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  • Maria Luiza Rückert

Ressurreição


Paulo Rückert

A ressurreição de Jesus foi uma experiência muito marcante para os discípulos e também para o apóstolo Paulo.

Em todos os relatos de encontros com Jesus ressuscitado há uma característica: as pessoas não o reconheceram imediatamente.

Os quatro evangelistas mencionam o sepulcro vazio.

Em 1 Co 15,3-5, Paulo menciona que Jesus “foi sepultado”. Para um judeu como Paulo seria inadmissível admitir que Jesus estaria vivo enquanto o corpo estivesse se decompondo no sepulcro. Portanto, o anúncio da ressurreição foi formulado a partir de um acontecimento histórico. A ressurreição de Jesus foi uma realidade.

O sepultamento de Jesus foi relacionado com as providências de José de Arimatéia, que era discípulo, “ainda que ocultamente pelo receio que tinha dos judeus” (Jo 19,38). Nicodemos levou “cerca de cem libras de um composto de mirra e aloés” (v. 39), o que equivale a 30 quilos, uma quantidade destinada a reis e personagens importantes. Se a igreja primitiva lembrou essas providências e o nome desses dois homens, o sepultamento efetivamente aconteceu.

Diante do sepulcro vazio, resta a alternativa: ou Jesus ressuscitou ou os discípulos roubaram o corpo. Diante da intrepidez que os discípulos passaram a mostrar por ocasião do anúncio da ressurreição, é inacreditável que eles tenham se arriscado a morrer por causa de uma fraude.

As mulheres foram as principais testemunhas da ressurreição. Na época, elas não eram consideradas testemunhas confiáveis. É improvável que – naquele contexto – alguém tenha inventado uma encenação e, ainda por cima, evocando o testemunho de mulheres. Se os evangelistas mencionam as mulheres, elas certamente tiveram o papel principal na divulgação da ressurreição de Jesus.

A igreja primitiva passou a adorar o Senhor Jesus vivo. Jesus tornou-se o Senhor presente e atuante nos cultos e não uma teoria ou um respeitável fundador de uma religião. E o domingo – o Dia do Senhor – passou a ser o dia de adoração para os cristãos.

Dentro de um contexto de monoteísmo rigoroso, os escritores do NT não relutaram em equiparar Jesus com Iahweh.

A ressurreição de Jesus transcende o destino pessoal dele e tem implicações para a vida de todos os seus seguidores.

Morte e vida eterna devem ser compreendidas em sua relação com a obra de Cristo. A vida na eternidade só é alcançada mediante a participação na ressurreição de Jesus Cristo.

A morte não é amiga. Mas, com a vitória de Cristo, ela perdeu o seu poder de nos separar de Deus.

Observemos como Jesus morreu. Assim como o filósofo Sócrates, também Jesus teve consciência do dia de sua morte. No Getsêmani, Jesus entristeceu-se e angustiou-se (Mt 26,37). E declarou aos discípulos: “A minha alma está triste até a morte”. É um ser humano que compartilha o seu temor diante da morte, pois ela provoca medo. Jesus entende que a morte é destrutiva. Ela é terrível. E nesse momento ele não quer estar sozinho. Jesus treme diante do grande inimigo, o último a ser vencido.

Jesus já sabia de antemão o que ele tinha de enfrentar: “Devo receber um batismo, e como me angustio até que esteja consumado” (Lc 12,50). Jesus sabia que a morte significa o maior abandono. Ele não quer estar sozinho diante do inimigo de Deus. A morte é separação. Vários textos do AT são explícitos: Quem se encontra nas mãos da morte, já não se encontra nas mãos de Deus (Sl 6,5; 30,9; 88,10-12; Is 38,11.18). Por isso, no Getsêmani, Jesus procura a solidariedade de Deus e a dos discípulos. Quando vier a morte, o terrível inimigo de Deus, Jesus não quer ser abandonado pelos seus discípulos, mesmo sendo eles tão frágeis. Naquele momento decisivo, Jesus quer estar envolto pela vida – que está nos discípulos.

Vejamos o contraste entre a morte de Sócrates e a de Jesus. Aos setenta anos, Sócrates tinha os seus discípulos junto a si, podendo discorrer sobre a imortalidade da alma na mais elevada serenidade. Ensinava que o corpo é apenas uma vestimenta que reveste a alma, e que a morte é a grande libertação, pois a alma poderá retornar à sua eterna morada. Com toda serenidade e entrega, ele foi ao encontro da morte, tomando cicuta. Sócrates teve uma morte bonita. Jesus não pôde contar com o apoio dos discípulos e tremeu diante da morte. O tratado teológico aos Hebreus é o escrito que melhor ressaltou a plena divindade de Jesus (1,10), mas também evidenciou a completa dimensão humana do Filho de Deus (5,7 e 4,15). Jesus gritou e chorou. Sócrates tomou serenamente a cicuta. E Jesus gritou: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” E com um grito, ele morreu (Mc 15:37). Para Jesus, a morte é o último e terrível inimigo de Deus.

Também o autor do Apocalipse considera a morte como o último inimigo, salientando que ela é lançada no lago de fogo (20,14).

Deus é vida. E na condição de inimiga de Deus, a morte nos separa do Criador de toda a vida. Jesus viveu vinculado a Deus como nenhum outro ser humano. Por esse motivo, ele experimentou a morte de um modo muito mais terrível do que uma outra pessoa. Ao se deparar com essa separação de Deus, ele gritou: “Por que me abandonaste?” Jesus teve que vencer a morte em sua própria morte (Hb 2,14).

Onde a morte é considerada a inimiga de Deus, lá não se proclama a bem-aventurança eterna como sendo automática. O contraste entre e a morte de Sócrates e a de Jesus é o que melhor apresenta a diferença entre o ensinamento dos gregos e a doutrina hebraica da ressurreição. O NT apresenta a doutrina da ressurreição dos mortos.

A história da salvação culminou com a vitória sobre a morte.

Jesus conseguiu vencer a morte pelo fato de ele efetivamente ter morrido. Ele se entregou ao poder da morte experimentando o abandono de Deus e a destruição da vida. Jesus só alcançou a vitória porque ele realmente morreu. Jesus enfrentou o pecado na carne, pois ele veio a este mundo na condição de um ser humano. Ele conseguiu cumprir as reivindicações da Lei e, com sua morte, derrotou o pecado.

Se a morte fosse apenas uma grande libertação do corpo humano, então estaria esvaziada toda a conotação da luta que Jesus travou. Mas, ele parou de viver, para derrotar a morte em seu domínio mediante a ressurreição (Hb 2,14-15).

Se a partir dessa morte real surge vida, então aconteceu um novo ato criador de Deus, o qual chama a pessoa inteira de volta para a vida. A ressurreição não atinge só uma parte da pessoa; ela não se refere só à alma. Tudo o que Deus criou e que foi destruído pela morte, agora é ressuscitado.

Para o pensamento cristão (e judaico), a morte do corpo também significa destruição da vida criada por Deus. Também a vida de nosso corpo é verdadeira vida. Não é o corpo que precisa ser vencido (como se ele fosse a prisão da alma), mas a dimensão corporal está presente na vitória de Jesus sobre a morte.

Os primeiros cristãos se defrontaram com o horror da morte e, por isto, vivenciaram o júbilo da ressurreição de Jesus.

O termo imortalidade expressa uma declaração negativa: a alma não morre.

Ressurreição é uma declaração positiva: o ser humano todo, que realmente morreu, é chamado à vida através de um novo ato criador de Deus. Antes havia acontecido algo terrível: a vida criada por Deus havia sido destruída.

A Bíblia nos ensina que a morte não é bonita, nem a morte de Jesus o foi. Temos que nos defrontar com o terror da morte, para podermos avaliar a vitória sobre a morte (1 Co 15,54-55).

A fé na ressurreição traz em si o pressuposto judaico de que existe uma vinculação entre morte e pecado. A morte não é algo natural e desejado por Deus (1 Co 11,30). A morte é uma maldição, que penetrou no mundo através do pecado, arrastando consigo toda a criação (Rm 5,17).

A morte só é vencida quando o pecado é expiado. “O pecado é a arma ofensiva que a morte empunha; e a lei dá sua força a essa arma. Antecipação de Rm 6,14” (Bíblia do Peregrino, comentando 1 Co 15,56). E assim como o pecado é adverso a Deus, também a sua consequência – a morte – o é.

Deus pode se utilizar da morte (1 Co 15,36 e Jo 12,24), assim como ele se utiliza de Satanás. Mesmo assim, a morte continua sendo o inimigo de Deus. Pois, Deus é vida e criador da vida.

Tudo o que se opõe à vida, como a doença e a morte, advém do pecado: a ruptura da pessoa (consigo mesma, com Deus e com o semelhante). O pecado atingiu o ser humano em sua totalidade (corpo, alma e espírito), e também toda a criação. Por isso, cada cura realizada por Jesus é uma maneira de fazer a morte recuar, e é uma intervenção no âmbito do pecado (Mc 2:5). Não devemos relacionar cada enfermidade com um ato pecaminoso específico, mas tudo o que é contrário à vida é resultante da degeneração ocasionada pelo pecado. Cada cura é uma pequena ressurreição, pois é uma vitória parcial da vida sobre a morte.

Deparamo-nos com uma tensão entre a realidade da criação corrompida pelo pecado, e a nova criação liberta do pecado; entre o corpo marcado pelo pecado e entregue à morte, e o corpo incorruptível na ressurreição.

A antropologia do NT tem como base o pensamento hebraico. Ser humano interior e exterior se complementam (2 Co 4,16); ambos são criação de Deus e fazem parte do nosso ser.

O conceito “carne” se refere ao âmbito do poder do pecado, que ingressou como poder de morte em toda a humanidade. Abrange o corpo e a psique e apodera-se da pessoa como um todo (Rm 8,1-4).

O Espírito é um poder que dinamiza a existência humana, pois é a força criadora de Deus. É o poder da vida, da ressurreição, que proporciona um novo eixo para a existência humana. No AT, o Espírito atuou nos profetas e em pessoas de liderança destacada. Em Pentecostes cumpriu-se a profecia de Joel: nos tempos finais, o Espírito será derramado sobre todas as pessoas (At 2,16).

Carne e Espírito apoderam-se da pessoa toda. O Espírito de Jesus nos é concedido; é um novo princípio; mais poderoso – ele não anula a carne, mas a supera. O Espírito transforma e renova a pessoa.

O poder de ressurreição do Espírito atua no homem interior, renovando-o a cada dia (2 Co 4:16). Também o corpo é envolvido pelo poder do Espírito (1 Co 6:19). Mas, ainda não se trata de uma transformação do corpo mortal em corpo de ressurreição. A transformação integral e completa só acontecerá na plenitude dos tempos. Somente então o poder de ressurreição do Espírito estará se apoderando totalmente do corpo e o transformará. A atividade transformadora já tem seu início agora. Recebemos o Espírito como uma antecipação da ressurreição (2 Co 1,22; 5,5; Rm 8,23; Ef 1,13-14). O Espírito é o penhor, a garantia, o pagamento antecipado da nossa ressurreição.

O corpo e a alma foram criados bons, mas foram corrompidos pelo pecado (a ruptura). Portanto, o corpo e a alma precisam da redenção mediante o poder de vida do Espírito.

Em Mt 10,28 Jesus não está afirmando a imortalidade da alma, mas ressalta que somente Deus pode destruir a vida terrestre e também a celestial. Tanto o corpo como a alma precisam ser redimidos. Deus pode estabelecer o fim da nossa existência terrena e pode também decretar a nossa condenação eterna.

A transformação do corpo mortal em corpo de ressurreição acontecerá quando a criação inteira for recriada pelo Espírito, quando a morte não mais existir. A ressurreição do corpo é apenas uma parte da nova criação (2 Pd 3,13). A esperança cristã não se ocupa apenas com a sorte de cada indivíduo, mas com toda a criação. Pois, toda a criação está comprometida pelo pecado e destinada à deterioração provocada pela morte.

A redenção acontecerá quando o Espírito transformar toda a matéria. Através de um ato criador, Deus não destruirá a matéria, mas a libertará da decomposição. Nosso corpo participará desse processo. Nós seremos transformados (1 Co 15,51).

A ressurreição do corpo será um novo ato criador abrangendo a totalidade. Por isso, a ressurreição não acontece com a morte de cada indivíduo, mas no final de todo o processo.

Existe uma história da salvação no tempo, pois existe o pecado, que marca o início do domínio da morte sobre a criação. Pecado e morte precisam ser vencidos. Jesus alcançou essa vitória ao ressuscitar com corpo e alma, depois de estar realmente morto. O Espírito, o poder da ressurreição, passou a atuar. E Deus criou vida como no início. Vida nova. Em Jesus Cristo já aconteceu o milagre da ressurreição do corpo. Em lugar algum encontramos um corpo espiritual, a nova criação da matéria. A ressurreição só aconteceu em Jesus Cristo!

Cristo ressuscitou! Isso significa que já estamos vivendo na era da ressurreição: a morte já foi vencida pelo Espírito.

A morte já não exerce um domínio absoluto. O fato de haver um corpo ressuscitado interrompeu a marcha da morte.

Cada afirmação do NT é motivada por esta certeza: Cristo ressuscitou, ele é o primogênito dentre os mortos. Seu corpo de ressurreição é o primeiro corpo espiritual. A morte foi vencida e já existe a nova criação. O período da ressurreição está engrenado!

A ressurreição foi iniciada, mas a morte ainda está aí, pois cristãos ainda morrem. Pecado, doença e morte ainda existem. Mas, o novo poder criador, o Espírito, já está atuando neste mundo. Vivemos a tensão entre o já realizado e o ainda não completo. Essa tensão também está presente na proclamação de Jesus. Ele afirma que o Reino de Deus já chegou, pois os demônios são expulsos mediante o Espírito; Jesus reprime a morte, curando doentes e devolvendo pessoas à vida. E ele também anuncia o Reino de Deus numa perspectiva futura.

A tensão entre o já cumprido e o ainda não realizado vem a se constituir em característica essencial da vivência da fé.

Com a morte e a ressurreição de Cristo aconteceu a batalha decisiva. Falta apenas o dia da vitória.

A fé na ressurreição corporal de Cristo torna-se o cerne da fé do cristianismo primitivo.

O primogênito dentre os mortos inaugurou o tempo final. Mas ainda persiste uma distância no tempo entre o primogênito e a ressurreição de todos nós. Não sabemos qual a extensão dessa distância.

Existe um período intermediário entre a ressurreição de Jesus, que já se realizou, e a nossa ressurreição, que acontecerá no final – na plenitude.

O poder de vida do Espírito já está atuando. Por isso, Paulo emprega o conceito de “primícias” para o Espírito (Rm 8,23), e também para o Jesus ressuscitado (1 Co 15,23).

Nós já temos a antecipação da ressurreição em duas maneiras:

- Nossa dimensão interior é renovada a cada dia pelo Espírito (2 Co 4,16 e Ef 3,16).

- Nosso corpo é agarrado pelo Espírito. A resposta para a pergunta angustiante “quem me libertará dessa condição mortal?” (Rm 7,24) é: o Espírito Santo!

As testemunhas da ressurreição se depararam com o corpo espiritual de Jesus.

Paulo não afirmou que crê na ressurreição da carne, a exemplo do Credo Apostólico. Paulo crê na ressurreição do corpo. Pois, nosso corpo ressuscitará, quando o poder de vida do Espírito criar tudo novo. Será a transformação do corpo mortal em corpo espiritual. Toda criação será recriada pelo Espírito. Toda a realidade passará a existir numa dimensão espiritual.

Jesus Cristo transformará nosso corpo de humilhação em corpo de glória (Fl 3,21). Observemos também 2 Co 3,18. Falta-nos analogia para descrever a glória.

A transformação do corpo acontecerá no fim dos tempos.

O que acontecerá até lá?

A morte já foi vencida (2 Tm 1,10). Mas, somente no final a morte será destruída (1 Cor 15,26). No final, a morte deixará de existir (Ap 20,14). Isto significa que a transformação do corpo não acontecerá logo após a morte de cada indivíduo.

Os mortos ainda se encontram dentro da categoria do tempo, como observamos na preocupação exposta em 1 Ts 4,13-18. Os mortos em Cristo aguardam com impaciência (Ap 6,9-11). Os mártires dormem sob o altar.

Textos como Lc 16,23; Fl 1,23 e Lc 23,43 não se referem à ressurreição do corpo e nem suprimem a parusia. É abordada a situação dos que morrem em Cristo antes do julgamento final. É uma situação intermediária. Trata-se de uma situação de proximidade com Cristo. Encontrar-se junto a Abraão (Lc 16,23), debaixo do altar (Ap 6,9) ou com Cristo no paraíso (Lc 23,43) são expressões para a proximidade com Deus. Observemos Ap 14,13.

O homem crucificado com Jesus quer ser lembrado no momento em que o Messias instaurar o seu reino, segundo a expectativa messiânica judaica. Jesus não responde ao pedido, mas proporciona mais do que o solicitado: antes de se realizar o desejo, o homem já estará reunido com o Messias.

O texto de Mt 27,51-53 também tem suscitado perguntas pertinentes a uma ressurreição antes do tempo final: por ocasião da morte de Jesus, o véu do santuário se rasgou, abriram-se os túmulos e muitos corpos dos santos falecidos ressuscitaram e entraram na Cidade Santa.

O objetivo do texto é manifestar o poder escatológico da morte de Jesus. Os verbos na voz passiva denotam que Deus é o autor dos acontecimentos miraculosos. A realidade vindoura despontou. A porta para o período vindouro foi aberta. A decisão escatológica foi decretada pela morte de Jesus. Toda a dimensão escatológica é uma consequência dessa morte. A nova realidade torna-se evidente no santuário de Deus: o Santíssimo deixa de ser a morada exclusiva de Deus. É o fim do culto de sacrifícios do AT e o acesso ao santuário escatológico inaugurado com a morte de Jesus. Seguem-se os sinais na natureza. Observemos Mt 24,7; Ap 8,5; 11,19 e 16,18. São sinais característicos do Dia do Senhor (Am 8,9).

Não podemos identificar os santos e justos que ressuscitaram no dia da crucificação e da morte de Jesus. A Igreja primitiva pensou em Zacarias, João Batista, Simeão, Ana e outras pessoas falecidas, que tinham depositado sua fé em Cristo. Observemos 1 Ts 4,14. O texto se refere a pessoas que se tornaram santas em sua vida. Como indivíduos, alcançaram aquilo que Deus espera de todo o povo: a santificação. Por isso, eles podem ser os mensageiros da plenitude e os primogênitos do povo santo e escatológico a entrar na cidade santa. Os santos se manifestaram. É o início de uma comunidade santa, que anda na cidade santa em lugar do santuário terrestre. É o início do ano de Deus.

O texto menciona uma ressurreição de santos como também é testemunhado em Jo 5,25. Muitos santos tornam-se primogênitos, sendo sua ressurreição ocasionada pela morte de Jesus. Os milagres caracterizam o que a morte de Jesus significa. A morte foi enfrentada por Jesus. O acesso ao Pai foi franqueado aos que creem em Cristo. A experiência aconteceu com o povo santo de Deus na cidade santa. O AT considera a ressurreição desses justos como sinal da era escatológica (Is 26,19; Ez 37,1-14 e Dn 12,3). A morte de Jesus inaugura a era escatológica; tem início uma nova etapa na história da salvação. Em Hb 2,14 lemos que a missão de Cristo foi “destruir pela morte o dominador da morte, isto é, o diabo; e libertar os que passaram toda a vida em estado de servidão, pelo temor da morte”. A morte de Jesus liberta as pessoas dessa tirania (Ef 1,7; Hb 9,12; At 20,28 e Rm 8,3). É, portanto, testemunhado o poder escatológico da morte de Jesus.

A mensagem do NT ressalta que existe um tempo intermediário para os mortos. Mas, não estamos autorizados a fazer especulações a respeito do estado dos mortos nesse período intermediário.

Em 2 Co 5,1-11 observamos que os mortos ainda não têm o novo corpo e apenas dormem. Mas, eles se encontram na proximidade de Cristo. Paulo expressa um medo de se encontrar “nu”, referindo-se ao homem interior sem corpo. Paulo prefere ser revestido com o corpo espiritual estando vivo por ocasião da parusia de Cristo. Isso confirma que a morte continua sendo adversa. O mesmo texto mostra o medo diante do estado de nudez da alma, e também manifesta a confiança de se encontrar com Cristo no período intermediário.

A confiança de se encontrar com Cristo no período intermediário fundamenta-se no fato de que o nosso homem interior já se encontra sob o controle do Espírito, que o agarrou. O Espírito, estando verdadeiramente em nós, vai transformando o homem interior, fixando-se nele. O Espírito é poder de vida e poder criador de Deus. A morte não pode causar-lhe mal algum.

Para aqueles que morrem em Cristo e se encontram em poder do Espírito, não existe mais o terrível abandono na morte, e a separação de Deus. O Espírito é o penhor, o adiantamento, a garantia daqueles que morrem em Cristo e se encontram junto ao Senhor.

Textos como 2 Co 5,8 e Fl 1,23 mostram que na morte (no sono) os cristãos estão até mais próximos de Cristo. Sob a ação do Espírito e sem o corpo carnal, a pessoa tem uma comunhão mais próxima com Cristo. Os mortos não contam mais com as limitações do corpo carnal, mas seu estado ainda é incompleto, pois falta-lhes o corpo de ressurreição. Eles se encontram em poder do Espírito. Estaremos na proximidade de Cristo, pois desde o recebimento do Espírito nós participamos na antecipação do final.

O texto de 2 Co 5,1-11 mostra que o medo e a confiança estão entrelaçados. Medo de se encontrar sem corpo e confiança de que nada pode nos separar de Cristo nesse período transitório (nem mesmo a morte – Rm 8,38). Isso mostra que os mortos participam na expectativa do momento presente. Mas, a confiança predomina, pois a decisão já foi lançada: a morte foi vencida. A pessoa interior, sem corpo de ressurreição, não está sozinha; ela não se encontra num mundo de sombras onde não há vida, como oSheol, mencionado no AT. A pessoa interior já foi transformada pelo Espírito durante sua vida, sendo agarrada pela ressurreição (Rm 6,3-11 e Jo 3,3-21). O Espírito é uma dádiva de Deus. E essa dádiva nós não perdemos com a morte. A pessoa que morreu em Cristo possui o Espírito, mesmo que esteja “dormindo” e esperando o corpo de ressurreição. Com a ressurreição do corpo, a pessoa será presenteada com a vida plena e verdadeira. Observemos 1 Co 15,54; Rm 14,8-9; 1 Ts 5,10 e Ap 14,13.

Devemos admitir que existe uma continuidade na pessoa interior, que já é transformada pelo Espírito em vida e continua vivendo em seu estado de sono. Há uma analogia com o pensamento grego. A continuidade é bastante acentuada em João (3,36; 4,14 e 6,54). Mas, ainda permanece uma diferença radical com o pensamento grego: o estado dos que morreram em Cristo ainda é incompleto. É um estado de sono, de nudez, de espera pelo corpo espiritual e pela ressurreição de toda a criação. A morte continua sendo um inimigo, vencido, mas ainda não destruído. O fato de os mortos se encontrarem com Cristo não se deve a uma condição natural da alma, mas a uma intervenção de Deus: por intermédio da morte e ressurreição de Cristo e através do Espírito, que atua na pessoa interior com seu poder de ressurreição já nesta vida terrena.

A ressurreição do corpo ainda é aguardada (também no evangelho segundo João), mas com a certeza da vitória, pois o Espírito já mora na pessoa interior. O mesmo Espírito também transformará o corpo.

Como poder de vida, o Espírito não conhece restrições e nem limites. “E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos dará também a vida aos vossos corpos mortais, por seu Espírito que habita em vós” (Rm 8,11). O apóstolo Paulo também ressalta que “o Senhor Jesus Cristo que há de transfigurar o nosso corpo humilhado, para torná-lo semelhante ao seu corpo glorioso, com a força que também o torna capaz de tudo submeter ao seu poder” (Fl 3,21).

O Espírito é um poder que dinamiza a existência humana, pois é a força criadora de Deus. Existe uma continuidade na pessoa que é transformada pelo Espírito em vida (Jo 3,36; 4,14; 6,54). A continuidade é proporcionada pelo Espírito em nós, como garantia, penhor, sinal e pagamento antecipado da ressurreição. O poder de ressurreição do Espírito atua na dimensão interior da pessoa, renovando-a a cada dia (2 Co 4,16). Estamos nos encaminhando para uma realidade em que “existe um corpo cuja substância não é mais carne, mas Espírito”, declara Cullmann, prosseguindo: “Nós não sabemos ‘como’ será o corpo ressuscitado do qual nos revestiremos no fim dos tempos. Quanto à sua natureza nós aprendemos somente que este será um corpo espiritual, o que significa que o Espírito não será somente o seu princípio, mas também sua substância (1 Co 15,35-49)”.

Nós esperamos e os mortos esperam. Certamente o tempo transcorre de um modo diferente para os mortos do que para nós. O período intermediário deve transcorrer numa outra dimensão de tempo, mais abreviada, para os que dormem. Eles se encontram numa outra dimensão de tempo.

Estêvão, o primeiro mártir cristão, repleto do Espírito Santo, viu “os céus abertos e o Filho do Homem de pé à direita de Deus” (At 7,55-56). A morte foi vencida por Cristo. Com essa confiança, Estêvão passou pela morte!

Literatura:

BÍBLIA DO PEREGRINO, Tradução e notas de Luís Alonso Schökel, São Paulo: Paulus, 2002.

CULLMANN, Oscar. Das origens do Evangelho à formação da teologia cristã, p. 183-210.

JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento, p. 427-441.

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