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  • Maria Luiza Rückert

O Milagre do Diálogo I - A importância do Diálogo



O diálogo é para o amor o que o sangue é para o corpo. Quando cessa a circulação do sangue, o corpo morre. Quando cessa o diálogo, o amor morre e nascem o ressentimento e o ódio. Mas o diálogo pode ressuscitar uma relação morta. Este constitui efetivamente o milagre do diálogo: ele pode engendrar uma relação nova, e também pode dar nova vida a uma relação que já morreu.


Há uma única condição para que haja diálogo: deve ser recíproco. E os participantes devem persistir denodadamente. Quem entra em diálogo sempre corre algum risco, mas quando duas pessoas se decidem a dialogar e assumem o seu temor em fazê-lo, pode desencadear-se o poder taumatúrgico do diálogo.


No diálogo, o ser e a verdade de uma pessoa são confrontados com o ser e a verdade do outro. O diálogo, portanto, não é uma coisa cômoda, tampouco é fácil realizá-lo.


A comunicação significa vida ou morte para as relações das pessoas. Nesta época de comunicação de massas, é muito necessário um estudo bem mais profundo da natureza da comunicação. O ser humano consegue bombardear a mente, os sentimentos e a vontade de seu irmão com sutileza e eficácia aterradoras. Livros como “Os Persuasores Ocultos” (The Hidden Persuaders), escrito por Vance Packard, descrevem como o ser humano se converteu em vítima da comunicação, em vez de fazer com que essa comunicação seja um meio pelo qual se encontre a si mesmo, em sua relação com os outros, numa comunidade de crítica e ajuda mútuas.


Enquanto a Igreja não se converter verdadeiramente numa comunidade, não poderá comunicar-se adequadamente. Como a Igreja se converte numa comunidade? A resposta é simples: ela se converte em comunidade, quando os seus membros, como pessoas, entram em diálogo recíproco e assumem a responsabilidade de sua vida comum. Sem esse diálogo os indivíduos e a sociedade são abstrações. É por meio do diálogo que o ser humano realiza o milagre da personalidade e da comunidade.


Um bebê se converte em pessoa, em resposta ao encontro que se dá entre ele e sua família. Desde o começo de sua vida, é a comunicação que garante a sua sobrevivência e continuidade. O bebê não depende só do alimento e dos cuidados. Ele necessita, também, que a sua família se comunique com ele. A mãe o amamenta e o banha, faz carícias e canta. O bebê recebe da mãe a mensagem de que ela o ama e lhe quer muito bem. Essa mensagem também significa para ele que é amado e, portanto, um ser amável. Significa para ele que é aceito pela mãe e, portanto, um ser aceitável. Por outro lado, se a sua mãe for hostil e rabugenta, e lhe transmitir negligência e grosseria, o bebê recebe a mensagem de que ele constitui um estorvo para a sua mãe. Ele passa a se sentir inaceito e, portanto, se sente uma criança inaceitável.


Enquanto a mensagem do amor e zelo é vivificadora e criativa, a mensagem da hostilidade e da negligência é alienante e destrutiva.


Amar alguém dá vida a quem ama e a quem é amado.


A criança participa do diálogo. Ela chora, sorri, move seus braços e pés e, através de outras formas não-verbais, formula suas perguntas e tece seus comentários positivos e negativos sobre a sua vida. A resposta que ela recebe do seu mundo, de seus pais e irmãos, influi de forma decisiva em sua futura capacidade de comunicação. Caso suas tentativas iniciais de comunicação forem aceitas, a criança crescerá em sua capacidade de falar. Em caso contrário, poderá converter-se numa pessoa inibida, ressentida, defensiva.


Aceitação e aprovação não são a mesma coisa. Muitos pensam, erroneamente, que, para aceitar uma pessoa, precisamos aprovar o que ela faz, ou pelo menos não mostrar desaprovação. O juízo está sempre implícito na aceitação. Aprovar o comportamento errado, inapropriado de uma pessoa, significa não considerá-la como pessoa responsável.


Quando um homem e uma mulher que se amam, dialogam, neste diálogo pode existir tanto a intimidade daquilo que os dois compartilham, têm em comum, como a distância do mistério insondável de cada um.


É importante saber quem é o outro verdadeiramente! E, por meio do diálogo, que utiliza tanto a linguagem das palavras quanto outras formas de linguagem, é bonito e significativo tentar conhecer a vida através do outro.


É preciso distinguir entre o amor monológico e o amor dialógico. O amor monológico curte egocentricamente os sentimentos de uma relação. O amante explora a amada (ou vice-versa) pelo dividendo emocional que pode extrair da relação. O amor dialógico, ao contrário, é altruísta. O amante volta-se para a amada, não para desfrutá-la egoisticamente, mas para servi-la, para conhecê-la e, por meio dela, ser. Como é significativo servir a pessoa amada, conhecê-la e, sendo conhecida por ela, encontrar o seu próprio ser. Para converter-se em pessoa, é preciso que a gente participe no ser do outro.


É preciso, pacientemente, ter consciência de que o(a) companheiro(a) é a outra pessoa. O matrimônio se torna monológico, sempre que usamos o outro como um meio para algum fim, sempre que nos escondemos numa atitude defensiva.


Geralmente é tão difícil para os pais respeitarem e confiarem na unicidade e nos talentos e capacidades de seus filhos. Nossos filhos deveriam ter a experiência de serem tratados como pessoas livres numa relação de confiança e responsabilidade. Como é importante haver diálogo entre jovens e adolescentes e adultos! Havendo respeito mútuo, os jovens não precisarão reprimir a sua criatividade, tampouco terão necessidade de partir para a agressão. Os adultos, por sua vez, não precisarão dominar, nem afastar-se, frustrados, dos jovens. O delinquente juvenil, que optou por uma postura de guerra contra a vida, pode ser profundamente beneficiado pelo diálogo, e voltar a ter uma relação criadora e positivamente criativa com a vida!


O diálogo é indispensável na busca pela verdade.


Infelizmente, muitas pessoas sustentam e proclamam que somente aquilo em que elas crêem, é verdade... E assumem uma postura hermética e defensiva. Sabemos que dispomos de fragmentos da verdade. Os meus fragmentos podem ser completados pelos seus!


Enquanto o pensador monológico corre o risco do preconceito, da intolerância, da estreiteza de visão, da perseguição daqueles que diferem dele, o pensador dialógico é uma pessoa desejosa de falar de suas convicções com aqueles que sustentam convicções diferentes das suas. O diálogo enriquece os dois lados.


Igreja deve ser, necessariamente, espaço de diálogo! Constitui compromisso e responsabilidade da Igreja falar, dialogicamente, com cada geração, e assim estar em condições de tratar das necessidades da humanidade.


- texto elaborado por Maria Luiza Rückert

Fonte: El milagro del dialogo, de Reuel Howe

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