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  • Maria Luiza Rückert

A DIMENSÃO TERAPÊUTICA DOS SALMOS


Aqui, em Lagoa Santa, aproveitamos o nosso tempo para estudarmos juntos os salmos. Passamos a nos empolgar com as anotações e aprofundamos a pesquisa. O resultado é este livro, que estamos apresentando a vocês.


Nosso propósito é compartilhar algumas constatações interessantes:


- O conteúdo teológico dos salmos é uma síntese de toda a teologia do AT.


- No contexto do AT, a guerra era considerada uma atividade sagrada. Quando uma nação ia à guerra, o objetivo era defender os seus deuses. Os combatentes eram consagrados. De um modo surpreendente, nesse contexto, os salmos 46 e 76 anunciam que Deus vai acabar com as guerras, destruindo os armamentos.


- Os salmos nos apresentam seres humanos falando. E falam tudo. Todos os sentimentos são derramados na presença de Deus. São descritas até mesmo as reações orgânicas: respiração ofegante, batimento cardíaco acelerado, garganta seca, opressão no peito, falta de apetite, insônia. Se essa polarização de experiências consta na Bíblia, então certamente é por que assim é a vida.


- Muitos salmos iniciam com um clamor de desespero, pois o salmista está sendo ameaçado por inimigos. De repente, acontece uma mudança e o salmo passa a louvar a proteção de Deus. Os inimigos ficaram bonzinhos? O que aconteceu foi uma mudança no interior do salmista: ele iniciou o salmo focado no problema, e então percebeu a presença de Deus. Ele deixou de focar o problema, para vivenciar a fidelidade e a proteção de Deus. Mudou o foco.


- O clamor do salmista não é apenas subjetivo. Ele se encontra muitas vezes numa condição de oprimido social. Seu contexto é uma sociedade marcada por disparidades sociais, que são idênticas às que foram denunciadas pelos profetas. Portanto, a interpretação dos salmos também deve acontecer a partir de uma hermenêutica da situação sócio-econômica.


- Existem os salmos imprecatórios (pedindo a Deus que envie castigos severos sobre uma outra pessoa). As punições são descritas com extremo realismo, o que tem chocado muitas pessoas piedosas. Acontece que no ambiente cultural dos salmos, as palavras eram revestidas de muito poder; uma vez pronunciadas, elas não podiam ser retiradas. Diante da opressão de um poderoso e perverso, a imprecação do pobre indefeso era um recurso de legítima defesa. Quando a desgraça atingia o homem perverso, era um sinal de que a justiça divina ainda funciona.


- Dentro de uma realidade injusta e perversa, o salmista pergunta: vale a pena ser correto? Em meio a tantas adversidades – externas e internas – o salmista desenvolve uma certeza: Deus intervém nesta realidade, alterando o curso dos acontecimentos. Apesar de tudo, ele confia na intervenção de Deus.


- A doença é considerada uma distorção da ordem da criação de Deus. Ela precisa ser resolvida no âmbito da espiritualidade. Em Israel, a medicina não era desenvolvida, porque, entre os povos vizinhos, a prática médica estava impregnada de magia. Portanto, a cura não podia depender de um ritual obscuro, mas a pessoa doente precisava fazer uma auto-avaliação diante de Deus. A doença poderia conter uma mensagem.


Estas e outras peculiaridades vêm a se constituir na Dimensão terapêutica dos salmos. E são essas características que nós queremos compartilhar com vocês.


Temos em mãos 300 exemplares. Para pedidos individuais, o exemplar poderá ser enviado ao preço de R$ 45,00. Para pedidos de 5 livros ou mais, o exemplar custará R$ 40,00. Um livro com 300 páginas, enviado pelo Correio, ao preço de R$ 40,00 – é realmente preço de custo.


Para terem uma amostra do nosso trabalho, enviamos a análise do Salmo 91.



Salmo 91


É um ato litúrgico que celebra a confiança. Os personagens se alternam nos pronunciamentos.


O v. 1 é pronunciado pelo celebrante. E o orante responde com o v. 2. É significativo que, nestes dois pronunciamentos, são mencionados quatro nomes divinos. O celebrante declara: “Quem habita na proteção de Elyôn [o Altíssimo], pernoita à sombra de Shadday [Onipotente]”. O orante pronuncia sua confiança: “Iahweh [Eu sou], meu abrigo, minha fortaleza, meu Elohim [Deus], em quem confio!” O celebrante fala de Deus ao salmista: “Pois ele te livrará da rede do caçador, da peste fatal; ele te cobrirá com suas plumas, e te refugiarás sob suas asas: seu braço é escudo e armadura” (v. 3-4).


O celebrante prossegue alertando sobre perigos: “Não temerás o terror noturno, nem a flecha que voa de dia, nem a peste que desliza nas trevas, nem a epidemia que faz estragos ao meio-dia” (v. 5-6). O “terror” costuma atuar de noite. A “flecha” voa silenciosa; não se sabe de onde vem nem para onde vai. A “peste” é altamente contagiosa. A “epidemia” causa danos em plena luz do dia. O terror, a flecha, a peste e a epidemia formam um quarteto sinistro, que atua num âmbito que escapa à compreensão e ao controle do homem.


A esse quarteto sinistro contrapõem-se os quatro nomes divinos pronunciados nos primeiros dois versículos: Elyôn, Shadday, Iahweh, Elohim. O temor do quarteto sinistro foi influenciado por crenças em feitiços e magias praticados na Mesopotâmia. Esses perigos que escapavam ao controle humano eram submetidos pelo israelita ao poder do Deus Único. A menção do quarteto sinistro é antecedida pelo pronunciamento: “Não temerás”.


O celebrante prossegue com palavras de encorajamento e de alerta, e também menciona seres divinos protetores: “Ao teu lado cairão mil, e dez mil à tua direita, e a ti não alcançarão. Basta olhar com teus olhos, verás a paga dos perversos. Porque fizeste do Senhor teu refúgio, tomaste o Altíssimo por morada. A desgraça não se aproximará de ti nem a praga chegará à tua tenda; porque ele deu ordem aos seus anjos para que te guardem em teus caminhos. Eles te levarão em suas palmas para que teu pé não tropece na pedra. Caminharás sobre leões e víboras, pisotearás leõezinhos e dragões” (v. 7-13).


Os perversos recebem a sua paga porque não contam com a proteção de Deus. Para se defender de perseguições, o abrigo sempre era procurado no templo. Mas, neste salmo, o Altíssimo torna-se a morada. Portanto, a proteção já não é mais procurada num local [no templo], mas Deus em pessoa protege a pessoa que corre perigo.


Aquele que assim confia está livre da desgraça e da praga, as quais nem se aproximam dele. Os anjos receberam ordens para guardar aquele que se refugia em Deus. A pessoa é protegida até mesmo das pedras no caminho. Deus quer proteger no refúgio e no caminho. Os espíritos hostis querem se intrometer no refúgio. As feras estão espreitando pelo caminho. Deus se faz presente em pessoa no refúgio. Para acompanhar o orante no caminho, Deus envia os seus anjos.


O v. 13 também apresenta um quarteto hostil: leões, víboras, leõezinhos e dragões. Também este quarteto é mencionado na Mesopotâmia, no poema Enuma Elish. Os dois tipos de leões simbolizam a força animal que mata. A picada da víbora é mortal. O dragão é uma referência ao caos primordial, que está sempre ameaçando retornar.


Os v. 14-16 são pronunciados por Deus: “Porque me ama, eu o salvarei, eu o porei no alto, porque conhece meu nome. Quando me chamar eu lhe responderei, estarei com ele no perigo, o defenderei e o honrarei. Vou saciá-lo de longos dias e o farei desfrutar de minha salvação”. O amor a Deus é retribuído. Deus quer estar com o orante, que conhece o nome divino. Diante da invocação, Deus responde e quer estar com o homem piedoso no perigo. Deus quer defendê-lo e honrá-lo. Saciando-o com longevidade, Deus quer fazê-lo desfrutar a salvação.Este salmo nos ensina que também o homem piedoso e justo se depara com a provação, mas Deus quer protegê-lo e libertá-lo. As adversidades e as perseguições são muitas, mas o único refúgio seguro é Deus. Feliz é a pessoa que confia na proteção de Deus.


Como o NT interpretou este salmo? Quando Jesus foi tentado, o diabo citou os v. 11 e 12 para insinuar um espetáculo (Mt 4,5-6; Lc 4,9-11). Em Lc 10,19 há uma citação parcial do v. 13 – para ilustrar a autoridade dos discípulos de Jesus sobre os poderes malignos. O v. 11 serviu de base para a argumentação de que os anjos são espíritos a serviço da salvação das pessoas (Hb 1,14); vejamos também Sl 34,7.



Maria Luiza Rückert

maria.luiza.ruckert@gmail.com

Cursou Teologia na Escola Superior de Teologia (EST). Especializou-se em Clínica Pastoral no Hospital da Universidade de Minnesota. Fez pós-graduação em Ética, cidadania e subjetividade na EST. Participou no Curso de Educação Popular - Método Paulo Freire, no Chile, em 1992. Atuou como Capelã Hospitalar durante duas décadas no Hospital Evangélico de Vila Velha, ES. Atuou também como pastora e professora de teologia. Autora do livro Capelania Hospitalar e ética do cuidado.



Paulo Roberto Rückert

pauloruckert@gmail.com

Cursou Teologia na Escola Superior de Teologia (EST). Cursou Filosofia na PUC – Belo Horizonte. Fez pós-graduação na Universidade Candido Mendes e Mestrado em Ciências das Religiões na Faculdade Unida de Vitória. Cursou Psicanálise na Sociedade Latino Americana de Psicanálise Clínica (SLAPSIC). Atuou como pastor, professor de teologia e psicanalista. Autor do livro Viver é lutar... amparado por Deus.



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