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  • Maria Luiza Rückert

O Deus oculto domina o caos

Uma contribuição para a teologia de Lutero



Quando os hebreus começaram a vivenciar a presença de Deus em seu meio, eles experimentaram a atuação divina como libertação. Deus os libertou da escravidão do Egito. Ao entregar os mandamentos, no Sinai, Deus se apresentou como libertador. Ele também foi o libertador do povo durante a marcha no deserto, e quando entraram e se estabeleceram na terra prometida.


Já estabelecidos na terra prometida, no confronto com outras religiões, os hebreus tiveram que articular sua fé a respeito do surgimento do mundo. E concluíram que o Deus libertador também é o criador.


Onde se pratica a religião, lá também surgem os mitos, pois a linguagem religiosa precisa ser articulada mediante a linguagem mitológica. A declaração de que o Senhor cavalga sobre as nuvens (Sl 68,4) recorre à mitologia. E os hebreus constataram que alguns mitos expressavam a experiência da realidade. Os mitos emergem das profundezas do inconsciente coletivo da humanidade e passam a ser articulados como profissão de fé. Um exemplo são as diversas narrativas a respeito do dilúvio, que podem ser encontradas nas mais diversas e variadas culturas, que nem tiveram intercâmbio.


Na época do Antigo Testamento, o universo era descrito a partir da observação que os olhos permitem. A terra é coberta por uma abóbada celeste, por onde circulam o sol, a lua e as estrelas. De manhã, o sol surge em uma extremidade do céu e, no fim do dia, se recolhe no lado oposto. Acima do céu existe um reservatório de água, de onde vem a chuva, o granizo, a neve e o vento. Embaixo da terra também há um reservatório de água, de onde brotam as fontes, os mananciais e os rios. A terra tem o formato de uma chapa, que é sustentada por colunas firmadas no fundo do mar (Sl 18,15; 24,2; 104,5-6). Quando eles vivenciavam um tremor de terra ou a erupção de um vulcão, concluíam que as colunas estavam balançando. A terra se encontrava numa situação de muita fragilidade: cercada de dois reservatórios de água e sustentada por colunas que balançavam. Qual era a garantia? A única garantia era a proteção de Deus. Se ele suspendesse a sua providência, o mundo inteiro se tornaria um caos.


Aliás, o mundo foi criado a partir do caos. “No princípio, criou Deus o céu e a terra. A terra era um caos informe; sobre a face do abismo, a treva. E o alento de Deus revoava sobre a face das águas” (Gn 1,1-2, Bíblia do Peregrino). O caos estava aí, sem um comunicado prévio. Também na Teogonia de Hesíodo, que se tornou paradigmática para as teogonias e cosmogonias mítico-poéticas, o caos adveio primeiro, em seguida gerou-se a terra. No relato de Gênesis, o mundo foi formado a partir do caos, que sempre de novo pode retornar, como aconteceu com o dilúvio, quando “se romperam as comportas do céu” (Gn 7,11). Abriram-se as comportas do reservatório de água que se encontra acima do céu.


A mitologia babilônica apresenta uma luta contínua contra o caos. E no mito cananeu, a vitória sobre o caos nunca é definitiva, havendo até uma alternância de predomínio. A originalidade dos hebreus consistiu em subordinar toda essa luta ao rigoroso monoteísmo ético. Diante da pluralidade de forças desintegradoras é afirmada a soberania do único Deus verdadeiro.


Nós encontramos relatos da criação em Gênesis, nos Salmos, em Jó, nos Provérbios, em Isaías e em Jeremias. Todos os relatos mencionam o caos. São relatos que se complementam. Em Gn 1,1-2,4a encontramos uma cosmogonia escrita pela tradição sacerdotal. Em Gn 2,4b-25 deparamo-nos com uma antropogonia elaborada pelas tradições javistas. Os relatos de Gênesis apresentam Deus como soberano que dá ordens a partir de fora. Concluída a obra, ela é dotada de ordem e harmonia. Mesmo assim, o perigo continua presente, simbolizado pela serpente e pela possibilidade da desobediência. O caos sempre pode retornar, provocando desordem.


Os relatos nos Salmos, Jó, Provérbios, Isaías, Jeremias apresentam Deus lutando contra o caos e vencendo-o. Deus está dentro do processo. Esses textos são os mais antigos na articulação da fé dos hebreus. O ponto de partida é a observação do cotidiano: a vida é muito frágil ese encontra constantemente sob a ameaça da desintegração. Onde desponta um ser vivo, também está presente a possibilidade da doença e da morte.


Para se referir à criação do mundo, o AT apresenta uma mensagem plural. No entanto, os relatos se complementam. Gênesis apresenta Deus como um soberano, que dá ordens de fora para dentro da sua obra.Gênesis aponta para uma situação ideal: a criação é harmônica e está concluída. Os demais relatos partem da observação da realidade: o caos está sempre rondando por aí e ameaçando a vida. Deus está lutando dentro do processo, subjugando o caos. Deus derrota o caos, mas não o elimina. A luta continua.


A luta entre Deus e o caos é descrita mediante ilustrações. O Mar agitado, revolto e misterioso torna-se um ícone para o caos. Nele se abrigam os monstros e as forças hostis.Observemos como é descrito o confronto:quando o Mar viu Deus, ele tremeu e suas ondas estremeceram (Sl 77,16). Deus reprimiu o Mar (Sl 65,7), amansando as ondas que se elevam (Sl 89,9-10). Deus é mais poderoso que o estrondo do Mar (Sl 93,4). Deus dividiu o Mar e quebrou as cabeças dos dragões (Sl 74,13) e também esmagou “as cabeças do Leviatã” (Sl 74,14), um monstro marinho de sete cabeças; um autêntico símbolo do caos. Deus luta e subjuga o caos (Sl 104,26), transpassando e destroçando Raabe, outro monstro primordial (Sl 89,10-11). Deus domina o monstro Behemot (Jó 40). Esses animais mitológicos, que designam o caos, também são uma referência às nações inimigas, quando formam oposição ao plano de Deus. O caos também pode ter uma dimensão política, estando presente nos conflitos entre as nações e nas artimanhas dos governantes.Também o Dragão é um ícone do caos. Ora, o Dragão só existe no imaginário das pessoas, mas está presente no inconsciente coletivo da humanidade como um símbolo. Aliás, a serpente, mencionada em Gn3, representa o nefasto Dragão. Portanto, o caos continua existindo e a vitória de Deus não é definitiva. O caos é derrotado, mas não é eliminado; ele sempre pode retornar.


A criação não está consumada. Ela é contínua, pois quando nasce um ser vivo, o caos está rondando de modo ameaçador. Deus não elimina o caos, mas impõe limites ao poder desintegrador (Sl 33,7; 104,9). A vitória de Deus é sempre parcial. Sempre existe a possibilidade da desintegração, da doença e da morte que continua existindo e ameaçando todas as formas de vida. O retorno do caos significa a desestabilização da criação de Deus (Sl 60,2). Se Deus deixar de controlar o monstro, o mundo recai no caos primordial (Sl 104,29-30). Portanto,os seres vivos existem, porque Deus os preserva. Existir significa estar liberto e preservado do caos.



No templo de Jerusalém havia “o mar de fundição” (1Rs 7,23-36). Esse reservatório de água era uma representação simbólica do mar primordial; uma referência ao oceano rebelde e dominado por Iahweh, que derrotou as forças do caos. A presença desse símbolo no templo destinava-se a transmitir a mensagem de que a humanidade vive ameaçada pelo caos, mas é preservada pela providência de Iahweh.


Muitas vezes, nós só vemos o caos. Passamos o dia inteiro nos deparando com o caos e Deus está oculto (Is 45,15). Certamente é por isso que o NT declara que “o mundo inteiro jaz no Maligno” (1 Jo 5,19). Como se não bastasse a dimensão caótica da realidade, o ser humano acrescenta mais caos ainda. Não é preciso elaborar uma teoria a respeito do caos; ele está aí. Não é necessário “crer” no caos; ele impregna a realidade. A existência do caos é evidente; quem precisa se manifestar é a bondade criadora de Deus. Onde Deus é chamado a intervir, o caos não pode subsistir. É o agir de Deus que devemos perceber com os olhos da fé.


Sendo a vitória de Deus por etapas, o caos é subjugado, mas não é eliminado. Mas Deus é poderoso para sempre de novo vencer o caos, estabelecendo – a partir dessa vitória por etapas – sua boa criação. Deus não se detém diante do caos, que ameaça a vida de várias maneiras: mediante catástrofes na natureza, epidemias, câncer, doenças degenerativas e também hostilidades, calúnias, injustiças, perseguições, invejas, mentiras e guerras entre os seres humanos. O caos atua até dentro do nosso organismo, mas na maioria das vezesconseguimos ganhar a batalha. Deus pode até demorar, para intervir. E muitas vezes o salmista exterioriza sua impaciência. Mas Deus é confiável e não decepciona: ele liberta aqueles que nele confiam e o invocam. Não há adversidade que impeça o agir criador de Deus. Ele está continuamente empenhado em conquistar e subjugar o caos.


Onde Deus está lutando contra o caos, lá ele também está exercendo seu poder criador. A criação não aconteceu uma vez, antigamente, mas é um processo contínuo. Onde nasce um ser vivo, o agir criador de Deus está presente. Portanto, estar vivo significa ser preservado por Deus. A existência é frágil e se defronta continuamente com a ameaça da desintegração. O salmista acorda de manhã agradecendo a Deus, pois a vida é uma dádiva, uma libertação do caos, uma experiência de salvação. Estar vivo significa estar salvo e preservado por Deus.


Considerações finais.


Quando falamos do Deus Criador, torna-se necessário refletir sobre a onipotência divina. Aprendemos a afirmar que Deus é todo-poderoso, mas como interpretamos esse conceito? Para trazer clareza a esse respeito, precisamos ouvir o teólogo Paul Tillich: “É mais adequado definir a onipotência divina como o poder de ser que resiste ao não-ser em todas as expressões e que se manifesta no processo criativo em todas as suas formas” (Teologia Sistemática, p. 229).


Onde Tillich se refere ao não-ser, nós podemos entender “caos”. Nesse confronto permanente entre ser e não-ser, “Deus é o ser-em-si, no sentido de poder de ser ou poder de conquistar o não-ser”, afirma Tillich. Além de poder resistir ao caos, Deus também tem a capacidade de conquistar e subjugar o caos. Deus submete o caos; nisso consiste a sua boa criação. “É a experiência do ser que resiste ao não-ser”, prossegue Tillich(p. 253).


Nenhum poder caótico pode resistir ao ser-em-si, a Deus, o poder de ser. Deus consegue continuamente estabelecer a sua boa criação. “Deus é o poder de ser, resistindo e conquistando o não-ser” (Tillich, p. 228).


É muito importante e decisivo para a nossa fé entendermos desse modo a onipotência divina, um conceito que pode estar envolto em crendices delirantes. “É magia e absurdo se é interpretada como a qualidade de um ser supremo que pode fazer o que quiser”, esclarece mais uma vez Tillich. E prossegue: “Quando é pronunciada seriamente a invocação ‘Deus todo-poderoso’, é experimentada uma vitória sobre a ameaça do não-ser, e é expressada uma corajosa afirmação da existência. Nem a finitude nem a ansiedade desaparecem, mas elas são entregues à infinitude e coragem. Só nesta correlação deveria ser interpretado o símbolo da onipotência” (p. 229).


Depois dessas considerações, torna-se imprescindível a referência ao Deus absconditus, tão bem explicitado por Lutero. Entende o Reformador que o agir de Deus na criação é oculto e incompreensível. Deus se tornou compreensível para nós em Jesus Cristo, despertando-nos para a fé e oferecendo a justificação pela graça. O agir salvífico realizado em Cristo deve ser recebido em fé. Mas, até mesmo esse conhecimento da fé é sempre parcial. E também aquela parte, conhecida pela fé, permanece insondável. A fé compreende em parte.


No Novo Testamento, nós nos defrontamos com o “Deus anunciado”, que é o Deus revelatus. Mas, nós só podemos nos refugiar no “Deus anunciado” depois de termos feito a experiência com o Deus oculto (absconditus). Essa experiência precisa ser realizada sempre de novo, para nós nos refugiarmos no Deus de amor.


A fé se defronta, ao mesmo tempo, com o Deus revelatus e também com o Deus absconditus. Deus se revela, mas ele continua sendo o Deus oculto. Portanto, o Deus revelatus é também o Deus absconditus. A revelação de Deus não elimina o mistério (1Co 4,1). Por isso, o Deus revelatus não deixa de ser absconditus.


Aquele que quer olhar para a majestade de Deus, também precisa olhar para a cruz de Cristo. Pois, para aquele que só procura a majestade de Deus, ele se oculta na cruz de Cristo. O Deus todo-poderoso está oculto na cruz, assim como Cristo é, ao mesmo tempo, sofredor e vitorioso. O Deus absconditus não está em antagonismo com o Deus revelatus. O Crucificado e Ressurreto é também o Deus oculto. Ele é o Deus oculto que se revela. A divindade de Cristo está oculta em sua dimensão humana. Deus está “oculto em seus sofrimentos” e “manifesto a partir de suas obras”.


A encarnação se apresenta como um “véu” e também como um “vidro” ou “espelho”. O véu é uma metáfora para o ocultamento. E o espelho, para a manifestação da majestade divina. Ambas as dimensões fazem parte da revelação: ocultamento e manifestação. Precisamos nos relacionar com o Deus absconditus e também com o Deus revelatus.


Quando olhamos para o Deus absconditus, então deparamos com a pergunta pela justiça divina perante o mal no mundo (teodiceia). No confronto com a realidade, nós não conseguimos compreender o Deus absconditus. Precisamos olhar para o Deus revelatus, para então entendermos a verdadeira índole de Deus. O verdadeiro ser de Deus só pode ser conhecido no Deus revelatus, e essa compreensão acontece somente na fé.


O homem natural enxerga somente o mal e a ocultação de Deus. Com tanta injustiça, a realidade se torna incompreensível. O homem que crê percebe o mistério da eleição em Cristo: a graça de Deus como base para a salvação.


Quando a pessoa se encontra com a fé vacilante, ela deve olhar para o Deus revelatus. A pessoa justificada vivencia a certeza da salvação.


Concluindo, se Deus fosse somente oculto, nós não saberíamos nada dele. Se Deus fosse plenamente revelado, então não haveria mais perguntas a respeito dele. Lutero entendeu muito bem essa dialética.


Continuamos nos relacionando com o mistério divino, pois até mesmo o amor de Cristo (Ef 3,19) e a paz de Deus (Fl 4,7) sempre “excedem todo o entendimento”.

Referências


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Texto elaborado por Paulo Rückert


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