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  • Maria Luiza Rückert

O Papel do Psicólogo - Segundo a perspectiva de Ignacio Martín-Baró


“O trabalho profissional do psicólogo deve ser definido em função das circunstâncias concretas da população que deve atender”.


A realidade está marcada por injustiças, corrupção e pela continuidade de certos grupos que detêm o poder.


“Ainda que o psicólogo não seja chamado para resolver tais injustiças, ele deve se empenhar para buscar uma resposta”.


O psicólogo deve empenhar-se por uma atividade conscientizadora, ajudando as pessoas a superarem a sua alienação – pessoal e social. Desse modo, as pessoas poderão “transformar as condições opressivas do seu contexto”.


Mediante uma atividade conscientizadora, o psicólogo disponibiliza o seu conhecimento e a sua práxis para acompanhar as maiorias populares “no seu caminho histórico em direção à libertação”.


O psicólogo precisa captar a “especificidade social e cultural” na qual se encontra a maioria da população.


“Assim, antes de perguntarmos sobre o quefazer específico do psicólogo, devemos voltar nossa atenção para esse contexto”.


Trazendo a reflexão de Martín-Baró para a nossa sociedade brasileira, devemos destacar algumas características do nosso contexto.


Numa sociedade caracterizada por uma ideologia consumista, que foi incentivada pelo próprio governo, cabe ao psicólogo estar consciente do alto índice de inadimplência que atinge a maioria da população. Quando uma pessoa não tem atendidas as “necessidades mais básicas de alimentação, moradia, saúde e educação”, ela irá procurar um psicólogo? Num mundo marcado pelo tráfico de drogas e pela violência, o cidadão estará muito mais preocupado com a sua segurança física e a proteção de sua família.


Em 1968, o psicólogo francês Marc Richelle lançou a pergunta: “Para que psicólogos?”

Didier Deleule respondeu essa questão, afirmando que a psicologia assumiu, na sociedade contemporânea, a função de uma ideologia: ela estava mudando o indivíduo e preservando a ordem social. Havia a ilusão de que esse indivíduo poderia mudar a ordem social.


Sempre há o perigo de uma profissão encontrar-se “a serviço da ordem estabelecida”. Nesse sentido, a psicologia não seria uma exceção.


Em suas raízes históricas, a psicologia se limitava a analisar a conduta do indivíduo, ou seja, o comportamento observável, lançando também um olhar sobre a consciência humana. No entanto, a consciência não é o âmbito privado e subjetivo dos indivíduos, mas é “sobretudo, aquele âmbito onde cada pessoa encontra o impacto refletido de seu ser e de seu fazer na sociedade, onde assume e elabora um saber sobre si mesmo e sobre a realidade que lhe permite ser alguém, ter uma identidade pessoal e social”.


Não se trata de ver o indivíduo apenas a partir de sua subjetividade, mas compreendê-lo e ajudá-lo a partir de sua inserção social.


“A consciência, assim entendida, é uma realidade psicossocial, relacionada com a consciência coletiva de que falava Durkheim”.


A consciência inclui a imagem que o indivíduo tem de si mesmo, sendo essa o produto de sua história.


Quando a psicologia tem como objetivo os processos da consciência, ela se defronta com indivíduos que são membros de uma coletividade.


O comportamento humano deve ser analisado a partir de seu significado pessoal, considerando também a sua inserção social. O saber do indivíduo deve ser avaliado a partir de uma perspectiva histórica. Aprender não é uma sequência de estímulos e respostas, “mas sobretudo estruturar uma forma de relação da pessoa com o seu meio”. O trabalho não se restringe à aplicação de “uma série de conhecimentos e habilidades para satisfação das próprias necessidades; trabalhar é, antes e fundamentalmente, fazer-se a si mesmo, transformando a realidade”. E essa atividade acontece nas “relações interpessoais e intergrupais”.


A meta principal da psicologia é a conscientização. Esse conceito foi cunhado por Paulo Freire.


“É necessário que as pessoas assumam seu destino, que tomem as rédeas de sua vida, o que lhes exige superar sua falsa consciência e atingir um saber crítico sobre si mesmas, sobre seu mundo e sobre sua inserção neste mundo”.


“O processo de conscientização supõe três aspectos:

  1. O ser humano transforma-se ao modificar sua realidade. Trata-se, por conseguinte, de um processo dialético” [...]

  2. “Mediante a gradual decodificação de seu mundo, a pessoa capta os mecanismos que a oprimem e desumanizam” [...]

  3. “O novo saber da pessoa sobre sua realidade circundante a leva a um novo saber sobre si mesma e sobre sua identidade pessoal”.


“A conscientização supõe uma mudança das pessoas no processo de mudar sua relação com o meio ambiente e, sobretudo, com os demais”.


O psicólogo deve buscar “a desalienação das pessoas e grupos”.


O DSM III (1983) “reconhece que todo comportamento envolve uma dimensão social”, logo, o “psicólogo não pode limitar-se ao plano abstrato do individual”.


O psicólogo não é chamado a mudar as estruturas sócio-econômicas que promovem injustiças, mas ele “é chamado a intervir nos processos subjetivos que sustentam e viabilizam essas estruturas injustas”.


“O psicólogo pode contribuir para a formação de uma identidade, pessoal e coletiva, que responda às exigências mais autênticas dos povos”.

  1. “O psicólogo... deve repensar a imagem de si mesmo como profissional”.

  2. “É urgente assumir a perspectiva das maiorias populares”.

  3. A opção mais radical está “na alternativa entre uma acomodação a um sistema social que nos tem beneficiado, ou uma confrontação crítica frente a esse sistema. [...] trata-se de colocar o saber psicológico a serviço da construção de uma sociedade” humana, justa e fraterna.


Pesquisa elaborada por Maria Luiza Rückert

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