Buscar
  • Maria Luiza Rückert

A INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA


Como entender esse conceito tão essencial para a leitura bíblica.

Paulo Rückert

A teologia protestante elabora sua fundamentação a partir da pesquisa das Sagradas Escrituras. É a interpretação do texto bíblico que proporciona sustentação ao labor teológico. Por esse motivo, a teologia protestante tem sido considerada a Teologia do Livro.

Esse ponto de partida mostra o quanto é importante a pesquisa do texto bíblico. No entanto, a interpretação do texto só é correta e confiável se a mesma se orientar por critérios científicos. A pesquisa não está entregue ao arbítrio do intérprete (2 Pd 1,20-21), mas o teólogo e a teóloga devem submeter seu trabalho a critérios técnicos e científicos. Assim procedendo, permitirão que o texto transmita a mensagem. De fato, é o texto bíblico – e somente ele – que deve falar. O teólogo e a teóloga são intérpretes. Foi assim que o apóstolo Paulo entendeu sua atividade, quando ressaltou que “nada [estava] dizendo, senão o que os profetas e Moisés disseram haver de acontecer” (At 26,22). A auto-compreensão de Paulo torna-se normativa para a reflexão teológica de hoje.

A Reforma Protestante formulou três pilares para o labor teológico e a vida cristã: Sola fide, sola gratia, sola Scriptura. Os dois primeiros princípios – a fé e a graça – devem orientar a vida dos teólogos, para que o terceiro princípio – a Escritura – seja sempre fundamental e normativo para a teologia.

A Bíblia “contém o testemunho original daqueles que participaram nos eventos reveladores” (Paul Tillich, Teologia Sistemática, p. 38).

Os eventos reveladores provocaram a fé das testemunhas. Movidas pela sua fé, essas pessoas foram inspiradas a escrever e registraram sua experiência.

As pessoas que reconheceram em Jesus o Cristo tornaram-se testemunhas dessa revelação divina.

O ser humano precisa se tornar receptivo para a revelação. A recepção torna-se parte do evento revelatório. A Bíblia nos revela aquilo que ela testemunha. Ela é parte da revelação de Deus. “A Bíblia é tanto um evento original, quanto um documento original. Ela dá testemunho daquilo de que é parte” (Tillich, p. 38).

A Bíblia nos apresenta relatos que são uma interpretação teológica dos fatos. A Escritura deve ser estudada e interpretada a partir dessa intenção. Isto significa que não devemos ler a Bíblia visando resultados predeterminados. Devemos deixar a Bíblia falar a partir de seu propósito e sua intenção pedagógica.

Definição da inspiração.

“Toda a Escritura é inspirada por Deus” (2 Tm 3,16). O termo grego theópneustos significa “respirado por Deus”. Mas, não se trata de um ditado divino. As faculdades cognitivas dos autores bíblicos não foram suspensas, pois é possível distinguir o estilo de João do de Lucas, assim como o de Isaías do de Amós. No entanto, é algo bem diferente da inspiração poética. Na inspiração do texto bíblico é salientada a presença do elemento divino. A declaração de que “toda Escritura é inspirada por Deus” ressalta que a Bíblia é inspirada em sua totalidade. Isto equivale a dizer que a Escritura é perpassada pelo Espírito de Deus, ou seja, nela se percebe o “sopro de Deus”.

“A Escritura provém de um sopro divino, de uma ação do Espírito” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 35).

A palavra “inspiração” é derivada do latim spirare, que significa “respirar”. O termo “enfatiza a pura receptividade da razão cognitiva em uma experiência extática” (Tillich, p. 101).

O termo inspiração significa “sopro” ou “alento penetrante”. A partir da observação do vento – na natureza – o termo tem um aspecto vital e dinâmico.

Dois textos do NT se tornaram clássicos para a abordagem da inspiração: 2 Pd 1,20 refere-se aos autores e 2 Tm 3,16 menciona as obras literárias.

Quando o NT cita o AT, emprega preferencialmente o termo “Escritura”. Isso mostra que a obra literária recebe mais destaque do que o autor propriamente.

Com qual critério nós podemos discernir aquilo que é verdadeiramente inspirado por Deus?

Novamente contamos com o posicionamento esclarecedor de Tillich: “enquanto que a possessão demoníaca destrói a estrutura racional da mente, o êxtase divino a preserva e eleva, embora a transcenda. Possessão demoníaca destrói os princípios éticos e lógicos da razão; o êxtase divino os afirma” (p. 101).

Esta conceituação nos permite tirar duas conclusões:

1. devemos examinar a procedência de uma inspiração e provar “os espíritos se procedem de Deus (1 Jo 4,1). Tillich é enfático: “O demoníaco cega; não revela” (p. 101).

2.

3. Os escritores bíblicos tiveram sua estrutura racional preservada. A inspiração divina não é produto da razão humana; a revelação transcende a razão. Os escritores não foram anulados, mas participaram na redação como seres integrados na história de seu povo.

Essa segunda conclusão inviabiliza a idéia de uma “inspiração verbal”, como se os escritores apenas tivessem anotado palavras que lhes tivessem sido “ditadas”. Quando a “inspiração é entendida como um ato mecânico de ditar”, então “a razão é invadida por um corpo estranho de conhecimento com o qual não pode estar unida. Este corpo destruiria a estrutura racional da mente se permanecesse dentro dela” (Tillich, p. 102). Ora, Deus não quer destruir a estrutura mental e racional de seus colaboradores. Deus quer elevar e transcender a mente de seus enviados.

“O divino e o humano estão presentes: o divino eleva o humano, não o suprime. A vocação eleva a personalidade do profeta, não a destrói; polariza a sua sensibilidade literária, exalta a sua atividade literária. [...] Se no Antigo Testamento encontramos personalidades vigorosas, trata-se dos profetas. Porque a força interior do Espírito Santo é eficaz para despertar e sustentar grandes personalidades” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 64).

A doutrina da inspiração verbal exclui a participação humana na redação do texto bíblico. “É claro que não podemos conceber a inspiração como um ditado, pois ela não anula a personalidade, muito pelo contrário” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 65).

Precisamos observar que os redatores dos textos bíblicos escreveram na condição de “testemunhas” (At 1,8).

Na condição de testemunhas, os escritores do NT querem testemunhar a respeito de Jesus de Nazaré – sua atuação libertadora junto ao povo, sua morte e ressurreição. Os escritores foram atingidos por esses acontecimentos; seu ponto de referência é a manifestação de Deus ocorrida numa existência histórica. Sob esse impacto, eles se tornam testemunhas.

Cabe a uma testemunha ser fiel ao ocorrido. Por isso, os escritos se tornaram fidedignos para serem normativos para a fé da igreja. As testemunhas estavam transmitindo os acontecimentos que envolveram a vida, a morte e a ressurreição de Jesus, portanto, eventos com um determinado significado salvífico.

Os escritores do NT proclamam o agir de Deus em Jesus de Nazaré. E escrevem para despertar a fé em seus leitores (Jo 20,31). É uma pregação que se torna Palavra de Deus. Dirigida pelo Espírito Santo, a igreja constatou que essa pregação é um testemunho autêntico de Jesus Cristo: a Palavra de Deus despertando a fé. A igreja passou a ver nesse testemunho um fundamento para toda a sua pregação evangélica.

A fé é dinâmica e ela precisa se posicionar. Atribuir ao texto uma exatidão formal equivale a não se envolver com o risco da fé. Nesse caso, a exatidão do texto nos desobrigaria de um posicionamento pessoal perante Jesus Cristo (Mt 16,15). Afinal, o texto seria uma garantia por si só.

Exatidão formal versus verdade do conteúdo.

Não devemos confundir uma exatidão formal com a verdade do conteúdo da Bíblia.

A idéia de inerrância da Escritura “na realidade supõe um estreitamente do horizonte da verdade bíblica” e, na busca de precisão “o perigo começa quando alguém se deixa de tal modo dominar por esse horizonte limitado que tenta reduzir a Sagrada Escritura a um catálogo de proposições formais” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 213).

A verdade da Bíblia deve ser identificada com a fidelidade de Deus. Todas as promessas de Deus se cumpriram em Jesus Cristo (2 Co 1,20). Deus foi fiel à aliança estabelecida com seu povo. Portanto, é a fidelidade de Deus que garante a veracidade da Escritura.

Os adeptos da inerrância estão empenhados em defender a Bíblia. No entanto, a complexidade da sociedade atual requer uma exegese que se empenhe para entender a Bíblia. Afinal, a tarefa primordial e principal da teologia é interpretar a Sagrada Escritura.

Mesmo uma boa tradução da Bíblia pode apresentar dificuldades para um ensinamento imediato.

O tema central da Sagrada Escritura é a manifestação de Deus em Jesus Cristo. Esse é o centro da história da salvação.

Uma pretensa exatidão formal (ou inerrância) enfrenta dificuldades intransponíveis diante de um exame mais aprofundado. Vejamos.

“Há por exemplo duas narrações do primeiro encontro de Davi com Saul, história esta que deverá ter sido contada muito freqüentemente. É evidente que Davi se encontrou a primeira vez com Saul uma só vez” (John L. McKenzie, Os grandes temas do Antigo Testamento, p. 77).

O confronto de 1 Sm 16,14-23 com 17,55-58 mostra que a historiografia hebraica respeitou as diversas tradições que se formaram em torno de um acontecimento. Enquanto o pensamento ocidental – com sua lógica obsessiva – procuraria suprimir um dos relatos, ou elaborar uma síntese dos dois, o hebreu respeitou a ambos como testemunhos válidos e transmissores de uma mensagem. Haviam se formado duas tradições em torno do primeiro encontro entre Saul e Davi, e ambas foram respeitadas. “As histórias hebraicas são pois a coleção de fatos separados” (McKenzie, p. 77).

As narrativas sobre Saul e seu reinado são constituídas de tradições que provêm de Ramá, de Mispa e de Gilgal; inclusive o confronto de 1 Sm 31 com 2 Sm 1 mostra a existência de duas versões sobre a morte do rei. Também na “história da ascensão de Davi” (2 Sm 6-1 Rs 2) não faltam duplicatas.

O mesmo respeito pelas tradições orais pode ser observado no NT, especialmente na redação de Atos dos Apóstolos. A primeira parte da obra abrange os caps. 1-12, e contém poucas indicações cronológicas. O estilo é semita e alguns pensamentos parecem arcaicos. Quando Lucas narra os primórdios da igreja na Palestina, seu estilo é semitizante e duro, pois ele respeitou e preservou as informações de origem aramaica. Lucas manteve o estilo arcaico e semitizante dos discursos de Pedro (2,14-36 e 10:34-43) e de Estêvão (7,1-53). A segunda parte abrange os caps. 13-28 e se apresenta como um conjunto mais bem organizado. Quando Lucas utiliza suas notas de viagem, ele escreve em excelente grego. O estilo passou do semita para o grego. São numerosos os dados cronológicos. Por quatro vezes a narrativa passa da terceira pessoa do singular para a primeira do plural: “nós”. Lucas certamente pesquisou em diversas fontes. O próprio Paulo deve ter fornecido informações a Lucas, que organizou o material – muitas vezes difícil de combinar, como os relatos da conversão: em 9,7, os homens que acompanhavam o apóstolo ouviram a voz, mas não viram ninguém; em 22,9, os acompanhantes viram a luz, mas não escutaram a voz. Lucas respeitou e preservou as diversas tradições. At 22,9 deve ser lido junto com o episódio narrado em Jo 12,28-29. Neste caso, a ênfase é colocada na percepção do significado da voz. Lucas escreveu “depois de acurada investigação de tudo desde sua origem” (1,3), e ainda assim ele inverteu o surgimento de Teudas e Judas, o Galileu (At 5,36-37). Em verdade, Teudas atuou depois, no mandato do procurador romano Cúspio Fado (44-46).

Lucas é o único evangelista a narrar o arrependimento e a conversão de um dos malfeitores crucificados com Jesus. O texto em 23,40-43 é matéria exclusiva de Lucas, que se interessa por cenas de conversão (7,36-50; 19,1-10; At 9; 10; 16,14-15.29-34). Marcos (15,32) e Mateus (27,44) narram que ambos os ladrões insultavam Jesus. Lucas deve ter pesquisado uma outra tradição.

O acontecimento da torre de Babel se tornou famoso, pois “em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar” (Gn 11,1). No entanto, no capítulo anterior é mencionado que os descendentes de Javã se separaram “cada qual segundo a sua língua, segundo as suas famílias, em suas nações” (Gn 10,5). Ora, a narrativa em torno da torre de Babel era uma tradição isolada e foi deslocada na redação final, ou seja, a separação dos descendentes de Javã tem o seu “lugar vivencial” depois do episódio da torre de Babel. O relato da torre de Babel foi deslocado para estar junto à narrativa da vocação de Abraão, pois enquanto os construtores da torre queriam engrandecer o seu nome (11,4), o obediente Abraão teve o seu nome engrandecido por Deus (12,2). Essa é a intenção pedagógica da narrativa.

O relacionamento entre Davi e Jônatas também foi transmitido a partir de tradições independentes. Em 1 Sm 19,1 é narrado que Saul comunicou a seu filho Jônatas e a seus oficiais a sua intenção de matar Davi. “Então, Jônatas falou bem de Davi a Saul, seu pai” (v. 4). “Saul atendeu à voz de Jônatas e jurou: Tão certo como vive o Senhor, ele não morrerá” (v. 6). No entanto, no capítulo seguinte (1 Sm 20), Jônatas desconhece as intenções de seu pai, ressaltando: “Meu pai não faz coisa alguma, nem grande nem pequena, sem primeiro me dizer, por que, pois, meu pai me ocultaria isso?” (v. 2). Portanto, duas tradições independentes foram integradas na narrativa, e o redator não se preocupou com a cronologia dos fatos.

“O AT, em lugar de esclarecer-nos a nossa idéia sobre o modo da inspiração, impôs-nos a variedade e a flexibilidade” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 69).

Também as narrativas da ida de Abraão e Sara ao Egito (Gn 12,10-20) e a Gerar (20) estão deslocadas. É importante lembrar que Abraão tinha “setenta e cinco anos quando saiu de Harã” (12,4). Em 17,17 é informado que Sara tinha dez anos menos. O relato da ida ao Egito apresenta Sara como “mulher de formosa aparência” (12,11). E a avaliação dos egípcios foi “que a mulher era sobremaneira formosa” (12,14). Sara “foi levada para a casa de Faraó” (12,15).

Qual é a mensagem desta narrativa? “A terra de Canaã, que o Senhor acaba de prometer, é uma terra hostil, que mata de fome ou expulsa seus habitantes. Em contrapartida, o Egito é rico e acolhedor: terminará no Egito a peregrinação de Abrão? Pois bem, o Egito é a maior ameaça contra a promessa de Deus, já que põe uma alternativa grave: ou a morte do protagonista ou a separação da esposa. Terminará em Abrão a linha genealógica? Fome, perigo de morte e perda da mulher se conjuram contra o plano de Deus logo que começa a peregrinação de Abrão. E não é a ação humana – com toda a sua lógica, sua astúcia, seu bom senso – que solucionará o problema, mas Deus mesmo é que fará a história continuar, inclusive enriquecendo Abrão por meio da provação. A descida de Abrão ao Egito prefigura de algum modo a futura de Israel, na construção narrativa final” (Schökel, Bíblia do Peregrino).

O que podemos aprender de Gn 20, se a notícia anterior sobre Sara (18,14-15) nos informa que ela tinha noventa anos e está grávida? Abimeleque mandou buscar Sara. Interpelado por Deus, o rei cananeu alegou inocência. O delito ainda não havia se consumado. É a oportunidade de Abraão atuar como profeta e intercessor. “Ao entrar como residente num país, atrai a intervenção de seu Deus; ao permanecer, é canal de bênçãos” (Schökel, Bíblia do Peregrino). E novamente Abraão recebe presentes, a título de reparação.

Essas narrativas nos mostram que a Bíblia está muito mais empenhada em nos transmitir uma mensagem a partir de um acontecimento. A intenção primordial da Bíblia não é a cronologia dos fatos, mas a transmissão de um ensinamento: apesar de todas as dificuldades, Deus conduz os acontecimentos.

É importante esclarecer que a soma das idades apresentadas nas genealogias que constam na Proto-história (Gn 1-11) não tem possibilitado um cálculo a respeito da idade do universo. Houve diversas tentativas de somar as idades desses personagens bíblicos, para então assinalar a data da criação. Observemos esta citação de Jean-Pierre Lentin: “Em 1654, o bispo irlandês James Ussher publica o fruto de uma vida de trabalho e de erudição sobre os manuscritos bíblicos: a data da criação do mundo, 26 de outubro de 4004 antes de Cristo, às 9 horas da manhã. Nem todo mundo concorda. O astrônomo polonês Johannes Hevelius sustenta 24 de outubro de 3963 a. C., às 18 horas, Kepler dá 27 de abril de 4977 a.C.” (Penso, logo me engano, p. 36).

O objetivo das genealogias é inserir o povo de Israel (que tem início em Abraão) no contexto de toda a humanidade. Além disso, a idade de Enoque (365 anos) é muito mais expressiva que a de seu filho Metusalém, que viveu 969 anos e se tornou conhecido como o homem mais idoso da humanidade. A idade de Enoque coincide com o número dos dias do calendário solar e significa uma vida completa, pois teve em Deus um companheiro de caminhada e viveu em íntima amizade com o Senhor. O coroamento dessa vida completa e integral foi que Deus “tomou [Enoque] para si” (Gn 5,24).

O NT apresenta menos variedade que o AT.

Em sua pregação, antes de ser apedrejado, Estêvão “cheio do Espírito Santo” transmitiu que Jacó foi ao Egito com “setenta e cinco pessoas” (At 7,14). Em Gn 46,27 lemos: “Todas as pessoas da casa de Jacó, que vieram para o Egito, foram setenta”. Também Ex 1,5 menciona setenta pessoas. Ora, Estêvão certamente leu a Septuaginta, a tradução grega do AT, que incluiu os dois filhos de Efraim, os dois filhos de Manassés e o neto de Efraim. A Septuaginta se baseou numa tradição, que considerava os netos e o bisneto de José integrantes dessa descendência de Jacó.

O evangelista Marcos cita em 1,2 o profeta Isaías. Mas a primeira parte da citação procede do profeta Malaquias (3,1). Em 2,26, Marcos menciona que o sumo sacerdote Abiatar entregou os pães consagrados a Davi. O nome correto do sacerdote é Aimeleque (1 Sm 21,1-6).

Estes dados mostram que não é a exatidão formal que deve nos preocupar. Aliás, os adversários da fé cristã apontam justamente os problemas de exatidão formal no NT. Os detalhes também mostram o quanto é insustentável a doutrina da inspiração verbal, ou de um mero ditado. Devemos procurar e proclamar a verdade do conteúdo da Bíblia. Então nós nos convencemos (e também ao nosso semelhante) de que a Bíblia quer transmitir a verdade que salva. A verdade do conteúdo da Bíblia é um “tesouro em vasos de barro” (2 Co 4,7). O evangelho é só um (Gl 1,6-7).

“A Sagrada Escritura também nos fornece múltiplas informações sobre costumes e concepções da época: casas de dois andares, com colunas para apoiar o piso anterior; moinho manual movido por duas mulheres; a idéia de uma abóbada sólida no ‘firmamento’; as fundas usadas pelos pastores; a idéia de depósitos de granizo existentes no céu etc. Essas informações não constituem a verdade específica da Sagrada Escritura. Agostinho já o explicara, e o cardeal Barônio (segundo testemunho de Galileu) assim o formulava: o Espírito Santo quis ensinar-nos como se vai para o céu, e não como vai o céu” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 207).

O autor bíblico pode simplificar as verdades secundárias. O que importa é a verdade específica e central da Sagrada Escritura. Os demais detalhes devem ficar subordinados a essa verdade proclamada.

O autor bíblico utiliza-se de narrativas e de personagens para transmitir uma reflexão sobre o sentido da vida e o encontro com o sagrado.

“Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20,30-31).

Este é o objetivo do evangelista João e também o objetivo de toda a Bíblia. O texto bíblico tem por finalidade despertar a fé. O objetivo não é satisfazer a curiosidade por detalhes, mas testemunhar que a vida abundante é alcançada mediante a fé em Jesus Cristo.

A inspiração no contexto da revelação.

A Bíblia comunica a manifestação de Deus, que aconteceu dentro de circunstâncias históricas. Por esse motivo, a inspiração da Bíblia deve ser estudada juntamente com a revelação de Deus. A “inspiração pertence ao contexto da revelação” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 40).

Encontramos principalmente no AT uma revelação progressiva de Deus (Ex 6,3). Na medida em que Deus se revela, o ser humano elabora novas perguntas.

O texto bíblico aponta para além de si mesmo, para a revelação de Deus em Jesus Cristo. Deus nos fala por meio de palavras humanas. E nós temos a incumbência de pensar, refletir e estudar o texto que Deus nos legou. Nossa tarefa é entender a Palavra de Deus e interpretá-la para a nossa realidade.

A Escritura Sagrada é um testemunho, que aponta para a revelação de Deus. É Deus quem confere valor à Bíblia, não o contrário. Não é a exatidão formal da Bíblia que legitima e garante a revelação de Deus.

“A referência à encarnação é em extremo importante: Deus não escolheu alguns elementos mais dignos, mais espirituais, do homem para encarnar-se; pelo contrário, ele assumiu toda a natureza humana concreta. Não é válido dizer que assumiu apenas a alma, encoberta por um corpo fantástico e aparencial (docetismo); não é válido objetar que o corpo material e mortal é indigno de Deus. Não glorificamos a Deus menosprezando os seus planos de salvação” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 81).

A revelação de Deus provoca a nossa resposta, que é a fé. E a partir da nossa resposta, nós nos identificamos com os relatos, os depoimentos e os testemunhos registrados na Bíblia.

O autor do texto bíblico resolveu escrever, porque Deus se manifestou a ele em revelação autêntica. O autor sentiu o compromisso sagrado de escrever.

A tradição oral.

Uma vez que as diversas tradições são muito mais perceptíveis no AT, comecemos a abordagem a partir do surgimento do Pentateuco.

A pesquisa histórico-traditiva constata que o Pentateuco foi composto a partir de tradições, as quais eram narradas e repetidas nos santuários. Os estudos de G. von Rad a respeito do Credo Histórico (Dt 26,5-9) tornaram-se fundamentais. A tradição do Sinai foi preservada nos santuários de Siquém ou Jerusalém. Em Dã, os sacerdotes preservaram as tradições em torno de Moisés. A tradição do Êxodo e a tradição da conquista da terra foram relembradas no santuário de Gilgal, o principal santuário da tribo de Benjamim. Em Gilgal também aconteceu a renovação anual da aliança que Josué celebrou com Iahweh após a conquista inicial da terra, quando os israelitas atravessaram o Jordão (Js 4,1-10.20).

Nesse processo de transmissão das narrativas foram decisivas as festas nos santuários: festa da colheita, festa do ano novo. As narrativas eram preservadas nos cultos. A repetição padronizou as narrativas. As contínuas repetições padronizaram as histórias. Com as narrativas padronizadas, os textos foram redigidos no âmbito dos santuários.

A memória popular chegou até nós em forma de perícope.

Uma perícope é um todo orgânico e lógico dentro da Escritura Sagrada. “Pericope é uma unidade completa de sentido, sentido menor dentro de um escrito mais amplo” (Schökel, Bíblia do Peregrino).

A perícope forma a base do Pentateuco. Sendo a perícope a base do Pentateuco, isso significa que a memória popular determinou a configuração desses cinco livros do AT. A perícope é a preservação da memória popular. Isso não aconteceu apenas com o Pentateuco, mas os complexos literários da Bíblia são determinados pela perícope.

Torna-se necessário entender a origem da perícope. Ela é a base de toda a literatura bíblica em geral.

Quando as narrativas populares estavam padronizadas pela constante repetição, elas foram redigidas “em suas formas originais”, sem a necessidade de reelaborá-las, harmonizá-las ou retocá-las “na linguagem mais característica dos templos ou outras instâncias nacionais, em função das quais talvez existissem” (M. Schwantes, Interpretação de Gn 12-25, no contexto da elaboração de uma hermenêutica do Pentateuco).

“A unidade literária menor provém dos pequenos organismos sociais, das microestruturas, das quais, no antigo Israel, a família ou o clã são as mais dinâmicas. O clã agrário sabidamente foi a microestrutra elementar na vida do povo. Pode-se, pois afirmar que o clã é o lugar vivencial preferencial da perícope. Em outros termos: a perícope é memória popular” (M. Schwantes).

Nesse processo, constata-se “a força do clã e a penetração das manifestações culturais populares”, observa Schwantes.

Deparamo-nos, portanto, com a “memória popular em forma de perícope”. É a dinâmica da recitação contínua que foi preservada.

Portanto, a base mais elementar do Pentateuco e da redação do texto bíblico é a perícope.

“Portanto, para compreender o surgimento dos textos a nível de escrita, será prioritário compreender seu surgimento, sua transmissão e seu impacto social a nível de recitação oral e de memória popular” (M. Schwantes).

Nesta abordagem, torna-se muito apropriada a seguinte constatação de Martin Noth:

“Só quem percebeu sob que condições essas tradições surgiram e o que visam pode responder à pergunta inevitável: por que da abundância de acontecimentos selecionaram o que contam e por que o contam justamente da maneira como o fazem; e só então pode também discernir sobre o que podemos ou não esperar dessas informações e que peso devemos atribuir àquilo que dizem e àquilo que omitem” (M. Noth, Geschichte Israels, p. 49).

Durante muitos anos, os apóstolos se dedicaram à transmissão oral do Evangelho. Eles pregaram a Palavra de Deus. O Espírito de Deus estava atuando nos apóstolos, também antes da redação do texto.

A tradição oral antecede boa parte dos textos do AT e do NT. Os profetas e os apóstolos atuaram sob o impulso do Espírito, antes de escreverem. Em Tessalônica, a pregação de Paulo foi recebida como Palavra de Deus (1 Ts 2,13). “A palavra do pregador do evangelho é palavra humana, pronunciada por Paulo; mas é também ‘palavra de Deus’ e, como tal, ativa por si, e não só pelos recursos humanos de persuasão. A denominação ‘palavra de Deus’ aplica-se no AT sobretudo à palavra profética, normalmente como ‘palavra de Yhwh’. O texto se refere ao evangelho anunciado oralmente; não exclui a aplicação à sua versão escrita” (Schökel, Bíblia do Peregrino).

A atividade literária de Paulo teve início com a primeira carta aos tessalonicenses. “Paulo faz ressoar e escutar a sua palavra, e essa palavra é de Deus; Deus fala por Paulo. Os cristãos aceitam essa pregação; sabendo que é palavra de Deus, não a recebem como palavra puramente humana, mas em toda a sua realidade, que a fé descobre e assimila” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 237).

No Sl 102,15-18 fica evidente o valor da escrita: preservar o testemunho para a geração futura.

Em diversas ocasiões, o NT emprega o termo “falar”, quando se poderia esperar o verbo “escrever” (Hb 1; 2 Pd 1,21; Lc 1,70; At 3,21; 8,25; 28,25; Rm 3,19; Hb 7,14; Tg 5,10). A inspiração não se restringe ao ato de escrever. A transmissão oral também foi inspirada por Deus.

Palavra de Deus e linguagem.

Deus está atuando no ser humano, pois este pergunta pelo Absoluto. A partir dessa presença de Deus no ser humano, o falar de Deus pode ser percebido pelo homem.

“A mente pensante raciocina em palavras” (Tillich, p. 482).

Os pronunciamentos dos profetas inspirados por Deus foram articulados na linguagem de seu contexto cultural. “Quando Deus falou aos profetas, ele não lhes deu novas palavras ou novos fatos, mas colocou os fatos conhecidos por eles à luz de um sentido último e os instruiu a falar a partir dessa situação na linguagem que eles conheciam” (Tillich, p. 482).

O decisivo é que os acontecimentos foram avaliados “à luz de um sentido último”. Os homens inspirados por Deus “são dirigidos na direção do que é último” (Tillich, p. 482).

Mas para falar do Infinito, o ser humano só pode se expressar em categorias finitas.

Para se comunicar conosco, Deus desceu à nossa condição humana.

A Palavra de Deus é uma realidade que nos transmite o mistério da revelação divina.

“A palavra é a forma plena de comunicação humana, e Deus escolheu também, e sobretudo, essa forma de comunicar-se, de revelar-se” (Schökel, p. 31).

Para falar conosco, Deus só pode fazê-lo empregando palavras humanas. A comunicação interpessoal se realiza por meio da palavra.

Deus empregou palavras humanas – em hebraico, grego e partes em aramaico – para se comunicar conosco. E Deus chamou seres humanos – como os profetas e os apóstolos – para testemunharem sua revelação. Deus decidiu falar por meio deles.

“Se o hebraico bíblico é paupérrimo em adjetivos, modesto em vocabulário, simples em estrutura sintática, possui, em compensação, uma conjugação diferenciada, chegando a atingir, nas mãos dos seus bons poetas, um vigor elementar” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 118).

O hebraico não se preocupa tanto com os refinamentos, pois sua riqueza está na força da expressão.

No AT, o profeta é “a boca de Deus” (Is 30,2; Jr 15,19).

O profeta Jeremias experimenta a Palavra de Deus dentro de si (Jr 20:7-9). A Palavra é como um vulcão a entrar em erupção.

A Palavra do Senhor sobrevém com força. “Essa força não tira a liberdade do profeta, pois Jeremias decidiu calar-se; mas é uma força interior e eficaz. A liberdade do profeta é expressamente formulada por Ezequiel: o profeta é como uma sentinela que deve gritar ‘perigo’; se gritar, não será responsável pela vida dos que não se protegem; se não gritar, será responsável por ela (33,1-9)”, constata Schökel, A Palavra Inspirada, p. 62.

Rejeitar a palavra do profeta equivale a rejeitar a Palavra de Deus (Ez 3,7 e Jr 7,25).

Os autores bíblicos foram movidos pelo Espírito de Deus, assim como um barco a vela é impulsionado pelo vento.

Em Hb 1,1 é formulado com clareza o processo de comunicação de Deus.

“No NT, ocorre algo novo e definitivo: depois de muitas palavras, ressoa a Palavra. Uma Palavra audível, visível, palpável: Hb 1,1. Essa Palavra é a verdadeira razão de todas as anteriores, a soma de todas (verbum abbreviatum), a explicação. É a Palavra total e definitiva, enviada a todos os homens, como uma luz verdadeira. Para chegar a todos os homens, essa Palavra, que é Jesus Cristo, deve continuar ressoando, presente e viva em todas as gerações” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 69).

Hoje nós dispomos da obra literária dos antigos para termos acesso à Palavra de Deus. No desenrolar da história, Deus é o protagonista.

“A palavra de Deus, ao encarnar-se em palavra humana, deve necessariamente assumir uma língua concreta, porque só em línguas concretas se realiza a radical capacidade humana da linguagem. A língua concreta é o ponto de inserção da transcendência no tempo, da mensagem divina na linguagem humana. E depende de uma eleição positiva de Deus. Historicamente, sabemos que as línguas escolhidas são o hebraico, o grego e, em pequena escala, o aramaico” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 86).

Para se comunicar conosco, Deus assumiu a linguagem humana, pois seu objetivo é uma revelação pessoal.

“Deus quis encarnar a sua Palavra em palavras humanas: portanto, em alguma língua humana concreta. Ele não usou uma língua celestial, angélica – que não existe –, nem criou uma língua exclusiva e obrigatória para todos” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 183).

Barth acentuou muito bem que o hebraico e o grego não são em si línguas sagradas. Mas Deus decidiu se comunicar conosco utilizando-se desses idiomas. Podemos acrescentar que Deus também se valeu de pequenos textos em aramaico (Dn 24b – 7,28; Ed 4,8 – 6,18; 7,12-26 e Jr 10,11).

“Os apóstolos não desconheciam inteiramente o hebraico e falavam o aramaico. Mas, quando começaram a pregar aos gentios – então de cultura e língua grega – e passaram a escrever, utilizaram o Antigo Testamento na tradução grega chamada dos LXX” (Schökel, A Palavra Inspirada. P. 185).

Assim como a linguagem humana emprega palavras, também Deus se comunica mediante sua Palavra. “Nossa expressão tem lugar através de palavras; a de Deus se dá, em última instância e de modo final, na pessoa e na história de seu Filho” (Brunner, Offenbarung und Vernunft).

Nossas palavras são apenas sinais. No entanto, a “Palavra de Deus é o significado real; ele mesmo é a comunicação e o que é comunicado ao mesmo tempo”, constata Emil Brunner. É Deus mesmo quem se comunica.

Os apóstolos nunca pretenderam que seus escritos fossem considerados um ditado feito por Deus. Os escritos bíblicos surgiram nas suas circunstâncias históricas. Os escritos foram inspirados, assim como o modo de falar e de agir dos apóstolos também foi. E sob a condução do Espírito continua surgindo existência cristã, notadamente a nova vida em Cristo.

“A Bíblia é a Palavra de Deus porque nela, tanto quanto apraz a Deus, Deus mesmo torna conhecido o mistério de sua vontade, do propósito salvífico em Jesus Cristo”.

“A missão do Filho é uma coisa; a iluminação dos apóstolos – para receberem o significado do mistério do Filho – é outra coisa”, prossegue Brunner.

Deus se revelou em seu Filho. Mas, foram os apóstolos que nos transmitiram o testemunho a respeito dessa revelação. Eles foram iluminados para transmitir esse testemunho. “Sem o testemunho dos apóstolos não poderíamos conhecer Jesus como o Cristo” (Brunner, Offenbarung und Vernunft).

O relato dos apóstolos precisava ser mais do que “historicamente fiel”. As testemunhas oculares também nos legaram um “testemunho de fé acerca da ressurreição de Cristo”. O próprio Deus nos fala por intermédio da palavra dos apóstolos.

O mesmo critério vale para os relatos do Antigo Testamento. O testemunho dos cronistas faz com que esses relatos se tornem história da salvação. Os profetas analisaram e interpretaram os acontecimentos como sendo a história de Deus com o seu povo e com a humanidade.

“Assim, a Bíblia não é apenas um documento histórico da revelação, mas é, ela mesma, o produto da revelação divina”, enfatiza Brunner.

Devemos sempre estar atentos para a importância da palavra pronunciada.

“Embora devamos corrigir o seu aspecto demasiado material, há algo nessa concepção que merece ser mantido e adaptado. Que é a palavra? Não é o mesmo ar que respiramos e expiramos com o ritmo dos pulmões? Podemos deixá-lo sair sem esforço consciente, podemos concentrá-lo ou abreviá-lo em sopro que move e dissipa. [...] Podemos enriquecer a vida espiritual do outro com a nossa, por meio da palavra. Falar com o outro é quase uma respiração do nosso espírito” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 254).

Certamente é por isso que o falar humano também se reveste de importância e responsabilidade, sobretudo em Provérbios e na carta de Tiago.

A ação do Espírito.

É no contexto da atuação do Espírito – poderoso e livre – que devemos entender a inspiração dos textos bíblicos.

A presença da Escritura Sagrada em nosso meio equivale a perceber a atuação do Espírito.

“A ação do Espírito não pode ser um ditado, e tampouco ser mecânica”, salienta Schökel. E prossegue: “Se alguém está próximo da palavra imediata de Deus, se alguém pode ser receptivo e repetidor, esse alguém será o profeta. Contudo, este último, com as suas palavras e a sua obra, com a tensão entre fórmulas e trabalho literário, mostra que a inspiração é uma ação profunda, interior, maravilhosa” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 63).

Observemos o Eclesiastes. O autor investiga o que se faz sob o céu (1,13), pensa (1,16), alcança sabedoria (1,17), observa as tarefas que Deus deu aos homens (3,10), observa as opressões que se cometem debaixo do sol (4,1), indaga (7,25), reflete (9,1).

“Ele nunca proclama ter recebido a palavra de Deus, nunca pretende pronunciar oráculos; trata-se sempre do seu olhar, da sua indagação, da sua reflexão; sempre uma primeira pessoa, que não se mostra pesada para nós, porque não é auto-suficiente, mas desiludida e resignada” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 64).

No entanto, a leitura de Eclesiastes nos faz perceber a ação do Espírito nessas reflexões sempre atuais, especialmente em períodos de transição.

“Devemos conceber a inspiração de modo flexível” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 66).

Quando lemos os textos de Paulo, estamos lendo a Palavra de Deus, mesmo quando ele não se atém aos pronunciamentos literais de Jesus (At 20,35; 1 Co 7,12). Pois, o NT é “um livro inspirado pelo Espírito de Cristo” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 73).

O envio do Espírito “permite que os apóstolos se lembrem e compreendam o que antes não tinham compreendido. O Inspirador mobiliza em profundidade a memória e a inteligência” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 74).

Os vocábulos empregados pelos evangelistas contêm um significado teológico.

“Quem estudar um pouco os procedimentos de redação dos evangelhos avaliará o seu trabalho lúcido e meticuloso. Os evangelistas compuseram os seus livros divinos com o suor do seu rosto e com o sopro do Espírito” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 75).

A Bíblia é uma obra divino-humana.

“Para falar-nos, Deus assume a linguagem humana, total e concreta” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 81).

Assim como Jesus “se esvaziou” (Fl 2,7), também Deus desceu para a condição da palavra humana. Deus assumiu a nossa condição humana; ele também assumiu a nossa linguagem humana, que se torna Palavra de Deus.

“Desconhecer a Escritura é desconhecer a Cristo” (Jerônimo).

A Bíblia mostra Deus agindo sobre o ser humano. Também mostra o ser humano respondendo a Deus. A Bíblia nos revela Deus e também nos ilumina para elaborarmos uma resposta.

Jesus ensinou, expulsou demônios, curou e ficou comovido com a situação das pessoas (Lc 7,13). Sua compaixão nos inspira a sermos misericordiosos (Lc 6,36).

Não nos cabe controlar ou limitar a ação do Espírito.

“Os livros bíblicos cresceram organicamente com a vida do povo, e o Espírito Santo não ficou indiferente a esse crescimento; pelo contrário, ele próprio o moveu com o seu sopro misterioso e eficaz” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 139).

A manifestação de Deus em Cristo fez com que no NT ocorresse uma transposição do AT. Todo o AT “é levado à sua plenitude de sentido, que ele ainda não atingira” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 140).

O sentido anterior não é negado; ele é completado. E todo o AT torna-se evangelho.

Assim como nós podemos chegar a Deus por intermédio da Bíblia, também ele quer chegar a nós para transmitir a sua vontade.

A verdade central da Sagrada Escritura é o testemunho a respeito do Deus pessoal que desce até nós para conviver conosco. E aquelas pessoas, que acolhem essa descida de Deus experimentam uma nova vida, transformada pela ação do Espírito.

A Escritura Sagrada também nos revela quem somos diante de Deus (Sl 50,21). “Não é o correto pensamento humano sobre Deus que forma o conteúdo da Bíblia, mas o correto pensamento divino sobre os homens” (Karl Barth, A Palavra de Deus e a palavra do homem, p. 34). A Palavra de Deus é penetrante e julga os nossos sentimentos e pensamentos. Em Hb 4,12 é abordada a eficácia da Palavra de Deus, que é viva, enérgica e penetrante.

Jesus Cristo é a verdade (Jo 14,6). O AT testemunhou a respeito da salvação (Rm 3,21). Os apóstolos deram prosseguimento ao testemunho (Jo 19,35 e 1 Jo 4,14).

Jesus se aproximou dos discípulos de Emaús “enquanto conversavam e discutiam” (Lc 24:15). Isto significa que a verdade também deve ser buscada no diálogo.

A Escritura Sagrada quer dialogar conosco e, por isso, ela permanece continuamente aberta.

A igreja não deve afastar-se da Escritura Sagrada. Por intermédio da Bíblia, o próprio Deus quer estar presente com sua autoridade. A igreja de Jesus Cristo é a receptora da revelação. “Todas as religiões e culturas fora da igreja, conforme julgamento cristão, ainda estão em período de preparação (Tillich, p. 124). Isso implica uma vigilância permanente. “Contudo, a igreja cristã está baseada na revelação final e deve recebê-la num processo contínuo de recepção, interpretação e atualização” (Tillich, p. 124).

Ao se dirigir às lideranças da igreja em Éfeso (At 20:18-32), Paulo confia os dirigentes a Deus e à Palavra de Deus.

“O Espírito é vento = anemos = anima = alma. Sem ele, a Igreja e seus membros expirariam, desfaleceriam. É ele quem alenta os desalentados, anima os desanimados (os que carecem dele por inteiro são desalmados). Com ele respiramos e por ele suspiramos” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 253).

O profeta proclama a vontade de Deus e também prevê o futuro. A previsão do futuro acontece mediante a força da Palavra divina.

Na criação, Deus convoca à existência. Estabelecendo distinção e ordem, a Palavra de Deus está carregada de poder criador. E as criaturas ocupam o seu lugar no universo. Nem o caos pode se opor ao plano do Criador. A Palavra de Deus é dinâmica, atuando na criação, na história e na redenção da humanidade.

Paulo está encarcerado como um malfeitor, mas a Palavra não está algemada (2 Tm 2,8-9).

A Palavra de Deus ocasiona o nascimento espiritual (1 Pd 1,22-25). “Deus vive e transmite a sua vida, vive para sempre e pode oferecer uma vida perdurável. Ele o faz por intermédio da Palavra, que, como Ele, permanece para sempre. A palavra de Deus é o AT, que, como palavra de Deus, não terminou, mas continua e se realiza plenamente na palavra do evangelho” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 237).

A Palavra de Deus é criadora e também santifica as obras da criação (1 Tm 4,4).

“Dizemos ‘palavra inspirada’ e poderíamos cruzar significados e funções dizendo ‘espírito palavreado’. ‘Palavra’ remete-nos ao Logos, ‘in-spirada’, ao Pneuma. Jesus Cristo, que é a palavra e possui a plenitude do Espírito, volta a tornar-se palavra inspirada, portadora do Espírito” (Schökel, A Palavra Inspirada, p. 253).

O Espírito Santo esteve presente na redação do texto bíblico. O mesmo Espírito quer estar presente na leitura e na interpretação do texto. Devemos sempre nos subordinar ao agir do Espírito, para estarmos livres da tentação de querer controlar a revelação de Deus e de reduzir a Palavra de Deus ao nosso raciocínio. Não devemos limitar a Palavra de Deus.

Podemos ouvir Deus nos falando por intermédio da Sagrada Escritura. Somos interpelados pela Palavra de Deus. Cristo está presente em sua Palavra e ao mesmo tempo a transcende.

A partir de Abraão teve início a experiência do povo chamado por Deus. A história do povo de Deus é idêntica à de tantos outros povos. O povo viveu sob a condução de Deus. No entanto, o povo caía e levantava. Havia também lideranças que não conduziam o povo de acordo com a vontade de Deus. Surgiam então os profetas, para proclamar um retorno a Deus. Os profetas anunciavam que Deus se manifestará definitivamente no Messias. Deus enviará o Emanuel para estabelecer o seu Reino. Com quedas e recomeços, o povo de Israel continuou sendo chamado e eleito por Deus.

As celebrações do povo nos santuários foram fundamentais para o surgimento da Escritura Sagrada. As recitações passaram a ser redigidas.

A Bíblia é a Palavra de Deus, pois tem ela traz em si um poder transformador. Antes de nós, muitas vidas já foram transformadas a partir da leitura da Escritura Sagrada.

A Bíblia surgiu a partir da inspiração de Deus e da experiência humana com a manifestação divina. Deus quer restaurar a vida das pessoas. E seres humanos querem vivenciar a vontade do Criador. São dois interesses que se aproximam.

A Palavra de Deus deu início ao “mutirão” que resultou na Bíblia (Carlos Mesters).

Tanto o falar quanto o escrever se tornaram importantes na transmissão da mensagem da salvação. Exortando pessoas a procurarem a vontade divina, “homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pd 1,21).

A ação do Espírito não pode ser controlada; ela é idêntica ao vento e é muitas vezes imperceptível. O Espírito atuou na redação do texto bíblico e continua atuando hoje por ocasião da leitura desse texto.

Antes de ser fixada por escrito, a Palavra de Deus já provocava transformação. A repetição mostrava o poder transformador da Palavra.

O ser humano traz em si a noção do Infinito e quer se transcender para uma comunhão com o Absoluto. Mas, o Infinito só pode ser expresso em palavras finitas. Somos seres limitados e nossa comunicação também é limitada. Para se comunicar conosco, Deus escolheu o modo como podemos entendê-lo: utilizou-se de palavras humanas. O Criador do universo vem a nós na maneira em que podemos compreendê-lo. Sua manifestação e sua vontade estão expressas e são acessíveis a quem busca uma vida em comunhão com o Criador. Para esse empreendimento, Deus utilizou pessoas como nós.

E a mensagem singela se torna Palavra de Deus.

Bibliografia

BARTH, Karl. A Palavra de Deus e a palavra do homem. São Paulo: Novo Século, 2004.

Bíblia de Estudo Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002.

Bíblia do Peregrino. Tradução e notas de L. A. Schökel. São Paulo: Paulus, 2002.

BRAKEMEIER, Gottfried. A autoridade da Bíblia: controvérsias, significados, fundamento. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2007, 2. edição.

BROWN, Colin. Verbete Escritura. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000.

BRUNNER, Emil. Offenbarung und Vernunft. Zurique: Zwingli Verlag, 1941.

GABEL, John B. & WHEELER, Charles B. A Bíblia como literatura. São Paulo: Edições Loyola, 1993.

LENTIN, Jean-Pierre. Penso, logo me engano. São Paulo: Editora Ática, 1996.

McKENZIE, John L. Os grandes temas do Antigo Testamento. Petrópolis: Editora Vozes, 1971.

NOTH, Martin. Historia de Israel. Barcelona: Ediciones Garriga, 1968.

SCHÖKEL, Luís Alonso. A Palavra Inspirada: a Bíblia à luz da ciência da linguagem. São Paulo: Edições Loyola, 1992.

SCHWANTES, Milton. Interpretação de Gn 12-25, no contexto da elaboração de uma hermenêutica do Pentateuco em A Bíblia como memória dos pobres. Petrópolis: Vozes, 1986. 3. edição.

TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. São Leopoldo: Editora Sinodal / São Paulo: Edições Paulinas, 1984.

WOLFF, Hans Walter, MOLTMANN, Jürgen & BOHREN, Rudolf. A Bíblia – Palavra de Deus ou palavra de homens? São Leopoldo: Editora Sinodal, 1970.

10 visualizações

Todos os direitos reservados.

  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now