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  • Maria Luiza Rückert

O significado da morte de Jesus


Jesus se designava Filho do Homem. No ambiente semita, esse título designa um indivíduo paradigma da coletividade. É afirmada sua dimensão humana. Na tradição judaica, o Filho do Homem passou a ser uma figura celestial. Jesus se apresentou como Filho do Homem e pautou a sua missão como Servo Sofredor de Iahweh (Is 52,13-53,12). A idéia de um Messias sofredor era totalmente estranha para a expectativa da época.


Isaías 52,13-53,12 apresenta o ato salvífico do Servo Sofredor. Através do sofrimento do Servo inocente os culpados são redimidos. O texto não revela como se processa essa redenção; não é explicado o vínculo entre o inocente que sofre e o culpado que é redimido. Fica a pergunta: como o sofrimento do inocente é eficaz para salvar os culpados?


A partir da história do povo de Israel, que mostra um Deus justo e um povo desobediente, rebelde, recusando-se a cumprir a vontade do Senhor, o apóstolo Paulo aprofundou a reflexão em torno da culpa universal da humanidade. O ser humano não consegue libertar-se do pecado, que atua como um poder escravizante. Em Rm 7, Paulo descreve o ser humano sob julgamento. Dois inimigos da humanidade são personificados: o Pecado e a Morte.


A Lei se defronta com esses dois inimigos, mas ela é impotente para libertar o ser humano. Não podendo cumprir as exigências da Lei, a condição do ser humano torna-se pior. Sozinho e mediante o seu esforço, o ser humano não consegue se libertar do Pecado. “O engano do pecado (Rm 7,11) consiste em levar o ser humano a acreditar que, se seguir a sua epithymia [cobiça], ganhará a vida, enquanto arranja para si a morte” (Rudolf Bultmann, Teologia do Novo Testamento, p. 309). É uma condição sem esperança, pois o pecador se depara com a Morte.


Paulo declara: “Aquele que não tinha conhecido o pecado, Deus o fez pecado, para que nós, por meio dele, nos tornássemos justiça de Deus” (2 Co 5,21). Jesus tornou-se pecado pelo fato de ter se tornado um ser humano. Tornando-se pecado, Jesus teve que se sujeitar à Morte.


No entanto, quando o Pecado e a Morte atingem um inocente, eles perdem o seu poder. Atacando aquele que não conheceu pecado, os inimigos se subordinam a ele. Jesus havia se tornado pecado por causa de sua condição humana, mas continuava inocente. Portanto, Pecado e Morte não tinham poder sobre ele, mas se colocaram em seu poder.


A argumentação de Paulo tem traços mitológicos. Para descrever o mistério da salvação, Paulo teve que recorrer a ilustrações mitológicas, personificando o Pecado e a Morte. A mensagem religiosa necessariamente requer uma linguagem simbólica, recorrendo ao sinal e ao símbolo. Paul Tillich constata que “não existe maneira de falar sobre Deus a não ser através de termos mitológicos”.


Rudolf Bultmann analisa textos que se referem ao sacrifício expiatório de Cristo. A morte de Cristo é “a propiciação no seu próprio sangue” – “a remissão dos pecados anteriormente cometidos” (Rm 3,25). Por isso, somos “justificados no seu sangue” (Rm 5,9), pois Jesus morreu “pelos nossos pecados” (1 Co 15,3; 2 Co 5,14). Cristo “tornou-se maldito por nós” (Gl 3,13). Deus “tornou pecado por nós aquele que não conhecia pecado” (2 Co 5,21); “Deus fez o que a Lei não conseguia fazer, por causa da fraqueza da carne: enviando seu próprio Filho em forma semelhante àquela da carne do pecado e em vista do pecado, Deus condenou o pecado na carne” (Rm 8,3).


“A morte vicária de Cristo é, segundo Gl 3,13, o meio pelo qual os seres humanos foram ‘resgatados’, a saber, da ‘maldição da Lei’, e isso significa, evidentemente, do castigo imposto ao pecado – como transgressão da Lei. Até aqui, a compreensão é a mesma que contida nas frases que expressam o pensamento do sacrifício expiatório: o sacrifício paga a culpa ou o castigo (Bultmann, Teologia do Novo Testamento, p. 363).


“Cristo, embora inocente, submete-se a uma ‘maldição’ específica da lei (Dt 21,23), ser suspenso a um madeiro, para invalidar o regime da lei. Uma lei, segundo a qual um inocente é condenado (Jo 19,7), não ficará em vigor” (Schökel, Bíblia do Peregrino, comentando Gl 3,13).


“A liberdade adquirida pela morte de Cristo, portanto, não é apenas estar livre da pena, mas estar livre daqueles ‘poderes’, e com isso não apenas da culpa do pecado, e sim, sobretudo do pecado como poder, isto é, do fato de o ser humano ser coagido a pecar. Essa interpretação é confirmada pela afirmação de 1 Co 6,20; 7,23: egarásthete timés [fostes comprados por um preço], que, no contexto de 7,17-24, significa: [comprados] para a liberdade em relação aos anthropoi [seres humanos], isto é, segundo critérios e valorações que valem neste éon sujeito ao pecado” (Bultmann, Teologia do Novo Testamento, p. 364).


“Com isso está resolvida para Paulo a pergunta a quem foi paga a timé (o preço, o pagamento), adquirida pela morte de Cristo: justamente aos poderes, que reivindicam para si o ser humano a eles entregue, especialmente à Lei. A expressão é metafórica, e está afastado o pensamento mitológico de uma negociação com o diabo”.


Bultmann admitia a existência de poderes, que dominam o ser humano, reduzindo-o à escravidão, mas evitava mencionar o diabo.


“O essencial é, portanto, que no fundo as categorias do pensamento jurídico-cúltico estão rompidas: a morte de Cristo não é apenas um sacrifício que paga a culpa do pecado, isto é, a culpa contraída pelo pecar, mas também é o meio para a libertação de poderes deste éon, da lei, do pecado e da morte” (Bultmann, Teologia do Novo Testamento, p. 364).


Para que ocorra o perdão dos pecados, é necessário que aconteça a expiação. No nosso relacionamento com Deus, o Pecado não pode ser reparado por meio de uma ação humana. A expiação do Pecado pertence ao âmbito divino. “Os processos expiatórios são criados por Deus e tão somente por Deus” (Paul Tillich),


O preço do perdão é pago por aquele que perdoa. O próprio Deus assume esse pagamento. Aquele que é perdoado recebe o perdão de graça. Deus promoveu a reconciliação. Se o Pecado é superado, sua conseqüência (a Morte) deixa de exercer poder. Deus afastou o bloqueio e derrotou o inimigo de toda a sua criação. “A encarnação do Logos se completa na cruz” (Jürgen Moltmann, El Dios crucificado, p. 234).

Em Cristo, “Deus é por nós” (Rm 8,32). “Ele solta as amarras com as quais a culpa nos prende ao passado e nos torna livres para o futuro da esperança” (Jürgen Moltmann, Vida, Esperança e Justiça, p. 48).


A cruz de Jesus situa-se entre Deus e a humanidade. A morte de Jesus foi expiatória e libertadora para o ser humano escravizado. Mas a cruz também manifestou um predicado divino. “Se Jesus crucificado é chamado ‘imagem viva do Deus invisível’, isto significa: este é Deus, e assim é Deus” (Moltmann, El Dios crucificado, p. 234). Deus é solidário com o sofrimento e promove a reconciliação, assumindo ele mesmo o resgate, o pagamento. “A morte de Jesus na cruz é o centro da teologia cristã” (Moltmann, p. 233).

Aquele que voluntária e conscientemente tomou a cruz sobre si, é o mesmo que foi exaltado para redimir a humanidade toda da escravidão imposta pelo Pecado, que conduz à Morte. Jesus é vitorioso sobre os poderes.

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