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  • Maria Luiza Rückert

Preocupação


Até uma determinada intensidade, o medo pode nos ajudar a evitar situações de perigo. Da mesma forma, uma determinada intensidade de preocupação pode nos tornar mais responsáveis. Se todos os adultos se preocupassem com a educação dos filhos, certamente não haveria tantas crianças abandonadas pelas ruas. Se todos os motoristas se preocupassem com a vida dos semelhantes, certamente não dirigiriam sob o efeito de bebida alcoólica.

Mas, onde está o limite para manter a preocupação dentro de parâmetros saudáveis? Ultrapassado esse limite, a preocupação torna-se prejudicial na vida da pessoa.

Jesus percebeu que a preocupação é nociva e alertou: “Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá sua própria preocupação! A cada dia basta o seu mal” (Mateus 6,34).

Essa declaração de Jesus está fundamentada na certeza de que Deus supre as necessidades de suas frágeis criaturas. Nós não temos o controle dos acontecimentos, pois o sol brilha sobre maus e bons e a chuva cai sobre justos e injustos. A vida não anda nos trilhos: cada dia tem o seu próprio mal. Mas, a preocupação não nos ajuda – nem para prolongar o curso de nossa existência, tampouco para nos proporcionar alimento e vestuário. Devemos nos subordinar a Deus, que quer estabelecer o seu reino e a sua justiça (a vontade divina).

A partir dessa convicção, Jesus pautou a sua existência como uma missão recebida de Deus. Considerando a sua vida uma tarefa, ele passou a obedecer integralmente ao Pai celestial, que controla os acontecimentos. Sua dependência de Deus tornou-se absoluta.

O decisivo foi o relacionamento de Jesus com o Pai celestial. Além dessa relação pessoal. Jesus também pautou sua vida de acordo com a teologia do Antigo Testamento: nós pertencemos ao Todo, mas não conseguimos entender o conjunto da realidade (Eclesiastes 3,11 e 8,17), e devemos nos submeter ao poder que controla os acontecimentos – “É o Senhor; faça o que bem lhe aprouver” (1 Samuel 3,18). Para que a sua existência seja integrada, o ser humano precisa se submeter a Deus por inteiro. “A submissão total à vontade divina integra a vida humana, em nível individual e social. Se a submissão não for total, então a vida humana é abalada pela força da desintegração que nela está implícita” (John McKenzie, Os grandes temas do Antigo Testamento, p. 297).

Também o apóstolo Paulo alertou: “Não vos preocupeis com coisa alguma, mas, em toda ocasião, apresentai a Deus os vossos pedidos, em orações e súplicas, acompanhadas de ação de graças” (Filipenses 4,6).

O apóstolo Paulo também teve uma vivência marcante com Deus e foi transformado por Jesus, passando a ressaltar a obediência do Senhor, que foi obediente até à morte na cruz.

Exortação idêntica é apresentada na primeira carta de Pedro: “Lançai sobre ele [Deus] toda a vossa preocupação, pois ele é quem cuida de vós” (5,7).

Reiteradas vezes a Bíblia aponta para a necessidade de resolvermos nossas preocupações na presença de Deus. Também os Salmos e os Provérbios enfatizam essa terapia.

As demandas da sociedade contemporânea fizeram com que o número e a intensidade das preocupações aumentasse em demasia. Os médicos alertam para a dimensão nociva da preocupação, que pode ser observada na origem da maioria das doenças. Oncologistas renomados, como Bernie Siegel, afirmam que a preocupação pode ser constatada na origem de um tumor maligno. A Organização Mundial da Saúde alerta para o aumento assustador dos casos de depressão.

A realidade se tornou muito complexa, a interpretação dos acontecimentos já não é tão simples. Os fatos se sucedem com muita rapidez e as pessoas se empenham para preservar uma identidade. Essa complexidade e essa dinâmica ocasionaram o surgimento de terapeutas e escritores, que têm se especializado em elaborar orientações para as pessoas poderem lidar com as preocupações. Tornou-se pioneiro e paradigmático o livro Como evitar preocupações e começar a viver. Vejamos as orientações propostas por Dale Carnegie.

Diante de uma situação aflitiva: Analise sem medo e honestamente a situação, imaginando o que de pior poderia acontecer como resultado desastroso.

Depois de imaginar o que de pior poderia acontecer, procure aceitar as consequências, caso necessário for.

Daquele momento em diante, procure dedicar calmamente o seu tempo e a sua energia para remediar as piores possibilidades, que já foram aceitas mentalmente. “Quando já aceitamos o pior, não nos resta mais nada para perder. Temos tudo a ganhar!” (Dale Carnegie).

“Ficai contentes de que seja assim, porque a aceitação do que aconteceu é o primeiro passo para se vencer as consequências de qualquer infortúnio” (William James).

“Aquilo que aconteceu e não pôde ser evitado não deveria fazer sofrer” (Grande Alce, chefe dos índios Omaha).

“A verdadeira paz advém da aceitação do que nos possa acontecer de pior. Creio que, psicologicamente, isso significa liberação de energia” (Lin Yutang).

“Perde-se a vida quando a pretendemos resgatar à custa de demasiadas preocupações” (William Shakespeare).

“Perguntemos a nós mesmos: Quais são as possibilidades, de acordo com a lei das probabilidades, de que aconteça isto que está me preocupando?” (Dale Carnegie).

Muitas vezes, a pessoa só alcança o sucesso quando ela desiste conscientemente de lutar e deixa de procurar soluções por meio do raciocínio lógico.

“Nessas circunstâncias, o caminho do êxito, segundo o testemunho de numerosas narrativas pessoais autênticas, é pela rendição e pela passividade, antes que pela atividade. Relaxação, despreocupação, deve agora ser o lema. Abandonemos o sentimento de responsabilidade, confiemos o cuidado do nosso destino a poderes mais altos, sejamos genuinamente indiferentes ao que possa acontecer” (William James, Variedades da experiência religiosa).

Ouçamos também o cirurgião plástico Maxwell Maltz, pesquisador da autoimagem. “Devemos pensar conscientemente sobre o assunto, colher sobre ele todas as informações que pudermos, ponderar todas as possíveis atitudes a tomar. E acima de tudo, precisamos ter um ardente desejo de resolver o problema. Mas, depois de definido o problema e obtidos todos os fatos e informações possíveis, qualquer esforço, impaciência ou preocupação de nada servem; pelo contrário, parecem dificultar a solução” (Liberte sua personalidade, p. 72).

Também os cientistas se ocupam com situações aflitivas. “Em situações complicadas, o esforço para melhorar as coisas frequentemente tende a torná-las piores, algumas vezes muito piores, e não raro calamitosas” (Jay E. Forrester, do Massachusetts Institute of Technology – MIT).

“Conclusão contraditória: atinge-se o resultado quando se abandona a esperança de alcançá-lo. Resolve-se o problema quando se desiste de resolvê-lo. Ganha-se o poder quando se desiste de procurá-lo” (Rubem Alves, O enigma da religião, p. 93).

“Aja da melhor maneira que puder; depois, abra o seu velho guarda-chuva e evite que a tempestade de críticas lhe escorra pelo pescoço” (Dale Carnegie).

“Nunca reaja emocionalmente às críticas. Analise a si mesmo para determinar se elas são justificadas. Se forem, corrija-se. Caso contrário, continue vivendo normalmente” (Norman Vincent Peale).

“Enfrente seus obstáculos e faça alguma coisa em relação a eles. Você descobrirá que eles não têm metade da força que você pensava que eles tivessem” (Norman Vincent Peale).

“Só existe um grupo de pessoas que não tem problemas e elas estão todas mortas. Os problemas são um sinal de vida. Então, quanto mais problemas uma pessoa tem, mais viva ela está” (Norman Vincent Peale).

“Se um homem dedicar o seu tempo em obter os fatos de maneira objetiva, imparcial, as suas preocupações usualmente se dissiparão, à luz do conhecimento” (Herbert E. Hawkes, reitor do Columbia College).

Dale Carnegie também transmite este esquema. Diante de uma preocupação, devemo-nos perguntar: Qual é o problema? Qual é a causa do problema? Quais são as soluções possíveis? Qual é a melhor solução? “A preocupação deveria levar-nos à ação e não à depressão” (Karen Horney).

“A razão pela qual a preocupação mata mais pessoas do que o trabalho é que as pessoas preocupam-se mais do que trabalham” (Robert Frost).

“A preocupação é uma forma de medo e todas as formas de medo produzem fadiga. O homem que aprendeu a não ter medo percebe como a fadiga da vida cotidiana diminui enormemente” (Bertrand Russell).

“A preocupação é o sentimento que nos imobiliza no presente por coisas que podem vir a acontecer no futuro” (Wayne Dyer).

“Eu sou um homem velho e conheci um grande número de preocupações – mas a maioria delas nunca aconteceu” (Mark Twain).

Concluindo, nenhuma orientação psicológica é equiparável ao ensino de Jesus, que nos proporciona um posicionamento de vida. Jesus se ocupou com o fundamento do ser. A verdadeira libertação acontece mediante a confiança em Deus, o que também significa entrega. O nosso caminho deve ser entregue a Deus. Mas, os acontecimentos nos sobrevêm com muita rapidez e as demandas são um desafio diário. Quando estamos diante de uma situação aflitiva, a preocupação destrói a nossa capacidade de concentração. Para essas situações, uma orientação – por mais simples que pareça – poderá ser a ajuda de que necessitamos. Quando alguém está se afogando, então não adianta começar com um curso de natação; é necessário jogar uma corda na qual a pessoa possa se agarrar. Maria Luiza Rückert

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