aos pagãos.

Deus revelou o mistério ao apóstolo Paulo. Desde toda a eternidade, Deus manteve um mistério oculto, que agora foi revelado em Jesus Cristo. O mistério é efetivado na Igreja: os pagãos também têm acesso à salvação.

No passado, o mistério não era conhecido. Agora, Deus acaba de revelar o mistério “pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas”. Apóstolos e profetas tornam-se receptores da revelação do mistério divino. A tradição dos apóstolos constitui-se no fundamento da Igreja (Ef 2:20). Os apóstolos e os profetas são a geração das primeiras testemunhas que receberam a revelação do desígnio de Deus. Eles são chamados de santos, pois foram separados por Deus para essa tarefa.

Os pagãos participam da mesma herança. Isto significa que a propagação do Evangelho não conhece fronteiras. Todos os batizados em Cristo tornam-se herdeiros. Pois, o Filho ressuscitado recebeu todos os bens do Pai. A partir do batismo, o Espírito de Deus torna-se o avalista de nossa herança.

Os pagãos tornam-se membros do mesmo Corpo. A Igreja é uma realidade universal de amplitude cósmica. Ela se expande a partir da cabeça, Cristo. Os pagãos são integrados no Corpo de Cristo através do batismo. No Corpo de Cristo torna-se realidade a nova criação de Deus.

Os pagãos são associados à mesma promessa. Antigamente, os pagãos não tinham participação na promessa de Deus, pois não eram descendentes de Abraão. Agora, “em Jesus Cristo, por meio do Evangelho”, os pagãos tornam-se participantes das promessa divina, pois Deus realiza aquilo que ele promete. O conteúdo da promessa é a salvação: tornar-se filho adotivo de Deus, herança, vida, Espírito, retidão.

Novamente Paulo lembra a graça de Deus, que o transformou em ministro do Evangelho. O conteúdo do Evangelho é a revelação de Deus em Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado. O Evangelho transforma a vida das pessoas e promove o surgimento e o crescimento da igreja. O Evangelho traz a paz e aproxima os que estavam longe e perto – os pagãos e os judeus. O Evangelho é o anúncio da graça de Deus. A oferta da salvação deve ser recebida pela fé e em obediência.

Paulo se considera “o último dos últimos de todos os santos”. É assim que ele se vê por ter perseguido a Igreja. Mas também é assim que ele experimenta a graça de Deus que é imerecida. Paulo recebeu a “graça de anunciar aos pagãos a impenetrável riqueza de Cristo e de pôr à luz como Deus realiza o mistério mantido oculto desde sempre nele, o criador do universo”. Existe um mistério cheio de sabedoria, desde sempre oculto em Deus, e agora revelado. O mistério se realizou em Jesus Cristo e se efetiva na Igreja. O universo é restaurado. Agora, os pagãos também têm acesso à “impenetrável riqueza de Cristo”, o “mistério mantido oculto”.

A atuação da Igreja faz com que também as “Autoridades e Poderes, nos céus” venham a conhecer “a múltipla sabedoria de Deus”. A atuação da Igreja se estende por todo o universo. Como Corpo de Cristo, ela preenche todo o espaço, desde o trono de Deus até à terra. O ar é o domínio das potências adversas, que são um obstáculo entre Deus e os homens. Ocupando todo o espaço, a Igreja dá a conhecer “a múltipla sabedoria de Deus” às Autoridades e aos Poderes. A carta aos Colossenses contém um hino que proclama a vitória de Cristo sobre todos os poderes adversos (2:13-15). Ele despojou e humilhou Autoridades e Poderes. Cristo submeteu os poderes adversos, assim como um general festeja a vitória e conduz os inimigos aprisionados em triunfo pelas ruas. Vitorioso, Cristo desfilou em cortejo triunfal, sendo seguido pelos poderes derrotados e dominados. A vitória aconteceu mediante a cruz.

Com essa referência, o texto quer nos transmitir o seguinte:

1. A tarefa da Igreja é de amplitude cósmica. Ela é a plenificação da obra de Deus. Até as forças contrárias a Deus precisam ouvir a proclamação da Igreja. Os seres celestiais ignoravam o plano de salvação de Deus. Nem os anjos tiveram acesso ao mistério da revelação de Deus. E, agora, Autoridades e Poderes, nos céus, podem conhecer a múltipla sabedoria de Deus por intermédio da Igreja, na medida em que olham para a Igreja – sua obra e sua atuação. A Igreja é simultaneamente terrestre e celestial. “Não existe nenhum âmbito da existência que não seja também o âmbito da Igreja. A Igreja é, fundamentalmente, destinada para o Universo; ela tem seus limites somente no Universo; não há nenhuma realização do senhorio de Cristo sem a Igreja e fora dela; nenhuma Plenitude, sem a Igreja ou fora dela. O modo como o Universo cresce em direção a Cristo é o modo como a Igreja cresce” (H. Schlier, Der Brief an die Epheser, citado por L. Boff, p. 97).

2. Cristo venceu todos os poderes hostis a Deus e ao seu povo. Os batizados em Cristo participam dessa vitória. Mas, como vivemos ainda nesta realidade, precisamos continuar orando no Pai-nosso: “não nos introduzas na tentação, mas livra-nos do Tentador”.

3. A Igreja precisa estar consciente de sua tarefa de amplitude cósmica e, ao mesmo tempo, manter-se em humildade vigilante. A Igreja tem o privilégio de que lhe foi confiado o mistério divino. Mas a grande tarefa deve mantê-la em humildade. A proclamação do Evangelho está impregnada de uma energia espiritual. A atmosfera espiritual da Igreja deve servir de proteção a todos os membros do Corpo de Cristo.

A fé em Cristo nos possibilita o acesso a Deus, em liberdade e confiança. A fé é a entrega total e confiante do ser humano a Deus. A fé é a única maneira de se obter a graça de Deus. Diante de Deus nós só temos a fé, que é a aceitação da dádiva de Deus. A fé é a receptora da graça divina e, ela mesma, resulta na prática de boas obras.

Os sofrimentos do apóstolo não devem abater os cristãos. Pelo contrário, devem animá-los e encorajá-los para a divulgação da mensagem libertadora de Deus. A “impenetrável riqueza de Cristo” precisa continuar sendo divulgada, para que mais pessoas se deixem transformar por Deus. E a nova existência deve ser uma realidade dentro da Igreja, o Corpo de Cristo.

Resumo.

A carta aos Colossenses declara que em Cristo se encontra a plenitude de Deus (2:9): todo o mundo divino (ao qual o Cristo preexistente pertence) e toda a criação (que ele assumiu mediante sua humanidade) – toda a plenitude do ser.

A carta aos Efésios declara que na Igreja se encontra a plenitude de Cristo (1:22-23).

Paulo se tornou ministro pelo dom da graça de Deus.

Ele se considera o menor de todos os santos, pois perseguiu a Igreja de Jesus Cristo, e porque se tornou apóstolo mais tarde (1 Cor 15:9-10).

Mas, foi-lhe dada a graça de anunciar a insondável riqueza de Cristo aos gentios.

Ele recebeu a graça do apostolado junto aos gentios. O Messias esperado por Israel veio também para os pagãos. Esse mistério Deus manteve guardado por muitos séculos. Essa é a grande revelação. O plano de Deus foi confiado ao Apóstolo.

Ele pôde colocar à luz o mistério oculto em Deus.

O mistério é o eterno plano de Deus, que no passado estava oculto e agora foi revelado em Jesus (Cl 1:26). O mistério se realizou em Jesus e tem seu desdobramento na Igreja: é o chamamento dos pagãos para a salvação, a reconciliação dos judeus e dos gentios em um só corpo, a união conjugal de Cristo e sua Igreja, e a submissão do universo inteiro a Cristo, o Senhor.

Os profetas do AT tiveram uma percepção obscura e imperfeita do mistério de Cristo (1 Pd 1:10-12 e Mt 13:17). Os gentios são co-herdeiros com os judeus cristãos (2:19). Os profetas do NT constituem a geração das primeiras testemunhas que receberam a revelação do desígnio de Deus, tornando-se o fundamento sobre o qual se edifica a Igreja (2:20). Paulo considera o mistério o objeto específico do Evangelho. O desígnio eterno de Deus a respeito da humanidade, oculto no passado, foi revelado agora.

Por meio da Igreja, a multiforme sabedoria de Deus é dada a conhecer aos Principados e às Autoridades nas regiões celestes.

Os “príncipes deste mundo” não conheceram a sabedoria de Deus (1 Cor 2:8). Eles ignoraram o plano de salvação de Deus e levaram os homens a crucificar Jesus Cristo. Mas agora, contemplando a dinâmica do crescimento e da expansão da Igreja de Jesus, eles conhecem e compreendem “a multiforme sabedoria de Deus”. Observemos 1Pd 1:12. A Igreja reúne judeus e pagãos, constituindo-se na manifestação última do desígnio de Deus. É a personificação da Sabedoria. A riqueza é uma alusão à Sabedoria. Os poderes celestes contemplam a nova humanidade, e constatam que sua atuação é ambígua e provisória. Os poderes descobrem agora – na Igreja única de judeus e pagãos – a sabedoria impensada e transcendente de Deus. Todos os povos tornam-se co-herdeiros do Reino de Deus.

O mistério é o desígnio preestabelecido desde a eternidade e realizado em Cristo Jesus.

Por Jesus Cristo ousamos chegar-nos a Deus confiantemente, pela fé.

Temos liberdade e acesso a Deus. Temos liberdade para falar com Deus, pois temos acesso à presença do soberano Senhor.

As tribulações acompanham a missão apostólica de Paulo.

3:14-21 – O amor de Cristo excede todo o conhecimento.

O autor continua a oração iniciada em 3:1 (e interrompida em 3:2). Essa oração já havia sido iniciada em 1:16-23.

Paulo dobra os joelhos diante do Pai: um gesto humilde de súplica (1Rs 8:54; Ed 9:5). Outra tradução possível: de quem toda paternidade recebe o seu nome. Paulo joga com as palavras (pathr) Patér (Pai) e (patria) patriá (família). “O Pai, revelado em Jesus Cristo, está na origem de todo o agrupamento humano ou angélico” (Tradução Ecumênica da Bíblia). Toda paternidade humana procede do Pai celestial. O termo paternidade também tem afinidade com “sobrenome” e “genealogia”. A genealogia de Jesus tem a sua origem em Adão e Deus (Lc 3:38), o que mostra que agora todos os que encontram a nova vida em Cristo têm um Pai comum.

A súplica prossegue. Que o Espírito arme os cristãos de poder, para que se fortifique “o homem interior”, ou seja, a parte racional do ser humano (Rm7:22). A expressão “homem interior” tem a sua origem na filosofia grega popular. O “homem exterior” é o corpo perecível (2 Co 4:16). Enquanto a filosofia grega fazia distinção entre “homem interior” e “homem exterior”, a perspectiva judaica distingue entre “homem velho” e “homem novo”. Neste texto, o conceito de “homem interior” quase se confunde com o de “homem novo”. Vejamos também 2 Co 4:16. A expressão “homem interior” (da antropologia grega) também é muito semelhante ao termo “coração” (vers. 17).

Pela fé, Cristo habita (Jo 14:23) nos corações, para estarmos enraizados e alicerçados no amor. Enraizar é uma imagem da vida agrária; alicerçar, da situação urbana (Jr 1:10 e Sl 144:12). Fortalecido pelo Espírito e habitado por Cristo, o crente é preparado para compreender e entender.

Juntamente com todos os santos, haveremos de compreender “a largura, o comprimento e a profundidade”. “Nós conhecemos em nosso espaço três dimensões. Os hebreus concebiam quatro dimensões (Jó 11:5-8). Porque não concebiam que a linha de profundidade – subterrânea – continuasse para cima. A superfície da terra, que o homem vivo pisava, era um corte total. Como se podia imaginar que do Sheol partisse uma linha contínua até o céu? Segundo uma especulação posterior, a cruz simbolizava as quatro dimensões, era o vértice do universo” (Schökel, Bíblia do Peregrino). Essas dimensões são mencionadas para enfatizar o caráter inacessível da sabedoria de Deus e dos seus caminhos.

Devemos conhecer o amor de Cristo, que supera toda a gnose (conhecimento). A gnose não pode plenificar o ser humano. O amor de Cristo pode nos plenificar, pois seu amor revela o amor do Pai (Jo1:15). E assim estaremos repletos da plenitude de Deus. Tornamo-nos participantes na plenitude que Cristo recebe de Deus e comunica à Igreja. O v. 19 deve ser lido literalmente: “a fim de que sejais cumulados até a total plenitude de Deus”.

A primeira parte da carta conclui com um louvor. Em Ef 3:10, a Igreja deve manifestar a sabedoria eterna de Deus. Agora, a Igreja deve manifestar a glória de Deus.

Segunda parte: exortação aos batizados (Ef 4 – 6).

4:1-16 – O crescimento do Corpo de Cristo.

Paulo reitera que é “prisioneiro no Senhor”. Em Ef 3:1 ele se apresenta como “prisioneiro de Cristo”. Vejamos também Fm 9.

Paulo exorta a igreja. A expressão “no Senhor” pode ser ligada a “prisioneiro” ou ao verbo exortar.

Os cristãos devem se conduzir de modo digno de sua vocação. Observemos 2 Pd 1:10. A vocação (chamado) é o ponto de partida de uma vida com Deus (Is 42:6; 43:1; 49:1 e Cl 3:12).

A conduta cristã deve acontecer em humildade, mansidão e longanimidade. São virtudes que manifestam a presença do amor (Pv 19:11; 2:23; Sl 131:2 e 1 Co 13). O amor é mencionado três vezes com a preposição en (com) – vv. 2, 15 e 16, o que mostra sua importância para a consolidação da unidade.

Os membros da igreja devem se suportar uns aos outros em amor.

Também devem preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Observemos Cl 3:14-15. A concórdia na Igreja é um reflexo da reunificação do universo (Cl 1:20). Judeus e pagãos são incorporados no único povo de Deus.

Nos vv. 4-6 são apresentados sete fatores como princípio de unidade. É o “vínculo da paz”.

Há um só corpo e um Espírito. A referência a “um só corpo” é a própria definição da Igreja. Assim como um organismo apresenta uma diversidade de funções, também o Corpo de Cristo é constituído de pessoas diferentes, mas unidas pelo Senhor. A unidade do corpo liga as diferenças individuais e culturais. A unidade do Espírito reúne a diversidade de dons (carismas). É o Espírito que dinamiza a Igreja, distribuindo carismas.

Os efésios foram chamados a uma só esperança. Essa é a vocação dos cristãos. A esperança se dirige para o futuro: a reconciliação cósmica de todas as coisas em Cristo.

Um Senhor. Essa afirmação tem implicações teológicas e sociais. O título “Senhor” (Kyrios) referia-se aos pais, aos proprietários de escravos, às lideranças e ao imperador. O título conferia autoridade. A Igreja passou: há um só Senhor – Jesus Cristo. O senhorio de Jesus Cristo impõe limites às demais autoridades. Todos precisam se submeter a esse único Senhor. Isso vale para escravos e proprietários. A prática do autoritarismo e o abuso de autoridade vêm a se constituir em pecado contra o senhorio de Jesus Cristo. Diante da única autoridade absoluta de Jesus Cristo, toda autoridade humana se tornou relativa.

Uma fé – designa a confissão de fé como princípio de unidade. A fé é apresentada como escudo “com a qual podereis apagar os dardos inflamados do Maligno” (Ef6:16). A fé é a acolhida da graça de Deus em nossa vida. Fé é resposta ao agir de Deus.

Um batismo. O batismo significa o início da existência cristã. A pessoa decide seguir Jesus e recebe o batismo, marcando sua passagem das trevas para a luz, da morte para a vida. Por isso, o termo batismo chega a ser sinônimo de salvação. O batismo pode ser definido como “ordenação para a vida cristã” (Karl Barth).

A TEB apresenta a tradução literal do v. 6 – “um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, através de todos e em todos”. “Os vs. 4-6 são uma aclamação ou profissão de fé cristã. Nela, há ecos da profissão de fé no único Deus de Israel (cf. Dt 6.4-5 e ver Mc 12.29-30, n). Enumeram-se sete elementos da fé e da vida cristã, e se ressalta o caráter único de cada um deles. O centro de tudo é um Espírito (Santo), um Senhor (Jesus Cristo) e um só Deus e Pai” (Bíblia de Estudo Almeida).

Observemos também Ml 2:10. A confissão de fé constante em Dt 6:4-5 faz parte da oração diária dos judeus.

O próprio Deus é elemento de unidade da Igreja. Deus é Pai de todos, pois ele é o Criador que gerou a vida. Ele quer se manifestar como Pai amoroso por intermédio de Jesus. O v. 6 menciona Deus o Pai, declarando literalmente “que está acima de todos, através de todos e em todos”.

Existe uma pluralidade dentro da unidade da Igreja. Cada um recebeu a graça segundo a medida de Cristo (v. 7). A pluralidade se unifica pela organicidade da Igreja. Como vencedor, Cristo distribui dons. A série de funções também é apresentada em 1 Co 12:27-29. Assim como Cristo deu o Espírito (no evento de Pentecostes), ele também dá dons à Igreja para a sua edificação.

A presença ativa do Espírito, do Senhor Jesus e do Pai (vv. 4-6) e também a atividade convergente dos ministérios (vv. 7-13) destinam-se a superar a discórdia (vv. 1-3) e a heresia (vv. 14-16), que ameaçam a unidade da Igreja. A unidade se realiza no dinamismo do crescimento.

Em Jo 3:12-13, Jesus também fala de descida e subida. Observemos também Jo 6:51-62 e Rm 10:6-7.

As “profundezas” pode ser uma referência à terra dos vivos, em comparação com o céu (Is 44:23), indicando então a encarnação de Jesus Cristo. Mas, a designação “profundezas” também pode se referir ao mundo subterrâneo – a morada dos mortos (Dt32:22; Ez 31:14 e Sl 63:10). O v. 9 refere-se às “regiões inferiores da terra”. Depois de vencer a morte, Jesus Cristo subiu aos céus, isto é, os sete céus.

Cinco fatores de pluralidade de órgãos ou funções (v. 11). Há uma pluralidade de funções. São apresentados cinco cargos.

Apóstolo é título que se formou no NT. Designa o mensageiro enviado, para divulgar a boa notícia da reconciliação de Deus com a humanidade. O enviado atua como testemunha.

Profetas, evangelistas, pastores e mestres são títulos oriundos do AT. Em Is 40:9 são mencionados evangelistas (mensageiros).

Os cinco títulos designam um ministério específico (1 Co 12:28). A igreja deve ser edificada e estruturada.

A Igreja deve crescer – em estatura e em maturidade. “Cristo repleta o universo porque repleta Igreja (Ef1:22-23)”, comenta a TEB.

A criança serve de exemplo de dependência, obediência e disponibilidade (Mc 10:15), mas também de ingenuidade, imaturidade espiritual e intelectual (quando é seduzida pelo engano). Observemos 1 Co 3:1; 13:11; 14:20 e Gl 4:1.3. O cristão deve estar atento em relação às falsas doutrinas, que são como um mar agitado. Observemos Cl 1:28. O cristão deve se conduzir como um homem em sua maturidade viril.

O Corpo deve crescer até Cristo, que é Cabeça.

A Bíblia do Peregrino apresenta a versão integral do v. 16: “do qual todo o corpo, travado e unido por toda espécie de juntura da subministração, segundo a atividade na medida de cada um dos membros, realiza o crescimento do corpo para construção dele no amor”. O objetivo é “a mensagem de unidade e a primazia do amor”, observa Schökel.

“A esperança escatológica reveste uma nova forma: a espera da volta de Cristo é substituída pelo motivo deste crescimento do corpo em direção à cabeça até sua plena realização”, comenta a Tradução Ecumênica da Bíblia.

O corpo e seu crescimento é um tema combinado com o da casa de Deus e sua edificação.

4:17-31 – A nova vida em Cristo.

Tem início uma exortação que representa a catequese da igreja primitiva. O cristão deve “revestir-se de Cristo”. Já encontramos no AT a oposição entre os dois caminhos (Sl 4:5; Zc 8:16.25-26). Agora é acentuado o contraste entre a antiga e a nova existência. O cristão vivencia uma ruptura com o passado pagão (Rm 1:21). O paganismo recebe estes qualificativos: obscuridade, ignorância, dureza, impureza, engano.

O AT designa a idolatria de “vaidade” (Jr 2:5; 8:19 e 10:3.8) e menciona a “razão obscurecida” (Is 44:18) e a “dureza de coração” (Ex 6:9; Ez 3:7).

Os pagãos “entregaram-se à dissolução”, sendo o resultado a indecência (v. 19).

O v. 20 é uma alusão à catequese que visava a preparação ao batismo.

O texto emprega o simbolismo da vestimenta. Devemos despir o “velho homem” em nós e vestir o “novo homem”. O simbolismo da vestimenta também é empregado em Rm 13:12.14; Gl 3:27; 1 Pd 2:1; Tg 1:21 e Hb 12:1. Por ocasião do batismo, os primeiros cristãos trocavam efetivamente de vestimenta, o que se tornou um símbolo para o início de uma nova vida em Cristo. O batismo era realizado no domingo da Páscoa e a pessoa batizada recebia uma vestimenta branca, a qual era retirada no culto do domingo seguinte.

Devemos abandonar a conduta anterior (Rm 1:18-27; 1 Ts 4:3-7; 1 Pd 2:11-17 e 4:3-6), pois o velho homem, impulsionado pelos seus desejos ilusórios, caminha para a auto-destruição e para a deterioração.

A renovação no espírito deve principiar na maneira de pensar. Observemos Ef 1:18.

A atitude de “despojar-se” (v. 22) é contraposta com a de “revestir-se” (v. 24). E “o engano” está em antagonismo com “a verdade”. Devemos nos revestir “do novo homem, criado segundo Deus”. E a imagem de Deus se concretiza em Cristo (Ef 2:10 e Cl 3:10).

Portanto, nós nos tornamos nova pessoa em Cristo.

Precisamos nos perguntar: O que significa estar “em Cristo”? Como posso entender o processo de alguém se “revestir do novo homem”?

Revestir-se do novo homem significa revestir-se de Cristo (Gl 3:27). Cristo é o Senhor ressurreto, que atravessou todos os espaços do cosmos, sendo por isso onipresente (Ef 4:9-10 e 1:20-23). E quando somos batizados, nós mergulhamos na realidade transcendente de Cristo. O Senhor ressuscitado nos cerca e nos envolve como um imenso manto incomensurável. É o Cristo ressuscitado, que preenche o céu e a terra de um modo invisível, que faz com que eu já me encontre, de um modo misterioso, na realidade da ressurreição. E essa realidade se tornará visível e palpável, quando o limiar escatológico for transposto (Cl 3:3). Por isso, estar envolvido por Cristo é um processo de dimensão escatológica.

É a Palavra que nos faz saber a respeito de Cristo. A Palavra está indicando para a realidade do Ressuscitado, dando confiança em relação ao futuro. A vida se torna diferente quando vivemos envolvidos por Cristo, confiantes a respeito do futuro eterno.

Em Cristo, nós nos tornamos nova criatura. A expressão “em Cristo” tem, em princípio, dimensão eclesiológica. Por isso, também podemos dizer que no Corpo de Cristo nós nos tornamos um novo ser. O fato de a Igreja ser o Corpo do Cristo ressuscitado baseia-se na participação de todos os seus membros no Senhor celeste. Observemos 1 Co 10:1-2. Em Cristo, todos os membros experimentam uma unidade corporal.

Nós devemos nos revestir do novo homem – a imagem de Deus – que é Cristo (Ef 2:10 e Cl 3:10).

Os vv. 22-24 têm o seu desdobramento nos vers. 25-32, onde são abordadas as consequências práticas para o viver diário.

Somos conclamados a deixar a mentira e falar a verdade com o próximo. Essa exortação encontra um paralelo em Zc 8:16. E a fundamentação é esta: nós somos membros do Corpo de Cristo. A estreita vinculação existente entre nós faz com que fiquemos devendo a verdade um ao outro. Se estivermos ocultando a verdade ao nosso próximo, estão estamos negando a nossa vinculação comunitária.

Ao nos irarmos, não devemos deixar o sol se pôr sem que tenhamos acalmado a nossa ira. Em diversas circunstâncias de injustiça, a ira é compreensível e até justificável. Também Jesus se indignou com seus interlocutores na sinagoga e ficou “condoído com a dureza do seu coração” (Mc 3:5). Mais forte ainda foi sua indignação com os comerciantes e cambistas no templo, a ponto de fazer um chicote de cordas e virar suas mesas (Jo 2:13-22). Mas, a ira não deve adquirir caráter duradouro e permanente, para não dar ocasião ao pecado. Devemos saber colocar uma limitação de tempo aos impulsos de ira. O firme propósito de não deixar o sol se pôr sobre a nossa ira, certamente é uma excelente iniciativa para nos reaproximarmos do nosso semelhante.

Existem três emoções básicas: o medo, a ira e o amor. Dessas três derivam todas as outras emoções. A ira é um impulso momentâneo, limitado em si mesmo. Todos nós estamos sujeitos a nos irar – em maior ou menor intensidade. O ódio (raiva) é a ira reprimida. Se a pessoa sente a emoção da ira e não lhe dá vazão no momento certo e na situação específica ou não a administra adequadamente, ela fica o tempo todo sentindo-a novamente. Ela passa a guardar um ressentimento, que é altamente prejudicial. Guardar rancor é uma manifestação de ódio por si mesmo.

Quando nos empenhamos com esse propósito, estamos deixando de dar ocasião ao diabo. Pois, caso a nossa ira for contínua, o diabo se sentirá bem à vontade em nosso íntimo.

É lembrado o mandamento “não furtarás”. A abordagem certamente se destina a pessoas que haviam cometido furtos em tempos passados. Observemos 1 Co 6:11.

No contexto do NT, o trabalho era considerado uma atividade indigna. Trabalho era uma atividade para escravos, sendo por isso indigno para o homem livre. Sendo assim, as pessoas em geral não tinham conflito de consciência, quando adquiriam seu sustento mediante uma vida parasitária e até mesmo por meios ilícitos e fraudulentos.

Foi a ética cristã que conferiu dignidade e honra para o trabalho. Observemos 1 Co 4:12; 1 Ts 4:11; 2 Ts 3:10.12. O nosso conceito de trabalho advém da reflexão teológica da fé cristã. É o trabalho que dá dignidade ao ser humano (Gn 1:28 e 2:15).

Também devemos estar alertas para não incorrer no outro extremo. O trabalho não deve estar orientado pela ânsia de adquirir sempre mais, mas pela alegria e liberdade de poder servir ao semelhante (2Co 9:8). O sentido cristão do trabalho é este: não viver dos outros, mas viver para os outros. O conceito cristão de trabalho tem profundas implicações sociais. Não é só o ladrão que se apodera da propriedade, mas também o parasita (2 Ts 3:10).

Se o nosso trabalho não estiver orientado para servir, então ele se torna verdadeiramente uma escravidão. Embora cada trabalhador seja digno do seu salário (Lc 10:7), nosso trabalho deve estar fundamentalmente orientado para uma dimensão comunitária. E convém mencionar o posicionamento do teólogo Wilhelm Löhe a esse respeito: “Qual é o meu salário? Eu não estou servindo por causa do salário e nem por um agradecimento, mas movido por gratidão e amor. O meu salário é poder servir”.

E assim como trabalho caracteriza a nossa ética, mais ainda a nossa linguagem o faz. Nós devemos falar a verdade. Mas, para que a busca pela verdade não venha a acarretar uma falta de amor, é importante observar que a nossa palavra deve transmitir “graça aos que ouvem”. O termo “graça” pode designar – nesse contexto – amabilidade, simpatia, encanto.

A palavra que proferimos deve visar a edificação. Ela não deve ser inconveniente e nem torpe. Observando Mc 7:15.20-34 e Mt 12:34, concluímos que a santificação de nosso falar não se efetiva com uma disciplina verbal somente, mas pertence ao âmbito do coração (a sede das nossas decisões), onde está o cerne da questão.

Se há pessoas, em cuja presença é impossível sentir rancor ou pensar negativamente, tanto mais esse estado de paz se torna realidade na presença de Jesus. O texto nos afirma que Jesus nos envolve totalmente! O maligno simplesmente não pode subsistir na presença de Jesus. As trevas não podem conviver com a luz!

Também a mentira pode envolver uma pessoa assim como uma vestimenta. E ela pode se tornar um hábito que se insere nos pensamentos e na conversação. Portanto, o nosso falar deve visar a edificação do nosso semelhante e da comunidade na qual nos encontramos. E toda vez que nós falamos com aspereza com alguém, nós precisamos nos lembrar de uma verdade fundamental: devemos nos revestir de Cristo!

É importante também sabermos dominar nossas paixões. Pois, se nós somos constantemente vítimas de impulsos passionais, nós entristecemos o Espírito de Deus (Is 63:10). Nós fomos “selados” no Espírito Santo “para o dia da redenção”. O termo “selar” se refere ao acontecimento do batismo. É por ocasião do batismo que o Espírito é concedido; ele é o selo que nos caracteriza como propriedade de Cristo. E nós cristãos somos marcados “para o dia da redenção”, isto é, para vivermos em liberdade.

O “novo homem” já é uma realidade, não só na pessoa de Cristo, mas também em nós, que nos tornamos nova criatura no batismo e estamos selados com a marca da propriedade de Cristo (2 Co 1:22). Nós trazemos conosco o mistério do novo ser. Vivendo em Cristo, nós somos as pessoas que não conseguimos ser “na carne”. E a “carne” sempre de novo quer se impor enquanto formos “homem natural”. Mas, o novo posicionamento diante da vida conta com o envolvimento de Cristo; somos envolvidos pelo Senhor ressuscitado e exaltado. A presença de Cristo é a pressuposição básica para vivermos envoltos por Cristo.

Nossas paixões devem ser controladas, mas não reprimidas e nem recalcadas. Devemos continuar sendo seres humanos. Jesus também se irou, mas não se deixou dominar por essa emoção.

Quando nossas paixões nos subjugam, então estamos dando “lugar ao diabo”. E então estamos entristecendo o Espírito Santo. Pois, o Espírito de Deus visa o amor e a disciplina. E nossa vida em Espírito é o despontar da vida escatológica. Ao darmos ocasião para a confusão – o diabo -, estamos negando o futuro que nos é prometido.

No Espírito Santo fomos “selados para o dia da redenção”. A carta aos efésios nos transmite que ocorre uma profunda intervenção na vida das pessoas batizadas. É apresentada uma relação de paixões, que devem ser evitadas. Por fim, a relação é ampliada e abrange “toda a malícia”. E aí está certamente uma alusão ao fato de que a questão não está só restrita à área das paixões, mas pode-se encontrar sob a influência do maligno. Segue, então, um enfoque positivo da concretização no novo ser. E o fundamento da ética cristã é o agir de Deus: aquilo que Deus realizou por nós em Cristo.

Não devemos entristecer o Espírito Santo. “O Espírito substitui a nossa tendência para o egoísmo. O termo ‘carne’ também significa egoísmo (Rm 7:5 e Gl 5:16). Por isso, não devemos entristecer o Espírito de Deus. O contexto dessa afirmação (Ef 4:25-32) mostra que entristecer o Espírito é fazer aquilo que ele não quer. Quando nós erramos e nos deixamos levar pela maldade, então entristecemos o Espírito de Deus. Também não devemos apagar a chama do Espírito em nós. Novamente o contexto (1 Ts 5:12-22 nos mostra o sentido da afirmação. Quando nos deixamos abater e não realizamos aquilo que Deus espera de nós, então estamos apagando a chama do Espírito em nossa vida. Extinguir o Espírito é deixar de fazer aquilo que ele manda fazer; isto acontece quando nós nos omitimos” (Paulo Rückert, Viver é lutar... amparado por Deus!, p. 58).

4:32 – 5:2 – Imitar a Deus.

Na condição de “filhos amados”, devemos imitar a Deus. Essa exortação é inusitada no NT. No AT, encontramos estas exortações: “vós sereis santos, porque eu sou santo” (Lv 11:45), “Santos sereis, por que eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo” (19:2) e “Ser-me-eis santos, porque eu, o Senhor, sou santo e separai-vos dos povos, para serdes meus” (20:26). Nesse contexto, trata-se de uma consagração a Deus. No contexto da carta aos Efésios, nós imitamos a Deus em nossa disposição para perdoar (4:32) e para amar (5:2). Também Jesus exortou seus seguidores a serem “perfeitos” (Mt 5:48) e “misericordiosos” (Lc 6:36) como o Pai celeste. O contexto mostra que essa imitação de Deus deve acontecer na disponibilidade para amar e exercer a misericórdia. A “perfeição” tem como centro a vivência do amor.

Devemos, portanto, perdoar-nos “uns aos outros, como também Deus em Cristo nos perdoou”. É no âmbito do perdão que tem princípio a vida do “novo homem”. Deus perdoa em Cristo. Esse é o sim maravilhoso de Deus para o nosso viver!

5:3-20 – Passar das trevas para a luz.

Em 5:1 há um indicativo salvífico (filhos amados) e um imperativo ético (imitai a Deus). Também o v.8 apresenta um indicativo salvífico (sois luz no Senhor) e um imperativo ético (vivei como filhos da luz). Na condição de filhos amados devemos imitar Deus. E na condição de sermos luz devemos viver como filhos da luz. É a radicalização do amor, dirigido inclusive aos inimigos, e a radicalização da comunhão com Deus. No AT, Deus manifesta a exigência para consagração do povo: “sede santos como eu sou santo” (Lv 11:44-45; 19:2 e 20:26). Jesus propõe o Pai celestial como exemplo (Mt 5:44-45). Em 1Pd 2:21 é proposta a imitação de Cristo. Paulo se declara imitador de Cristo (1 Co 11:1). Na medida em que os cristãos imitam Paulo (1Co 4:16; Gl 4:12; Fl 3:17), eles também estão imitando Cristo (1 Ts 1:6; Fl 2:5).

O culto sacrifical, que Deus aceita, é de “agradável odor”.

A avareza é uma idolatria. Vejamos 1 Co 6:9-10. Em 1 Ts 4:3.6-7 também encontramos uma relação de vícios.

A ira de Deus sobrevém sobre os rebeldes (Nm 13-16 e Sl 106). Aquele que insiste em viver como pagão, acaba se excluindo do Reino de Deus e de Cristo (Cl 1:12-13).

Há uma oposição entre luz e trevas (Jo 12:36). Andar na luz significa cumprir a vontade de Deus.

Cristo é a luz do amanhecer (Sl 57 e Is 60). A referência é um símbolo batismal. Estamos novamente diante de um indicativo salvífico (filhos da luz) e de um imperativo ético (comportar-se como filhos da luz). As pessoas com sentimento de culpa se escondem na escuridão (Jó 24:13-17), mas a luz revela o delito (Sl 90:8). Há uma oposição entre o mundo das trevas e o mundo da luz. As obras das trevas são estéreis e vergonhosas, Palavras vãs induzem à desobediência. Há um antagonismo entre o passado e o presente (Ef 2:1-13; 4:17-24; 1 Co 6:9-11; 1 Pd 2:9-10 e 4:3).

Aquele que dorme na morte deve se levantar. No AT, o convite é dirigido a Jerusalém (Is 51:17 e 52:1). A citação desse hino cristão exorta a levantar para contemplar a luz de Cristo ressuscitado que amanhece (Is 60:1-3; 62:1 e Sl 57). Devemos despertar, para que Cristo nos ilumine. Nossa luz vem de Cristo. É uma referência ao acontecimento do batismo – o veículo da graça que nos alcança. É mediante o batismo que se realiza a transformação fundamental para existência cristã. Devemos caminhar na luz, e também trazer frutos da luz. Os filhos da luz devem produzir o fruto da luz: bondade, justiça, verdade.

Os tempos são maus para a Igreja (Cl 4:5). O v. 16 declara literalmente: “resgatai o tempo”.

O cristão deve evitar a embriaguez com o vinho (Pv 23:29-33). A alternativa é a plenitude do Espírito. Somos a herança escatológica do Senhor (Gl 5:21 e 1 Co 6:9-10).

5:21 – 6:9 – As novas relações em Cristo.

“Na literatura da época, era frequente enumerar os deveres mútuos entre os membros de uma casa ou família, a qual incluía os escravos. Nas passagens do NT, a referência ao Senhor modifica profundamente tais deveres. Estes giram em torno de três grupos familiares com relacionamentos recíprocos: em cada caso, são mencionados primeiramente os membros do grupo que eram tidos como fracos e necessitados de proteção (mulheres, filhos e servos), e, depois, os que se tinham como fortes (maridos, pais e senhores), os quais devem mostrar consideração e amor pelos primeiros. Em Ef, é dada atenção especial ao relacionamento entre os cônjuges; em Cl 3:18-4:1, ao de servos e senhores. Em 1 Pe 2:18-3:7, se dá atenção ao relacionamento entre servos (ou escravos) e os seus senhores e ao relacionamento entre os cônjuges” (Bíblia de Estudo Almeida).

A exortação de Cl 3:18 é reproduzida, onde Paulo já havia introduzido uma novidade nos preceitos morais enunciados pela filosofia da época: “como convém no Senhor”. O essencial da ética cristã é que ela seja vivenciada “no Senhor”.

Paulo acrescenta mais uma dimensão à ética cristã: o casamento entre homem e mulher deve se inspirar na união de Cristo e da Igreja.

O casamento deve transcender sua cultura. Enquanto a cultura estabelece a desigualdade, a proposta é o relacionamento de Cristo com sua Igreja. A relação entre Cristo e a Igreja não reproduz a experiência conjugal, mas é o contrário: o casamento entre homem e mulher deve se inspirar no protótipo divino. “A união entre Cristo e a sua Igreja dá uma nova dimensão a esses relacionamentos” (Bíblia de Estudo Almeida). O AT menciona o relacionamento de Iahweh com seu povo (Os 2; Is 1:12-25; 5:1-7; Jr 2:1; 3:1-5; 31:21;22; Ez 16:1-2; Is 49:54). Em seus últimos capítulos, o Apocalipse enfatiza esse tema.

Expressões que pertencem à imagem conjugal: “sem mancha nem ruga”, “alimentar”, “cuidar”. Observemos Ex 21:10. A relação é afetuosa.

O amor conjugal de Cristo o leva ao sacrifício de si mesmo. Dentro desse contexto, a Igreja é submissa a Cristo, que é Cabeça. “O amor de Cristo se apresenta como o modelo ideal para o amor do marido pela mulher” (Bíblia de Estudo Almeida).

A Igreja é purificada “por meio da lavagem de água pela palavra” (referência ao batismo – Tt 3:3-7; 1Pd 3:21; Jo 15:3), ou seja, ela é consagrada. O v. 26 deve ser lido literalmente: “purificando-a pelo banho da água na Palavra”. O batismo deve estar acompanhado da proclamação da Palavra. “Alusão aos costumes nupciais do Antigo Oriente. Banhava-se e arrumava-se cuidadosamente a noiva, antes de apresentá-la ao seu noivo. Aqui, é Cristo mesmo quem purifica a Igreja por meio da água pela palavra” (Bíblia de Estudo Almeida). A Igreja é corpo de Cristo e também esposa de Cristo.

Paulo cita Gn2:24. “No texto de Gênesis, Paulo descobre uma prefiguração da união de Cristo e da Igreja, ‘mistério’ que ficou escondido por muito tempo e foi agora revelado, assim como o ‘mistério’ da salvação das nações” (Bíblia de Jerusalém).

Em 6:1-4 é abordado o âmbito da família, e a motivação é buscada no decálogo (Ex 20:12). Os pais também têm deveres (que não são mencionados no decálogo). A educação dos filhos é um tema de fundamental importância (Pv 19:18).

“Também os escravos pertencem ao âmbito da família. O notável é a reciprocidade de deveres e trato e a igualdade radical sob o senhor único, que é Deus” (Bíblia do Peregrino).

6:10-20 – O combate espiritual.

Depois de refletir sobre a nova humanidade em Cristo, sobre o final de toda inimizade e o estabelecimento da paz, a carta aos efésios conclui com o apelo à luta.

Viver no reino de Cristo implica contar com adversidades.

A Igreja se encontra em meio a uma luta espiritual de dimensões cósmicas. É em meio a um mundo de lutas, que o Evangelho da paz chega à vitória. A dimensão dessa luta ultrapassa as nossas concepções habituais.

O chamado para a luta pelo Evangelho da paz é a palavra final da carta. O cristão é chamado a uma prontidão para o futuro.

O texto inicia com uma exortação: “sede fortalecidos no Senhor”. Devemos nos deixar fortalecer. O verbo fortalecer se encontra na voz passiva. Observemos Ef3:16. Esse fortalecimento deve acontecer “no Senhor”. É assim que a nossa vida cristã se desenrola. Nós necessitamos de força. E precisamos recebê-la daquele que efetivamente é a força e o poder. Nós recebemos força na medida em que esperamos pelo Senhor (Ef 3:16.20; Fl 4:13; 2 Tm 2:1; Is 40:31). E devemos fundamentar a fé na obra que Deus realizou por intermédio de Cristo.

A exortação “sede fortes” corresponde ao chamado que um comandante dirige à sua tropa, como lemos em 1 Sm 4:9. Agora, o apelo para a coragem vem a se constituir num apelo para a fé.

Devemos nos revestir “de toda a armadura de Deus”. O termo revestir pertence à terminologia do batismo (Ef 4:22-24; Rm 13:14; Gl 3:27; Cl 3:9-10). Em Rm 13:12; 1 Ts 5:8; 2 Co 6:7 e 10:3-6 o termo revestir está associado à ideia da prontidão para a luta. É Deus mesmo quem prepara e equipa o seu pessoal para a luta.

Deus quer nos equipar com armas para uma luta espiritual. As armas espirituais são um dom de Deus e destinam-se exclusivamente ao nosso fortalecimento, para podermos nos relacionar adequadamente com a realidade na qual estamos inseridos. O texto é bastante claro ao ressaltar que “a nossa luta não é contra o sangue e a carne”. A luta espiritual tem dimensões cósmicas. Observemos o que Paulo escreveu em 2 Co 10:3-5. A nossa luta é contra as forças do mal: principados, potestades (autoridades), dominadores, mundo de trevas, forças espirituais do mal, regiões celestiais, maligno, diabo.

Com exceção da espada, as demais armas são defensivas. Mas, na linguagem bíblica, a espada é a “do Espírito, que é a Palavra de Deus”. O cristão pode contar com a espada do Espírito e com a oração. A Palavra é uma espada (Is 49:2 e Hb 4:12).

As armas defensivas são:

- a armadura de Deus. O AT apresenta Deus armando-se para o combate contra seus inimigos (Is 11:5; 59:17). Na concepção do AT, Deus mesmo veste a armadura, para lutar contra os inimigos de seu povo. O NT anuncia que essa batalha foi travada na cruz de Cristo. A ressurreição é evidência da vitória de Jesus. Agora, Deus proporciona as armas (Rm 13:12 e 1 Ts 5:8).

- o cinturão da verdade. Os soldados usavam um cinturão de couro largo, que servia de proteção. A verdade protege o cristão a falsidade e as adversidades. Jesus Cristo é a verdade que nos foi manifestada. Deus é a verdade, porque ele é confiável e fiel. A “verdade do Evangelho” deve permanecer entre os cristãos (Gl 2:5). Orientados pelo Espírito Santo, os discípulos devem viver a andar na verdade.

- a couraça da justiça. A couraça de couro ou de metal protegia a parte superior do corpo. A justiça é o ato de Deus que declara o pecador justo mediante o sacrifício de Jesus Cristo. Somos justificados pela graça de Deus, que é recebida mediante a fé.

- os sapatos para divulgar o Evangelho. As “sandálias” são o calçado de um evangelista itinerante (Is 52:7).

- o escudo da fé. O escudo do soldado romano era revestido de couro ou de uma placa de metal, e era capaz de neutralizar os dardos inflamados do inimigo.

- o capacete da salvação (Is 59:17). A salvação é a intervenção de Deus em nossa vida. É a libertação de todos os poderes opressivos: pecado, carne (egoísmo), diabo, morte. Mediante a morte e ressurreição de Jesus, Deus interveio decisivamente em nossa realidade. Todos os que acolhem a intervenção de Deus são adotados como filhos do Pai celestial. Deus continua agindo na vida dos que creem, pois ele concede o seu Espírito Santo.

Quando amamos a Deus e procuramos perseverar em fé e esperança, então nos defrontamos com as forças que se opõem ao Reino de Deus. O adversário de Deus também é inimigo de suas criaturas. O caos - anterior à boa criação de Deus – quer retornar. Estamos sempre de novo nos deparando com forças destrutivas. O diabo quer nos seduzir de diversas maneiras. E justamente por se tratar de uma força da dimensão espiritual, esse poder quer nos iludir e nos induzir ao mal-entendido, à amargura e à ira. Quando fixamos nossa atenção em Deus, a tentação quer nos tirar desse foco.

Necessitamos da armadura de Deus. Precisamos permanecer firmes na fé. O importante é perseverar. Devemos resistir aos métodos astutos do diabo (Ef 4:27).

Deixar-se fortalecer “no Senhor” significa permanecer lúcido na hora da tentação; é reconhecer que essa luta não deve ser empreendida por conta própria. O nosso “homem interior” deve ser fortalecido (Ef 3:16) pelo Espírito de Deus. Convém lembrar que o apóstolo Paulo se sentia fortalecido quando estava fraco (2 Co 12:10 e 1 Co 1:25-27).

Devemos estar conscientes de que não podemos subsistir nessa luta por conta própria. Necessitamos de um armamento diferente. A “armadura de Deus” é descrita em detalhes nos vv. 14-17. Ela nos deixa equipados para podermos ficar firmes diante das armadilhas do adversário.

Quem é o nosso adversário?

No v. 11 é mencionado o diabo. E no v. 12, os poderes. Trata-se de uma força personificada e contrária à vontade amorosa de Deus. “Chefe inimigo é o “diabo”, ou o “maligno”; tem às suas ordens um exército de poderes subalternos, de “espíritos” que agem na atmosfera sublunar” (Schökel, Bíblia do Peregrino). O v. 12 menciona os espíritos do mal que estão nos céus. Isto significa que os espíritos do mal também têm sua morada nos céus.

O importante é permanecer de pé, tendo recorrido a tudo (v. 13).

A mensagem do texto consiste nestas duas exortações: sermos fortalecidos no Senhor e permanecermos firmes e inabaláveis.

Devemos nos vestir com “a verdade” e com “a couraça da justiça”.

Para nos defendermos do maligno, devemos usar “o escudo da fé”.

Ao mencionar “os dardos inflamados do maligno”, o texto está nos prevenindo em relação às tentações, com as quais todo cristão precisa se defrontar.

A oração deve ser vigilante (v. 18). “A essência de toda oração é o diálogo com Deus” (Oscar Cullmann, A oração no Novo Testamento, p. 68). “Ali, ele está presente para nós de uma maneira especial” (p. 70). “Eis aí o paradoxo da oração de petição: Deus sabe de que temos necessidade, e, no entanto, ele quer que nós lhe peçamos” (p. 74). “O poder de cada oração de intercessão consiste no fato de que os que oram se unem à vontade de Deus, contribuindo para que um muro de amor seja edificado em torno daqueles pelos quais se ora” (p. 84). “Jesus sabia que certas orações não seriam atendidas. Isso o conduz a ligar todas as suas promessas a uma condição: a necessidade de crer” (p. 91). Cullmann analisa Rm 8:26 e afirma que “o falar do Espírito na oração do homem está obrigatoriamente ligado às insuficiências humanas” (p. 184). Quando oramos, o próprio Deus supre a nossa limitação. Deus nos ouve. Podemos deduzir que “o encontro com Deus já é uma resposta” (p. 234). “Perseverar na oração é, por sua vez, uma exigência e um remédio para superar a tentação humana de se negligenciar a oração. Certamente não se deve orar mecanicamente, por rotina, mas, por outro lado, uma oração regular facilita a união com Deus” (p. 268). Nada deve ser excluído da oração (Fl 4:6).

Paulo pede que a Igreja ore também por ele. “Um mensageiro preso é um paradoxo. O que pede é ‘liberdade’ de espírito para pregar o evangelho. O homem pode abrir a boca, encontrar a palavra certa é dom de Deus (At 4:29)”, comenta Schökel, Bíblia do Peregrino.

6:21-24 – Saudação final.

O v. 24 deve ser traduzido literalmente assim: “Que a graça esteja com todos os que amam nosso Senhor Jesus Cristo na incorruptibilidade.” Pode-se compreender que Jesus Cristo se encontra na vida incorruptível. O termo incorruptível também pode ser adjetivo de graça, que é perdurável. A Bíblia do Peregrino traduz assim: “Graça e imortalidade para todos os que amam o Senhor nosso Jesus Cristo.” A Zürcher Bibel traduziu o v. 24 literalmente: “A graça seja com todos que amam nosso Senhor Jesus Cristo de modo imperecível / eterno”.

Considerações finais.

Em Colossos, o Universo era entendido em termos estáticos, sendo o espaço cósmico povoado por espíritos bons e maus, que podiam desencadear o caos ou a ordem. Paulo se defrontou com a relação entre Cristo e o Universo. Em 1 Co 8:6 e 3:22, o apóstolo já havia esboçado essa reflexão. Paulo argumenta que o Universo não deve ser visto como absoluto e autônomo, mas como dependente de Deus. Aos colossenses, ele acentua que o Universo tem a sua origem em Cristo, que também lhe garante a sustentação.

“Desse seu confrontamento surgiram uma cristologia cósmica, na epístola aos colossenses, e de uma eclesiologia com dimensões cósmicas, na epístola aos efésios, em que se retoma, como mais reflexão e sem muita polêmica, o tema levantado na comunidade de Colossos” (Boff, p. 89).

A cristologia cósmica de Paulo advém de sua experiência com o Cristo ressuscitado. A nova vida em Cristo significa encontrar-se no Cristo ressuscitado. Paulo se defrontou com a nova realidade de ressurreição, que transcende o espaço e o tempo.

A unidade da totalidade é sustentada pelo Cristo cósmico.

Paulo emprega o conceito “corpo”. Esse termo os estóicos empregavam com uma clara conotação cósmica. Ao designar a Igreja de “corpo”, é estabelecida esta inserção: a comunidade eclesial é integrada no corpo espiritual do Cristo ressuscitado. O corpo espiritual de Cristo foi adquirido mediante a ressurreição; “ele é um fato dado, anterior à comunidade; ele não é produto dessa comunidade; esta, sim, é mergulhada nele, participa dele, pela Eucaristia, vive nele e dele” (Boff, p. 90).

Nas cartas aos colossenses e aos efésios, Paulo a temática da unidade cósmica estabelecida por Cristo e da ampliação cósmica do Corpo de Cristo. Para formular essa temática, ele emprega os conceitos “plenitude”, “totalidade”, “unidade”.

“As quatro preposições n’Ele, para Ele, com Ele e o Ele é antes de tudo, os estóicos já as empregavam para exprimir a relação do mundo para com a divindade. Aqui são aplicadas à relação da criação para com Cristo (Cl 1,16-17). Os termos corpo, cabeça, pleroma e tudo (este último ocorre 54 vezes na epístola aos efésios e 42 na carta aos colossenses); as quatro dimensões, a largura, o comprimento, a altura e a profundidade (Ef 3,18), significam, segundo J. Dupont, uma totalidade” (Boff, p. 90).

O hino cristológico em Cl 1:15-20 mostra que Paulo teve que refletir a unidade da totalidade, que tem sua origem e sustentação em Cristo.

“O ser humano no mundo helenista preocupava-se não tanto com seus problemas pessoais, seus pecados e justificação, senão muito mais com o problema do mundo, do absurdo da existência e da ameaça do destino fatal. Nesse mundo, cantava um grupo cristão, que tinha aprendido muito de Paulo, seus hinos e louvavam Cristo como o Criador e Redentor do cosmos, ao qual estão sujeitas todas as Potências. Cristo não somente o Redentor do homem-indivíduo; ele é também Senhor de todo o mundo. Ele é a resposta ao agudo problema dos gregos num mundo no qual Deus – e com isso o sentido e o destino das coisas – se havia perdido. Assim estavam coagidos a haver-se com um destino que eles temiam e do qual não podiam escapar” (Eduard Schweizer, Kirche als der missionarische Leib Christi, citado por Boff, p. 91).

Os estóicos diziam que o Universo é um grande corpo vivo; a totalidade forma um organismo vivo, um corpo único. Paulo declara que Cristo é o pléroma e o Universo, o seu corpo. Cristo é preexistente (Cl 1:15) e tem a primazia absoluta, pois ele é “a cabeça de tudo”. Em Cl 1:18 fica bem claro: Cristo é a cabeça do corpo da Igreja. Em Cristo habita a plenitude de forma corporal (Cl 2:9). “Ele é, em todos os casos, cabeça simultaneamente do cosmos e da Igreja. [...] Como, porém, Cristo é, simultaneamente, cabeça do corpo da Igreja (Cl 1,18a) e cabeça das Potências, que não pertencem à Igreja mas ao cosmos, estende-se, pois, o corpo para além dos limites da Igreja; com isso, abre-se, pois, uma nova perspectiva cósmica” (Boff, p. 93).

“O termo pleroma é usado tanto para Cristo (Cl 2,9-10; Ef 1,22-23; 4,10) como para a Igreja (Ef 1,23b). Isso vem dizer que a Igreja participa de toda ação unificadora e renovadora de Cristo, seja nos seres humanos, seja no cosmos” (Boff, p. 94).

A missão da Igreja é desmascarar os poderes inimigos de Deus e da humanidade (Ef 3:10). A missão da Igreja é promover a reintegração do ser humano, superando o pecado, o egoísmo e a alienação. Nesse velho éon, a Igreja deve iniciar o processo de reconciliação.

Os limites do Corpo de Cristo são os limites da Cabeça. E os limites de Cristo são os limites do Universo.

Colossenses e Efésios são os dois escritos do NT que apresentam – com profunda reflexão – a dimensão cósmica de Cristo e de seu Corpo, a Igreja.

Literatura:

BARTH, Karl. Dádiva e louvor. São Leopoldo: Sinodal, 1986.

Bíblia de Estudo Almeida. Barueri: Sociedade Bíblia do Brasil, 1999.

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus Editora, 2006.

Bíblia do Peregrino. Tradução e comentários: Luís Alonso Schökel. São Paulo: Paulus Editora, 2002.

Bíblia Sagrada. Petrópolis: Editora Vozes, 1983.

BOFF, Leonardo. Evangelho do Cristo cósmico. Rio: Record, 2008.

CULLMANN, Oscar. A oração no Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã, 2009.

Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento (2 volumes). São Paulo: Vida Nova, 2000.

McKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1984, 7ª edição.

MOLTMANN, Jürgen. No fim, o início. São Paulo: Loyola, 2007.

THIELMAN, Frank. Teologia do Novo Testamento: uma abordagem canônica e sintética. São Paulo: Shedd Publicações, 2007.

Tradução Ecumênica da Bíblia – TEB. São Paulo: Edições Loyola, 1997, 5ª edição.

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