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  • Maria Luiza Rückert

Wu Wei - A Arte de Viver o Tao



Theo Fischer


Deve-se seguir esta filosofia sem um motivo específico – sem a expectativa de uma recompensa.


Não é necessária nenhuma crença, não se exige nenhuma religião. Tao é a mais pura sabedoria de vida. “Tao é uma dimensão sua e minha. Ela não é acessível ao pensamento, mas pode ser vivida e realizada por nós”.


O que é bonito no Tao é que você não precisa acreditar em nada, não há exercícios obscuros prescritos, não há regras morais severas para alcançar o sucesso, mas vive-se o Tao e você pode sentir o efeito mais forte da maneira mais simples: tentando.


Permita-me voltar rapidamente ao chinês: WU WEI. Estas duas sílabas contêm todo o segredo da arte de viver o Tao. Traduzindo textualmente significa: “não fazer nada”, “não agir”.


No sentido mais profundo, WU WEI quer dizer que em nossas decisões não devemos fazer nada contra a nossa autoridade interior, o Tao. Procuramos enfrentar os desafios da nossa vida com os escassos recursos do nosso intelecto, da nossa experiência. Dessa forma nós interferimos em forças inacessíveis ao nosso pensamento, aquelas que não só resolvem nossos problemas da melhor forma, mas que também estão em condições de resolvê-los de outra maneira.


É totalmente suficiente enxergarmos o problema sem refletir sobre ele, sem analisá-lo. O resto podemos deixar tranquilamente por conta do Tao.


O Tao só pode ser vivido e realizado no presente, agora. Talvez esta seja a única tarefa difícil para você, isto é, não ficar vagando com a sua mente nem no passado, nem no futuro, porém sempre e constantemente permanecer no aqui e agora.


Nós estamos com a mente se movimentando constantemente, nosso pensamento se ocupa com acontecimentos passados ou futuros, uma alegria antecipada orienta a nossa visão ou o medo de certos acontecimentos, ou espreitamos com esperança. Mas não aproveitamos aquele momento que estamos vivendo. Estamos mentalmente muito ocupados com todo tipo de bobagem para que possamos nos ocupar ainda com a realidade.


Enquanto não olharmos diretamente de frente as tristezas do nosso cotidiano, não se modificará nada através do Tao. Porém, se conseguirmos contemplar nossa existência de forma tão sensata e realista como ela realmente é, sem esquivar-nos de nenhum reconhecimento – por mais desagradável que seja, então não será necessário permanecer por muito tempo nesse estado cinzento. Como que, por um comando à distância, em seguida a sua vida será dominada por energias com as quais você nem ousaria sonhar.


Os pensamentos resultam sempre da comparação com elementos da memória, da lembrança; eles pertencem, por conseguinte, ao passado, independentemente daquilo que tratam. As ideias e a as perspectivas do futuro também se baseiam em experiências do passado. Porém o Tao, essa nossa dimensão independente de todos os tempos, só existe no presente, neste pequeníssimo espaço de tempo entre o passado e o futuro.


O pensamento sempre nos tira do presente e nos conduz ao passado, mesmo sendo por frações de segundos, quando interpretamos um acontecimento imediato em vez de vivê-lo diretamente.


O esforço humano, para de alguma maneira, sempre ser melhor do que os outros ou que nós mesmos, no momento presente é ridículo.


Assim que esta observação estiver livre de pensamentos ela será idêntica ao efeito do Tao. Permanecer realmente com o espírito no presente, observar atentamente os acontecimentos, registrá-los sem análise, este é o primeiro passo para a realização do Tao na nossa vida. Deixar os acontecimentos seguirem o seu fluxo sem resistir, apenas observá-los, isto é agir na não-ação, isto é wu wei.


O segundo (e único) passo adicional é a necessidade de se libertar interiormente de todos os compromissos, de todo tipo de autoridade.


Este segundo passo pode facilitar muito a vida no presente.


Não são os prazeres da vida que nos afastam do Tao, porém apenas o compromisso interior com eles. Se você observar persistentemente as suas reações diante dos acontecimentos da vida – isto é, num momento em que ocorrem, você logo perceberá o tipo e a dimensão do seu compromisso.


Você constatará que esses compromissos perderão, por si mesmos, o poder sobre você.

Se você na vida já passou por uma crise profunda que chegou até aos fundamentos de sua existência, então você lembrará que a mudança para melhor ocorreu justamente naquela fase em que se entregou por estar muito exausto para continuar a lutar. Naquela época você simplesmente experimentou a mão do Tao, pois ela surge com força em nossa vida naquele momento em que tiramos a mão do leme, quando desistimos. Assim esta enorme força estranha pode tornar-se eficaz, e precisamente com uma inteligência que opera muito além do pensamento. Nossos problemas existenciais solucionam-se de uma forma que depende de uma sabedoria tão profunda que a nossa razão não a possui.


Pois o fluxo da vida é idêntico ao Tao, assim como nós também somos idênticos a ele. A partir do momento em que você perceber isto, não será mais necessário lutar e esgotar-se; ocupar-se dia e noite com as suas preocupações e necessidades, e perceberá que sua vida consiste na mistura de poucas alegrias e muitos problemas.


Se você seguir atentamente aqui e agora o decurso da vida, este o levará a todo local desejado, a todo objetivo, antes mesmo que você possa imaginá-lo. Sim, é indispensável que você desista de seus propósitos, seu próprio esforço, seus desejos de ser algo que ainda não é. Você precisa aprender a não fazer mais nada, a observar e ser atento.


Deixe-me resumir o que foi colocado até agora: Wu wei significa não querer agir por si, mas deixar a ação e a decisão para esta autoridade, o Tao. Além da disposição de tirar a mão do leme de nossa vida, existe a necessidade de voltarmos a nossa atenção cada vez mais para o presente. Ao invés de fazermos transitar nossos pensamentos pelo passado e pelo futuro, devemos observar o nosso cotidiano e dar-lhe total atenção. Nossa vida mudará. O decisivo é viver o aqui e o agora.


Não somos capazes de ver além daquilo que aprendemos.


Você alcançará mais facilmente a nova maneira de viver, de realmente estar presente aqui e agora, se esquecer qualquer tipo de conhecimento. Tudo aquilo que você aprendeu até o momento atual não serve para a prática de vida no Tao.


Você deve olhar para a sua vida com olhos inocentes de uma criança. Então perceberá que as coisas mudam, que os seus dias transcorrem de maneira diferente.


É necessário descobrir todas as sombras de seus deveres, observá-las, dar atenção a elas, até que você tenha compreendido a extensão de seu aprisionamento. Só prestar atenção já traz mudanças. Você deve fazer suas observações exclusivamente no presente.


A atenção não é algo que podemos simplesmente conseguir, como, por exemplo, a concentração. A concentração é cansativa, pois temos de juntar nosso cérebro e nossos sentidos para conseguirmos nos fixar num determinado objetivo. [...] A atenção não tem nada a ver com o pensamento. Muito pelo contrário. [...] A atenção surge por si mesma quando determinadas condições são preenchidas. Uma das condições é a libertação de qualquer dever (interior ou exterior). A partir daí a liberdade surge por si. A segunda condição é observar.


Observar não é um processo intelectual. Na verdade, é uma coisa muito simples: nós notamos algo, talvez uma borboleta ou uma nuvem com um formato interessante, e olhamos para ela. Nada mais.


Perdemos a capacidade de olhar para alguma coisa ao nosso redor sem colocar nossos pensamentos a funcionar.


O que complica é o nosso terrível costume de pensar. Não sabemos ser diferentes, temos de examinar e analisar tudo. [...] O que observamos em nossa forma habitual não é a realidade, porém a lembrança que temos dela.


Vivemos os acontecimentos ao nosso redor sempre no passado, pois nos tornamos incapazes de olhar e observar no presente.


Nós temos de reaprender a simplesmente contemplar coisas sem compará-las com as nossas lembranças ou identificá-las com rótulos.


Observar é um processo que ocorre de forma bem descontraída, não exige esforço e nenhum trabalho mental.


Assim que você se libertar de todas estas cargas, deixar por conta do Tao desembaraçar as coisas, e apenas viver o aqui e o agora, então haverá pouco conteúdo para seu pensamento se ocupar. A tranquilidade tomará conta de sua alma e de sua mente. O passado não estará preso a você e o futuro perde aquilo que assusta e é incerto. E todos os seus assuntos estarão bem resolvidos.


O que sabemos de nós mesmos percebemos através das comparações. Só sabemos como somos em comparação com os outros. Comparamos como uma pessoa correta deve ser, como alcançar o sucesso ou o que os outros esperam de nós. As nossas atitudes se orientam por esses parâmetros.


A suave arte de observar é o princípio básico para a atenção.


Observar é um processo que inclui todos os sentidos: tato, audição, sabor, olfato e visão.


Criatividade e inspiração prosperam no solo nutritivo do wu wei, da ação sem agir. Aqui, agir é observar, agir é atenção. Com a percepção de um processo nós o influenciamos, o modificamos. Esse processo ocorre a nosso favor, não necessitamos de nenhum ato de força para direcionar as coisas para a direção certa.


A verdadeira força está na profundeza de seu espírito. O Tao, a sua e a minha dimensão sem espaço, opera no Além do tempo, espaço e pensamento. Seria bom você aprender a confiar o seu destino sem reservas a esta força.


No sentido filosófico oriental, o vazio é o estado original do Cosmos, um vazio que potencialmente contém toda a criação em si. A mente humana, no estado do silêncio, ou seja, sem pensamentos é comparada a este vazio.

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