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  • Maria Luiza Rückert

Deus é todo-poderoso


Constantemente estamos afirmando que Deus é todo-poderoso. No entanto, o conceito da onipotência divina tem ocasionado muitas distorções na expectativa do que Deus pode e quer realizar. Afirmar que Deus é todo-poderoso não significa que ele venha a fazer um círculo quadrado ou faça chover de baixo para cima. Tais crendices transformam Deus num tirano caprichoso que pode fazer o que quiser. Desse modo, o conceito de onipotência estaria impregnado de magia e de absurdo.


A Bíblia quer nos transmitir que o Deus vivo é dinâmico. “Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso” (Apocalipse 1,8).


A vida divina é sempre criadora. O Deus vivo é criativo sempre, em todas as circunstâncias. “É mais adequado definir a onipotência divina como o poder de ser que resiste ao não-ser em todas as suas expressões e que se manifesta no processo criativo em todas as suas formas”, afirma Paul Tillich,. o teólogo que abordou com clareza e coragem essa temática.


O agir de Deus é, na verdade, uma luta constante contra o caos que permeia toda a realidade. É inegável que nós nos encontramos numa realidade onde o caos é bastante perceptível. Precisamos nos precaver contra a hostilidade da natureza, pois um mosquito pode nos transmitir a dengue. Precisamos vacinar os nossos filhos, os animais de estimação, o gado e os demais animais. Precisamos cuidar da alimentação, da qualidade do sono e, também, da nossa saúde emocional. Qualquer descuido abre uma brecha para o caos.


Por mais evidente que seja a presença do caos na realidade, em forma de doenças, epidemias, discórdia entre as pessoas e mortandade, Deus é “o poder de ser que resiste ao não-ser em todas as suas expressões”, salienta Tillich. Deus não só resiste ao caos, mas é capaz de conquistá-lo e promover vida em meio às adversidades. Nada detém o agir criativo de Deus.


O “fundamento do ser” ou “o poder infinito de ser”, nas palavras de Tillich, não participa do não-ser. Deus é o “poder de conquistar o não-ser”. Ele não só resiste ao caos, mas também o submete. Quando Deus é compreendido de um modo coerente com a dinâmica da vida, a nossa espiritualidade torna-se libertadora. A onipotência de Deus é o poder de resistir ao caos e de subjugá-lo. Ele é vitorioso sobre a ameaça da desintegração, que se faz presente também no relacionamento das pessoas, onde há mentira, ódio e até a destruição da vida.


A atividade criativa de Deus é permanente. O Criador da vida continua atuando. O agir criador de Deus não se limita à origem remota do universo, mas está presente quando nasce uma criança e quando surge um novo ser vivo. O surgimento de um ser vivo é uma vitória sobre o caos. Estar vivo significa estar salvo do caos.


Deus é absolutamente livre e seu agir não pode ser condicionado. “O caos não pode impedi-lo de pronunciar a palavra que cria a luz a partir das trevas”, afirma Tillich e acrescenta: “Não existe fundamento anterior a ele que pudesse condicionar sua liberdade”. Portanto, se o caos não é capaz de delimitar o agir criativo de Deus, então não é da competência do intelecto humano estabelecer limites para a ação divina. Devemos estar abertos para vivenciar milagres.


Deus é Espírito, é o mistério infinito de ser, participando no vir-a-ser e na história. “É o poder-de-ser resistindo infinitamente ao não-ser, dando o poder de ser a tudo o que é”, salienta Tillich. Deus está continuamente resistindo ao caos, sobrepujando-o, e, na medida em que ele cria vida, ele constata que sua criação é boa, como é repetidas vezes afirmado em Gênesis.


Deus está relacionado com todas as formas de vida. Existir significa estar salvo do nada, a expressão do caos, o mal absoluto. A realidade toda conta com a presença e a sustentação de Deus, o “fundamento do ser”, pois ele é “o ser- em-si”. Deus é a potencialidade de originar e de preservar a vida, criada e assegurada a partir do caos. Portanto, “ele é o poder de ser em tudo e acima de tudo: o poder infinito de ser”, ressalta Tillich.


“A palavra Deus se tornou um conceito fechado”, afirma Eckhart Tolle e acrescenta: “Ser, entretanto, tem a vantagem de sugerir um conceito aberto. Não reduz o invisível infinito a uma entidade finita. É impossível formar uma imagem mental a esse respeito. Ninguém pode reivindicar a posse exclusiva do Ser”. A realidade toda se defronta com esta dialética: a coexistência do ser e do não-ser. Como fundamento do ser, Deus está presente em tudo o que é. “Muitas confusões na doutrina de Deus e muitas debilidades apologéticas poderiam ser evitadas se Deus fosse entendido antes de tudo como o ser-em-si ou como o fundamento do ser”, afirma Tillich.


O ser humano participa do Ser e também do não-ser. Por isso, ele se depara com a possibilidade de não-ser. Ele precisa se decidir pelo Ser, na sua luta constante e permanente para superar o caos. Deus é o poder capaz de sobrepujar o caos e formar vida. Nada o detém. Nisso consiste a sua onipotência.

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